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"O Rei do Porto Escolheu o Anjo de Seu Filho" PARTE 6 — A ARMADILHA NO CAIS

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PARTE 6 — A ARMADILHA NO CAIS

Na manhã seguinte, os advogados da Bellini Atlântico divulgaram uma nota curta.

As gravações originais da marina, afirmava o comunicado, haviam sido corrompidas e não podiam confirmar nem desmentir o vídeo que circulava na internet.

As ações de empresas ligadas a César Valverde subiram. Perfis anônimos intensificaram os ataques contra Lívia.

César mordeu a isca.

Uma câmera escondida registrou um de seus diretores entrando, à noite, no antigo armazém 17 do cais para retirar um dispositivo de armazenamento.

Lorenzo assistiu às imagens no centro de segurança.

“Deixem que ele leve.”

Augusto franziu o cenho.

“Podemos prendê-lo agora.”

“E César dirá que um funcionário agiu sozinho. Quero a ordem, o pagamento e o destino do arquivo.”

Um rastreador microscópico fora instalado no compartimento antes da retirada. O sinal seguia em direção à zona portuária.

Lorenzo marcou uma reunião extraordinária do conselho para aquela noite. Anunciaria que desistia do contrato de expansão e apresentaria um novo sistema de integridade. César deveria acreditar que a pressão funcionara.

Antes de sair, encontrou Theo construindo um porto de brinquedo no tapete. O menino colocou um navio na mão do pai.

“Você volta para jantar?”

Lorenzo olhou para Lívia.

“Vou tentar.”

“Não é resposta de verdade”, Theo reclamou.

Lorenzo se ajoelhou e ajeitou o colarinho do filho.

“Então esta é: eu sempre volto para buscar vocês.”

Theo pareceu satisfeito. Lívia, porém, percebeu o peso incomum da promessa.

No apartamento, Lívia recebeu um e-mail da faculdade.

O texto informava que a coordenação aceitara ouvi-la em caráter urgente. Um carro enviado pela instituição a levaria a uma unidade administrativa provisória, perto do porto, onde poderia apresentar sua versão antes da decisão final sobre o estágio.

Ela mostrou a mensagem ao segurança da porta.

Ele telefonou para o supervisor, conferiu a placa enviada no e-mail e confirmou que outro carro Bellini seguiria atrás.

Tudo parecia regular.

Ainda assim, quando o veículo entrou por uma rua cercada de galpões, Lívia sentiu algo errado.

“A unidade da faculdade fica aqui?”

O motorista não respondeu.

O carro que deveria acompanhá-los já não aparecia no retrovisor.

Lívia tentou abrir a porta. Travada.

Lembrou-se do que Lorenzo lhe dissera depois da invasão do apartamento: se alguém a retirasse da rota, não enfrentasse, não gritasse antes de saber onde estava, não entregasse o telefone principal.

Dentro da bolsa havia um pequeno botão de emergência. Ela o pressionou três vezes e o deixou cair entre o banco e a porta.

O carro parou no armazém 17.

Dois homens a puxaram para fora, tomaram sua bolsa e quebraram seu celular. Nenhum encontrou o transmissor preso sob o banco.

No centro de segurança, um alarme vermelho apareceu no monitor de Augusto.

“Lívia acionou o protocolo.”

Lorenzo já estava de pé.

“Localização?”

“O sinal acabou de entrar no armazém que estamos rastreando.”

O rosto de Lorenzo se tornou imóvel.

César não havia apenas mordido a isca. Transformara Lívia em garantia.

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“Cancele a reunião.”

“Se sairmos agora, ele perceberá que—”

“Meu conselho pode esperar. Ela, não.”

Lorenzo vestiu o colete sob o paletó e assumiu pessoalmente a primeira equipe.

Augusto abriu a planta do armazém. Havia duas entradas, uma passarela elevada e um túnel antigo de manutenção.

“A polícia está a caminho, mas César saberá quando eles entrarem na zona portuária.”

“Então não espere por eles.”

“Você é o principal alvo.”

“Por isso ele olhará para mim, não para os homens que entram pelo túnel.”

Lorenzo verificou a arma.

“A prioridade é Lívia. O servidor vem depois. César, por último.”

Dentro do armazém, Lívia foi amarrada a uma cadeira no piso superior. Lá embaixo, homens empilhavam caixas ao redor de um computador antigo.

Alto-falantes instalados nas vigas estalaram.

“A famosa heroína”, disse uma voz. “Você deveria ter deixado o menino afundar.”

Lívia reconheceu o ritmo arrogante dos discursos públicos de César Valverde, embora não pudesse vê-lo.

“Theo tinha seis anos.”

“E valia bilhões para o pai. Uma criança tão valiosa deveria ser melhor vigiada.”

“Foi você.”

Uma risada percorreu o galpão.

“Eu ofereci a Lorenzo uma escolha simples. O contrato ou uma tragédia. Ele recusou.”

Lívia manteve os olhos na porta lateral. Não precisava provocar César. Precisava mantê-lo falando até Lorenzo encontrar o sinal.

“Então pagou à acompanhante.”

“Ela era barata. Cento e vinte mil reais para se afastar por cinco minutos.”

“E o homem do cavalo-marinho?”

“Leal o suficiente para empurrar o menino e estúpido o suficiente para usar meu símbolo.”

“Você editou o vídeo para me culpar.”

“O Rio adora uma santa até alguém lhe oferecer uma bruxa. Bastou um corte e uma legenda.”

“Minha faculdade, meu trabalho...”

“Danos colaterais.”

Lívia fechou os olhos. César não era mais uma sombra, mas um homem convencido de que vidas comuns não tinham valor.

“E quando Lorenzo entregar o contrato?”

“Ele não entregará. Homens como nós preferem perder sangue a perder poder.”

“Então por que me trouxe aqui?”

“Porque ele perderá os dois.”

No prédio vizinho, Augusto captava cada palavra por meio do transmissor. O áudio era enviado simultaneamente a três servidores, ao escritório jurídico e a um contato da polícia.

Lorenzo colocou o fone.

Ao ouvir César dizer que Theo deveria ter morrido, algo mortal atravessou seus olhos.

“Temos a confissão”, disse Augusto. “Espere a equipe cercar o fundo.”

Um grito surgiu no fone.

Lorenzo não esperou.

Arrombou a porta lateral com dois homens. Disparos atingiram as colunas. Seus seguranças responderam, abrindo caminho sem mirar nos trabalhadores rendidos.

No piso superior, um dos captores derrubara Lívia no chão. Ela tentava proteger a cabeça enquanto o homem a puxava pelos cabelos.

Lorenzo subiu as escadas como se não houvesse balas ao redor.

O agressor apontou a arma para Lívia.

“Mais um passo e ela morre.”

Lorenzo parou.

“Olhe para mim”, ordenou a Lívia.

Ela ergueu os olhos.

“Quando as luzes apagarem, fique no chão.”

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O homem riu.

“As luzes não vão—”

O galpão mergulhou na escuridão. Augusto havia cortado o painel externo.

Lorenzo avançou. Um golpe seco, um disparo para o teto e o agressor caiu. Quando a iluminação de emergência acendeu, Lorenzo já estava ajoelhado diante de Lívia, cortando as cordas.

Os pulsos dela estavam feridos. Lorenzo passou o polegar a poucos milímetros das marcas, contendo a fúria para não assustá-la.

“Ele machucou você?”

“Só me derrubou.”

“Olhe para mim.”

Lívia obedeceu.

“Você fez exatamente o que precisava. Deixou o sinal, ganhou tempo e permaneceu viva.”

Não havia censura na voz dele, apenas um orgulho feroz que quase a fez chorar.

“Eu disse que viria.”

“Você não disse.”

“Então deveria ter dito.”

Uma explosão sacudiu o andar inferior.

César havia ativado cargas para destruir o servidor e qualquer vestígio do arquivo. Chamas subiram pelas caixas, fechando a escada principal.

Lorenzo colocou Lívia atrás de si e procurou a saída de emergência.

Outra viga cedeu.

Ele a empurrou para fora do alcance e recebeu o impacto no ombro. Caiu de joelhos.

“Lorenzo!”

“Estou bem.”

Ele não estava. Sangue escurecia a camisa junto à clavícula.

Mesmo assim, levantou-se, passou um braço ao redor das pernas de Lívia e a ergueu.

“Consigo andar.”

“Eu sei.” Ele a apertou contra o peito. “Mas não vou arriscar perder você outra vez.”

Carregou-a por uma passarela enquanto o fogo avançava. A fumaça queimava os olhos. Atrás deles, o teto começou a desabar.

Augusto abriu a porta externa segundos antes de as chamas alcançarem a saída.

Do lado de fora, sirenes se aproximavam. O áudio continuava sendo transferido. Na tela do tablet, a barra chegava a noventa e oito por cento.

Lorenzo colocou Lívia no chão, mas permaneceu diante dela, protegendo-a com o próprio corpo.

“César fugiu pelos fundos”, avisou Augusto.

Um movimento surgiu entre dois contêineres.

César Valverde apareceu com o rosto coberto de fuligem e uma arma na mão.

Lorenzo empurrou Lívia para trás.

No tablet, a transferência chegou a cem por cento.

César apontou para o peito de Lorenzo.

“Se eu não puder tomar seu império, vou arrancar o que resta dele.”

Lívia viu o dedo apertar o gatilho.

“Lorenzo!”

O disparo explodiu na noite.

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