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"O Rei do Porto Escolheu o Anjo de Seu Filho" PARTE 5 — A VERDADE SOB AS CÂMERAS

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PARTE 5 — A VERDADE SOB AS CÂMERAS

Ao amanhecer, havia repórteres diante da cafeteria, da faculdade e do antigo prédio de Lívia.

O número de seu celular vazou. Mensagens a chamavam de golpista, sequestradora e assassina.

Às oito da manhã, a coordenação do curso informou que seu estágio seria suspenso até que o caso fosse esclarecido.

Lívia leu o e-mail duas vezes.

“Eu não fiz nada.”

Lorenzo tomou o telefone de sua mão, sem violência, e o entregou a Augusto.

“Eu sei.”

“Mas eles não sabem.”

“Vão saber.”

Uma equipe jurídica já ocupava a sala de reuniões do apartamento. Especialistas comparavam vídeos, horários e câmeras da orla. Lorenzo colocou diante deles uma regra simples.

“Nada de atacar a vida particular de Lívia. Provem o que aconteceu.”

Uma advogada explicou que responder imediatamente à multidão poderia favorecer quem publicara o vídeo.

“Precisamos do arquivo completo, não apenas afirmar que ele foi manipulado.”

Lívia abraçou os próprios braços.

“Quanto tempo?”

“O necessário”, respondeu Lorenzo.

“Minha faculdade pode me expulsar antes disso.”

Ele se aproximou.

“Então meus advogados impedirão qualquer decisão sem investigação. Você não vai implorar para acreditarem em você. Eu vou colocar a verdade na frente deles.”

O telefone da coordenadora tocou antes que Lívia pudesse responder. Lorenzo colocou a chamada no viva-voz e deixou que a advogada falasse primeiro.

“Qualquer punição definitiva baseada em um vídeo não autenticado será contestada”, explicou ela.

“Não quero ameaçar a faculdade”, disse Lívia.

“Nem eu”, respondeu Lorenzo. “Quero apenas que lhe deem o mesmo direito que dariam a alguém com dinheiro e sobrenome.”

A frase a atingiu com força. Lorenzo não prometia comprar uma porta para ela. Prometia impedir que a fechassem injustamente.

Naquela tarde, Lorenzo levou Lívia e Theo à sede da Bellini Atlântico. Pretendia mantê-los longe dos jornalistas enquanto coordenava a busca pelas gravações.

O plano falhou no estacionamento subterrâneo.

Um repórter surgiu atrás de uma coluna. Outros entraram antes que o portão fechasse.

“Lívia, você empurrou o menino?”

“Quanto Lorenzo pagou pelo silêncio da polícia?”

“Theo, aquela mulher mandou você chegar perto da água?”

O menino parou.

Seu rosto perdeu a cor.

“Não”, sussurrou. “Não, não, não...”

Lorenzo o ergueu nos braços. Com a outra mão, puxou Lívia para trás de si.

“Olhe para mim, filho.”

Theo agarrou a gola do pai e escondeu o rosto.

Lorenzo avançou enquanto os seguranças abriam caminho.

“Se qualquer câmera apontar para meu filho outra vez, a emissora responderá por isso.”

Nenhum jornalista tentou ultrapassá-lo.

No elevador, Theo chorava em silêncio. Lívia tocou suas costas, mas foi Lorenzo quem o segurou até a crise passar.

“Ninguém vai obrigar você a falar”, prometeu ao menino. “Seu pai cuida disso.”

Depois que Theo adormeceu em uma sala reservada, Lorenzo permaneceu sentado ao lado dele.

“Foi minha decisão trazê-los”, disse. “Eu deveria ter previsto os jornalistas.”

“Você não controla tudo.”

“Quando se trata dele, preciso controlar o suficiente.”

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“Theo não precisa de um pai que acerte sempre. Precisa daquele que fica quando ele está com medo.”

Lorenzo ergueu os olhos.

“E você ficou”, completou Lívia.

Ele sustentou o olhar dela, mas não transformou a proximidade em avanço. Apenas voltou a mão para os cabelos do filho.

A equipe encontrou sete câmeras que poderiam ter registrado a marina. Duas pertenciam à prefeitura, três a estabelecimentos privados, uma a um iate e outra ao sistema de tráfego.

Quatro arquivos haviam sido apagados. Dois mostravam ângulos inúteis. O vídeo do iate estava incompleto.

“Alguém preparou isso com antecedência”, disse Augusto.

Lorenzo não ergueu a voz.

“Encontre o que esqueceram.”

Horas depois, um técnico reproduziu a postagem anônima ao lado do arquivo parcial do iate. Lívia assistiu repetidas vezes.

No vídeo adulterado, uma buzina grave soava pouco antes de Theo cair. No arquivo do iate, a mesma buzina tocava depois de a equipe de resgate chegar.

“Está errado”, disse ela.

Todos olharam para Lívia.

“O quê?”

“A buzina da barca. Eu a ouvi quando já estava na água.”

O técnico isolou o áudio.

“Ela tem razão. O som pertence a outro horário.”

Consultaram o registro público de chegada das embarcações. A barca correspondente passara quase nove minutos depois do momento atribuído ao vídeo.

“O autor usou o áudio para esconder um corte”, concluiu a advogada.

Lorenzo fitou Lívia.

“Foi o suficiente.”

Ela balançou a cabeça.

“Foi só uma lembrança.”

“Uma lembrança que acabou de impedir que destruam seu nome.”

A equipe localizou o técnico responsável pela manutenção das câmeras municipais. Ele deixara o Rio naquela manhã, mas sua conta recebera dinheiro de uma consultoria ligada às mesmas empresas que haviam transferido os cento e vinte mil reais.

O cerco se estreitava. Ainda faltava uma imagem limpa.

Perto da meia-noite, Augusto recebeu uma ligação do dono do iate. O sistema fazia cópias automáticas antes de comprimir os arquivos. Uma delas permanecia em um servidor estrangeiro.

O download levou quarenta minutos.

Lorenzo ficou atrás de Lívia enquanto o vídeo começava.

Theo aparecia próximo à grade. Lívia estava a vários metros, saindo da cafeteria depois de ouvir os gritos.

Um homem de boné se aproximava do menino e apontava para algo sobre a água. Theo se inclinava. O homem olhava para os lados e lhe dava um empurrão rápido nas costas.

Lívia levou a mão à boca.

“Ele tentou matar uma criança.”

“Tentou atingir a mim”, respondeu Lorenzo. “Theo foi apenas a arma que escolheu.”

O rosto do agressor não aparecia, mas sua mão segurava a grade por um segundo.

No punho, brilhava o cavalo-marinho.

Augusto ampliou o símbolo.

Não era uma joia comum. Trazia três pequenas ondas sob a cauda.

“A Valverde Navegação entrega essa peça apenas a diretores de frota”, explicou. “Existem doze.”

Os nomes apareceram na tela. Onze haviam registrado entrada em instalações da empresa naquela semana. O décimo segundo, Renato Mota, não usava cartão corporativo desde o dia do resgate.

Augusto encontrou imagens dele entrando em um estacionamento com o mesmo paletó cinza usado pelo homem que filmara Lívia. O carro estava registrado em nome de uma consultoria sem funcionários.

“É o elo entre a marina e as empresas de fachada”, disse a advogada. “Mas César ainda alegará que um funcionário agiu sozinho.”

Lorenzo se colocou entre Lívia e a imagem.

“Você não precisa assistir ao resto.”

“Preciso saber quando isso vai terminar.”

“Quando ninguém puder apagar a verdade outra vez.”

Lorenzo apoiou as mãos na mesa.

“Descubra qual dos doze desapareceu depois da marina.”

“E o vídeo?”, perguntou a advogada. “Podemos publicar amanhã e limpar o nome dela.”

“Ainda não.”

Lívia se virou.

“Por quê?”

“Porque César acredita que apagou a única cópia. Se descobrir que recuperamos esta, enterrará o arquivo original e mandará o homem da imagem desaparecer.”

“Então o que vai fazer?”

O Rei do Porto voltou os olhos para o cavalo-marinho ampliado na tela.

“Vou fazê-lo acreditar que venceu.”

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