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"A Oficial Que Minha Família Nunca Enxergou" Capítulo 2

正文开头

O jantar tentou continuar enquanto minha bolsa permanecia no meu ombro.

Garçons trocaram pratos, o quarteto retomou a música e alguém pediu mais vinho. Três militares vieram até mim em momentos diferentes.

Um deles conhecia minha antiga comandante. Outro servira com uma equipe que recebeu carga durante o ciclone. O terceiro apenas apertou minha mão.

— Parabéns pela promoção, senhora.

— Obrigada.

Minha mãe acompanhava cada cumprimento. Augusto tinha parado de beber, o copo fechado entre as duas mãos.

Lívia me puxou para o corredor.

Rafael veio atrás.

— Mostra — ela disse.

— O quê?

— A mensagem em que você me contou da promoção.

Peguei o telefone e procurei a conversa. Oito meses antes, entre uma fotografia do cachorro de Lívia e um pedido para eu confirmar presença no casamento, estava minha frase.

"Saí na lista de capitão de fragata. Parece que vão ter de me aguentar mais um pouco."

Ela leu duas vezes.

— Achei que fosse uma função temporária.

— É uma patente.

— Eu não sabia.

Rafael encostou no aparador.

— A seleção é competitiva. E normalmente vem acompanhada de responsabilidade grande.

— Quantas pessoas mesmo? — ela perguntou.

— Não contei no café da manhã.

— Helena.

— Centenas, dependendo da operação. Nem todas respondem diretamente a mim.

Rafael ergueu uma sobrancelha.

— Ela está reduzindo.

— Estou tentando chegar viva ao casamento.

Lívia cobriu o rosto.

— Eu apresentei você para todo mundo como minha irmã da logística.

— Sou sua irmã da logística.

— Rafael falou de você.

Fiquei quieta.

— Ele contou sobre uma comandante que aterrorizava oficiais jovens durante uma operação no Pacífico.

— Eu não usei "aterrorizava" — protestou Rafael.

— Você disse que ninguém levava um problema à sala dela sem apresentar três soluções.

— Isso é educação básica.

Lívia riu e chorou na mesma respiração.

— Eu admirei você como se fosse uma desconhecida.

Minha mãe apareceu no corredor.

— Os convidados estão perguntando por vocês.

— Estou falando com a Helena.

— Hoje não é noite para abrir a história da família.

Rafael ajeitou a manga do uniforme.

— Amanhã também não será. Na semana seguinte haverá outro motivo.

Diana o encarou. Lívia deu um passo na direção dela.

— Por que você disse que a Helena fazia trabalho administrativo?

— Eu disse que a função dela envolvia administração.

— Envolve — falei. — Também envolve pista de voo, centro de operações, navio, combustível, remédio, gente cansada e decisões que não podem esperar a manhã seguinte.

— Eu não conheço termos militares.

— Nunca pedi que conhecesse.

Augusto chegou com o copo na mão.

— Chega desse teatro.

— Qual teatro? — perguntei.

— Você fica calada, olhando todo mundo como se fosse melhor do que nós.

— Eu estava ouvindo Caio falar de criptomoeda.

Rafael baixou a cabeça para esconder um sorriso.

Augusto apontou para mim.

正文1

— Você sempre desprezou esta família. Saiu aos dezoito e escolheu o caminho do seu pai.

Lívia franziu a testa.

— Do pai dela?

Augusto percebeu a falha. Minha mãe fechou os olhos.

Tomás Duarte servira vinte e quatro anos na Marinha. Morreu de câncer quando eu tinha quinze, seis anos depois de se divorciar de Diana.

Ele me ensinou a usar uma chave de boca, fazer café forte e chegar dez minutos antes. Também me ensinou que confiança e volume raramente moravam na mesma pessoa.

Augusto entrou em nossa casa dezoito meses depois do enterro.

— Isso ainda é sobre meu sobrenome? — perguntei.

— Você fez uma escolha.

— Eu tinha dezesseis anos.

— Idade suficiente para saber o que fazia.

— O que ela fez? — Lívia perguntou.

— Recusou minha adoção — respondeu Augusto. — Eu tentei transformar todos nós numa família.

Minha irmã olhou para mim.

— Você nunca contou.

— Ninguém perguntou.

Augusto soltou uma risada curta.

— Lá vem essa frase.

— Eu disse que já tinha pai. Você ouviu como rejeição.

— Você humilhou sua mãe.

— Eu estava enterrando um homem aos poucos dentro de mim.

— Você era difícil.

Lívia ficou entre nós.

— Foi por isso que você odiou quando ela entrou para a Marinha?

— Nunca odiei.

Tomás Montenegro estava na entrada do corredor. A postura dele indicava que ouvira o suficiente.

— O senhor faltou à cerimônia de formação dela? — perguntou.

Minha mãe respondeu:

— Havia duas cerimônias no mesmo fim de semana. Lívia tinha a final estadual de dança.

Eu conhecia a justificativa palavra por palavra.

"Sua irmã treinou o ano inteiro. Você terá muitas cerimônias militares."

Depois da ligação, fiquei seis minutos num banheiro. Lavei o rosto, retoquei a maquiagem e recebi meus documentos diante de um auditório cheio de famílias.

— Ela superou — disse Diana.

As palavras atravessaram o corredor.

Olhei para minha mãe.

— Esse sempre foi o seu critério para mim?

— Helena…

— Se eu sobreviver, você não precisa perguntar quanto doeu?

Lívia começou a chorar.

Eu ajustei a alça da bolsa.

— Vou para o hotel. Amanhã volto para a cerimônia.

— Não desse jeito — ela disse.

— Que jeito?

— Como uma convidada que prometeu aparecer. Você é minha irmã.

Augusto bufou.

— Agora todo mundo se lembra da família.

Lívia se virou.

— Para.

Ele ergueu o queixo.

— Como é?

— Pare de tratar tudo o que Helena faz como agressão a você.

— Lívia — chamou Diana.

— Não, mãe. Passei a vida ouvindo que ela era fria por faltar a aniversários, egoísta por morar longe e obcecada pela Marinha.

Lívia enxugou o rosto com a mão.

— Quanto disso era verdade?

— Faltei a coisas — respondi.

— Por escolha?

— Algumas. Em outras eu estava embarcada, destacada ou com licença negada.

正文2

— A mãe sabia?

— Sabia.

Diana não tentou negar.

Camila, uma das madrinhas, apareceu no corredor com o telefone de Lívia e uma pequena bolsa de maquiagem.

— Desculpa interromper. Lívia, sua mãe pediu que eu guardasse isso, mas chegou uma notificação da conta antiga da família.

Minha irmã pegou o aparelho.

— Qual conta?

— Aquela que vocês usaram para fotografias e documentos. Você me deu acesso para baixar o álbum.

Lívia olhou para a tela. Havia anos de mensagens, convites encaminhados e respostas arquivadas.

— A senha ainda funciona?

Camila assentiu.

Minha mãe estendeu a mão.

— Isso pode esperar.

Lívia afastou o telefone.

— O que mais eu não sei?

Diana ficou imóvel.

No visor, Lívia digitou meu nome no campo de busca.

Centenas de resultados apareceram.

Camila virou o notebook para Lívia. A tela mostrou uma pasta chamada "Família", organizada por ano, com cópias de convites e conversas que ninguém lembrava de ter guardado.

— Sua mãe arquivava tudo — disse ela.

Lívia abriu o ano do meu primeiro embarque. Havia uma fotografia minha de uniforme diante de um navio e, logo abaixo, uma mensagem de Diana para parentes dizendo que eu preferira passar meu aniversário com colegas.

— Você estava embarcada? — perguntou.

— Havia quarenta dias.

— Ela sabia?

— Recebia o calendário aproximado. Eu não podia divulgar os movimentos exatos.

Rafael aproximou-se.

— Isso explica por que sua mãe podia dizer qualquer data e ninguém conseguia conferir.

— Explica. Não justifica.

Tia Ruth apareceu carregando meu casaco, esquecido na cadeira.

— Vim devolver. E dizer que eu devia ter perguntado mais vezes.

— A senhora perguntava.

— Aceitei respostas de sua mãe quando deveria ter ligado para você.

Ela apontou para a tela.

— Houve um almoço no aniversário de Diana. Disseram que você cancelou na última hora.

Procurei no meu telefone. A conversa ainda existia.

— Minha mãe pediu que eu não fosse. Disse que Augusto estava com pressão alta e uma discussão faria mal.

Lívia leu a mensagem e apertou o maxilar.

— No almoço ela disse que você nem respondeu ao convite.

Um garçom atravessou o corredor anunciando a sobremesa. A normalidade do salão tornou a tela mais difícil de ignorar.

— Vou baixar tudo — disse Camila.

Diana avançou um passo.

— São conversas privadas.

— Sobre nós — respondeu Lívia. — E você mudou a senha quando percebeu que eu estava lendo.

Minha mãe desviou os olhos.

Rafael pegou meu casaco e entregou. Dessa vez, não tentou impedir que eu saísse.

— Vou acompanhar Helena até o carro — disse.

— Não precisa — respondi.

— Eu sei. Ainda assim, vou.

Lívia ficou diante da mãe com o notebook aberto nas mãos.

— Quero saber qual versão da minha irmã você me deu. Depois quero saber por quê.

No elevador, Rafael apertou o botão do térreo.

— Ela vai ler até o fim.

— Lívia sempre foi teimosa.

— Você também.

— No meu caso, chamavam de difícil.

As portas se fecharam enquanto, no corredor, minha irmã abria o primeiro e-mail da formatura.

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