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"O Rei do Porto Escolheu o Anjo de Seu Filho" PARTE 4 — A MULHER QUE ELE DEFENDEU DIANTE DE TODOS

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PARTE 4 — A MULHER QUE ELE DEFENDEU DIANTE DE TODOS

Lorenzo suspendeu o acesso de vinte e três funcionários antes do amanhecer.

Não acusou nenhum deles. Mandou Augusto copiar registros, preservar câmeras e cruzar os turnos do armazém com as quatro transferências encontradas no celular da antiga acompanhante de Theo.

Durante três dias, Lívia quase não o viu.

Ele saía antes de Theo acordar e voltava depois que o menino dormia. Ainda assim, telefonava a cada poucas horas para saber se os dois estavam bem.

Na sexta-feira, Lorenzo entrou no apartamento trazendo uma caixa branca.

“Preciso comparecer ao jantar beneficente do Instituto do Porto amanhã.”

“Então espero que se divirta.”

“Você e Theo irão comigo.”

Lívia ergueu os olhos.

“Isso não parece proteção.”

“A área será controlada. Deixar vocês aqui enquanto todos os meus principais aliados estão no mesmo salão seria mais arriscado.”

Ele colocou a caixa sobre a mesa. Dentro havia um vestido de seda marfim, elegante e simples.

“Não posso aceitar isso.”

“Não é um presente. É parte da segurança.”

“Vestidos agora são equipamentos de segurança?”

Pela primeira vez em dias, um quase sorriso tocou a boca de Lorenzo.

“Quando o objetivo é fazer quinhentas pessoas olharem para você enquanto meus homens observam quem olha com interesse demais, sim.”

No sábado, o salão do hotel em Copacabana brilhava sob lustres de cristal. Lívia entrou com Theo pela mão e Lorenzo ao lado.

O menino vestia um pequeno terno azul. Lorenzo usava preto.

Quando ele ofereceu o braço a Lívia, câmeras se ergueram.

“Não solte minha mão”, Theo pediu.

“Não vou soltar.”

Os convidados conheciam Lorenzo. Também conheciam a história da jovem que salvara seu filho.

Alguns a cumprimentaram com respeito. Outros examinaram seu vestido, seus sapatos e sua falta de sobrenome importante.

“Então é ela”, comentou uma mulher perto do bar, alto o bastante para ser ouvida. “A garçonete que encontrou uma família rica dentro da água.”

Lívia fingiu não escutar.

Lorenzo escutou.

Seu olhar se voltou para a mulher, mas Theo puxou sua mão para mostrar uma escultura de navio. Lívia tocou discretamente o braço de Lorenzo.

“Não vale a pena.”

“Você vale.”

Antes que ela respondesse, um conselheiro chamou Lorenzo para falar sobre o contrato de expansão portuária. O acordo garantiria quase quarenta milhões de reais em novos investimentos sociais e estabilidade para os parceiros que começavam a temer o conflito com César.

Lorenzo não queria se afastar.

“Augusto ficará a três metros”, prometeu. “Se quiser sair, ele tira vocês daqui.”

Lívia assentiu.

Poucos minutos depois, uma mulher de vestido vermelho se aproximou. Beatriz Sampaio era herdeira de uma empresa de navegação e aparecia com frequência nas colunas sociais.

“Você é mais bonita pessoalmente”, disse ela. “Entendo por que Lorenzo resolveu transformar gratidão em espetáculo.”

“Eu só vim acompanhar Theo.”

“Claro. Mulheres como você sempre chegam por causa da criança.”

Theo apertou a mão de Lívia.

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“Não fale assim com o meu anjo.”

Beatriz sorriu para ele sem calor.

“Que encantador. Ela já ensinou até o discurso.”

Lívia se abaixou.

“Theo, vá mostrar o navio ao senhor Augusto.”

Ela esperou o menino se afastar antes de encarar Beatriz.

“Pode pensar o que quiser sobre mim. Não envolva uma criança que quase morreu.”

“Quase morreu ou quase cumpriu o papel que você precisava?”

Beatriz pegou uma taça da bandeja de um garçom.

“Talvez devêssemos brindar à sua sorte.”

O vinho atingiu o vestido de Lívia.

Uma mancha vermelha se abriu sobre a seda clara. Conversas cessaram. Telefones começaram a gravar.

“Foi um acidente”, declarou Beatriz, sem qualquer traço de arrependimento.

Lívia permaneceu imóvel. Poderia responder. Poderia jogar outra taça. Mas viu os diretores observando Lorenzo do outro lado do salão e decidiu não transformar a humilhação em uma crise que custaria empregos.

“Com licença.”

Deu um passo em direção à saída.

Lorenzo bloqueou seu caminho.

Ele havia atravessado o salão em silêncio. Tirou o paletó e o colocou sobre os ombros dela, cobrindo a mancha.

“Quem fez isso?”

Lívia não respondeu.

Theo apontou.

“Aquela mulher machucou o meu anjo.”

Lorenzo olhou para Beatriz.

“Peça desculpas.”

Ela empalideceu, mas ergueu o queixo.

“Lorenzo, não faça uma cena por causa de uma funcionária.”

“Ela não trabalha para mim.”

“Então o que ela é?”

Ele aproximou Lívia de seu corpo, uma mão firme nas costas dela.

“Alguém sob minha proteção.”

O pai de Beatriz avançou, alarmado.

“Bellini, temos um contrato para assinar.”

“Tínhamos.”

“Você vai perder quarenta milhões por causa disso?”

“Não.” Lorenzo manteve os olhos em Beatriz. “Sua filha fez sua empresa perder quarenta milhões porque acreditou que podia humilhar uma mulher diante do meu filho.”

O salão pareceu prender a respiração.

“Augusto, acompanhe a senhorita Sampaio e a família dela até a saída.”

Beatriz abriu a boca para protestar.

Lorenzo a silenciou com uma única frase:

“Quem desrespeita Lívia desrespeita a família Bellini.”

Beatriz tentou rir, mas o som morreu ao perceber que nenhum aliado se aproximava para defendê-la. O pai ainda insistiu que tudo não passara de um mal-entendido.

“Um mal-entendido termina com um pedido de desculpas”, disse Lorenzo. “Crueldade termina com consequências.”

Ele manteve a doação dos Bellini ao instituto, mas retirou o nome da empresa Sampaio do projeto. A instituição receberia o dinheiro; a família que humilhara Lívia não receberia prestígio por ele.

Theo correu para abraçar a cintura de Lívia. Lorenzo manteve o paletó fechado ao redor dela e conduziu os dois para fora, sem se importar com os flashes.

No carro, Lívia tocou a manga de sua camisa.

“Você não precisava destruir um acordo por mim.”

“Eu não destruí. Descobri que estava prestes a assinar com pessoas em quem não podia confiar.”

“Ainda eram quarenta milhões.”

“Dinheiro volta.” Ele olhou para a mancha escondida sob o paletó. “A dignidade que eu permitisse que tirassem de você diante de Theo, não.”

O celular de Augusto vibrou no banco da frente.

Ele abriu uma rede social e ficou rígido.

O vídeo do vinho já circulava. Mas não era o único.

Uma conta anônima havia publicado imagens da marina. No trecho editado, Lívia aparecia atrás de Theo junto à grade. Um corte brusco ocultava vários segundos. Na imagem seguinte, o menino caía na água.

A legenda afirmava que a “heroína” havia criado o próprio resgate para se aproximar de Lorenzo Bellini.

Em menos de dez minutos, milhares de pessoas compartilhavam a acusação.

Lívia viu seu rosto congelado na tela, uma mão estendida na direção de Theo.

Parecia que ela o havia empurrado.

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