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"A Oficial Que Minha Família Nunca Enxergou" Capítulo 3

正文开头

Rafael bateu à porta do meu quarto às doze e dezessete.

Usava calça de moletom e uma camiseta azul com o emblema de um navio. O uniforme, a patente e a postura de cerimônia tinham ficado no andar de baixo.

— Posso entrar?

— Você vai se casar em menos de doze horas.

— Você também deveria estar dormindo.

Abri passagem.

Ele ficou perto da escrivaninha enquanto eu tirava as botas. A bolsa estava aberta sobre a cadeira, pronta para outra partida rápida.

— Vim pedir desculpas.

— Por ter me reconhecido?

— Pelo que veio depois.

— Você não provocou aquilo.

— Expus uma coisa que a Lívia não sabia que existia.

— Ela descobriria algum dia.

Rafael me olhou.

— Descobriria?

Sentei na beirada da cama.

Ele tinha uma pergunta justa e eu detestava respostas justas naquela hora.

— Sua irmã acha que você não gosta dela — disse.

— Isso é absurdo.

— Ela diz que você a ama por obrigação, mas nunca quer ficar perto.

— Eu ligo para ela.

— Cansada.

— Costumo estar cansada.

— E responde "talvez" quando ela pede que você venha.

— Às vezes eu realmente não sei onde estarei na semana seguinte.

— Eu entendo.

A diferença ficou entre nós. Rafael entendia a frase porque conhecia escala, embarque, prontidão e ordem de movimento. Lívia ouvia apenas uma irmã que nunca confirmava presença.

— Eu não tenho raiva dela — falei. — Tenho raiva do que acontece ao redor dela.

Rafael assentiu.

— Ela abriu a conta antiga.

Estendeu o telefone.

Lívia pesquisara meu nome nos e-mails de Diana. O primeiro resultado era uma mensagem para tia Ruth, enviada durante meu primeiro destacamento fora do país.

"Helena poderia voltar se quisesse. A Marinha virou a desculpa perfeita para evitar a família."

Na data daquela mensagem, eu estava embarcada e sem autorização para deixar a missão.

O segundo e-mail falava de um Natal.

"Ela tinha folga. Preferiu não usar."

Meu pedido de licença aparecia anexado em outra conversa, com a palavra INDEFERIDO no alto. Minha mãe recebera uma cópia porque eu mesma a enviara, tentando explicar.

Passei o dedo pela tela.

— Lívia leu tudo?

— Ainda está lendo.

O e-mail da formatura surgiu logo abaixo.

"Mãe, sei que a final da Lívia será no mesmo fim de semana. Minha cerimônia termina sábado à tarde. Se pelo menos um de vocês puder vir, será importante para mim."

A resposta de Diana permanecia intacta.

"Não vamos dividir a família por cada marco militar. Lívia trabalhou muito. Você ainda terá outras cerimônias."

Eu lembrava do sentido. Meu corpo recordava as palavras.

— Tem mais — Rafael disse.

— Claro que tem.

— Sua mãe contou à Lívia que você recusou o convite para ser madrinha.

Levantei os olhos.

— Nunca fui convidada.

— Ela disse que você não usaria o vestido.

— De que cor?

正文1

— Azul-marinho.

Eu ri. Rafael acompanhou por dois segundos, até a graça morrer no meio da respiração.

Procurei minhas mensagens de seis meses antes. Diana escrevera: "Lívia decidiu manter o cortejo pequeno. Não leve para o lado pessoal."

Eu respondera: "Claro. O importante é ela ficar feliz."

Rafael leu.

— Ela mentiu para as duas.

— Sim.

À uma e três, a porta se abriu.

Lívia entrou com os olhos inchados e o cabelo preso de qualquer jeito. Camila veio atrás com um notebook e fechou a porta.

Minha irmã me abraçou sem pedir.

Fiquei rígida por um segundo. Depois envolvi seus ombros.

— Desculpa.

— Você não precisa pedir desculpas.

— Acreditei nela.

— Ela é sua mãe.

— Também é sua.

Sentamos na cama. Rafael continuou próximo da porta até Lívia apontar para a cadeira.

— Fica.

Camila abriu o computador.

— Baixei as conversas. A conta começou a desconectar quando sua mãe tentou trocar a senha.

— Ela tentou agora? — perguntou Lívia.

— Onze e quarenta e oito.

As datas montaram uma linha que nenhum discurso conseguiria desfazer.

Convites de aniversário que nunca chegaram até mim. Uma viagem em família para Paraty em que Diana informou aos parentes que eu recusara antes de perguntar. Um Natal em que ofereci voar por quarenta e oito horas.

Minha mãe respondera: "Talvez seja melhor vir em outra ocasião. Augusto acha cansativo quando tudo acaba em conversa militar."

Para a tia Ruth, no mesmo dia, escreveu: "Helena escolheu o serviço outra vez."

Lívia fechou o computador por alguns segundos.

— Eu repetia isso para os outros.

— Você repetia o que ouviu.

— E nunca confirmei com você.

— Eu também parei de explicar.

— Por quê?

Passei a mão pela colcha.

— Cada explicação virava defesa. Era mais fácil ficar longe.

Lívia abriu o notebook novamente.

— Isso começou quando?

Buscamos mensagens antigas até chegar ao ano em que Augusto propôs a adoção. Minha recusa não estava escrita, mas as semanas seguintes tinham outro tom.

Diana mencionava minha "fase hostil". Augusto perguntava quando eu "superaria a devoção teatral" ao meu pai.

— Ele escreveu isso? — Lívia perguntou.

— Nunca vi a mensagem.

— A mãe respondeu que teria paciência.

Rafael se aproximou da tela.

— Paciência para quê?

Ninguém respondeu.

Às duas, Lívia ligou para Diana.

Minha mãe atendeu no quarto toque.

— Querida, você precisa dormir.

— Por que disse que Helena não queria participar do meu casamento?

Silêncio.

— Estou tentando proteger o fim de semana.

— De quê?

— Você sabe como sua irmã é.

Lívia olhou para mim.

— Não. Pelo visto, não sei.

— Você está cansada e emotiva.

Minha irmã sentou mais reta.

— Você a convidou para ser madrinha?

— Eu sabia que ela ficaria desconfortável.

— Convidou?

— Não.

— E disse a ela que eu queria um cortejo pequeno.

正文2

Diana respirou perto do microfone.

— Helena está aí.

— Está.

— Claro.

Uma palavra, e de novo eu aparecia como intrusa numa conversa sobre mim.

Inclinei-me para o aparelho.

— Você alterou a senha da conta?

— Esses e-mails são antigos e foram escritos em momentos difíceis.

— Alterou?

— Sim.

Camila salvou o último arquivo e fechou o notebook.

Lívia bateu a mão no colchão.

— Ela não está fazendo isso sobre ela, mãe. Eu fiz as perguntas.

— Amanhã é o seu casamento.

— Por que manteve nós duas afastadas?

Diana demorou tanto que conferi se a chamada continuava.

— Tudo mudou depois que Tomás morreu.

Minhas mãos pararam.

— O que o pai dela tem a ver comigo? — Lívia perguntou.

— Helena ficou igual a ele. Conservou o nome, entrou para a Marinha, usava as ferramentas dele. Cada visita fazia Augusto sentir que havia outra pessoa dentro do nosso casamento.

— Helena tinha quinze anos.

— Eu sei.

Falei antes que minha mãe pudesse usar aquelas palavras como ponto final.

— Você sabia que Augusto me punia por não aceitar o nome dele?

A resposta veio baixa.

— Sabia.

Lívia apertou o telefone entre as mãos.

— E deixou?

— Convenci a mim mesma de que ele tentava construir uma família.

— Apagando o pai dela?

Diana começou a chorar.

— Eu estava tentando salvar meu casamento.

Olhei o relógio do quarto. Em poucas horas, minha irmã vestiria branco e faria promessas diante de todos.

— Conversamos depois — falei.

— Helena, eu preciso explicar.

— Amanhã é o casamento da Lívia. Pela primeira vez, vamos deixar que o dia seja dela.

Encerrei a chamada.

Lívia continuou segurando o aparelho.

— Você ainda está tentando não estragar meu casamento.

— Pretendo manter pelo menos uma tradição saudável.

Ela riu com o rosto molhado.

Depois abriu o armário.

— Quero você ao meu lado amanhã.

— Jéssica é sua madrinha.

— Ela continuará no cortejo e vai comemorar por não fazer discurso.

— Não tenho vestido.

Lívia afastou os cabides.

Um vestido azul-marinho estava pendurado no fundo. Exatamente do meu tamanho.

No saco da costureira, uma etiqueta trazia meu nome e uma data de quatro meses antes.

Minha mãe preparara um lugar para mim enquanto dizia a todos que eu não o queria.

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