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"O Rei do Porto Escolheu o Anjo de Seu Filho" PARTE 3 — MEU ANJO

正文开头

PARTE 3 — MEU ANJO

Lívia levou a mão à boca.

“Isso não é possível.”

Lorenzo ampliou a imagem. No reflexo do espelho, a figura usava o mesmo paletó cinza visto perto da marina.

“Ele entrou sem arrombar a porta”, disse Augusto. “Ou tinha uma chave, ou alguém do prédio permitiu a entrada.”

“Eu estava dormindo.”

A voz de Lívia saiu quase sem som.

Lorenzo ficou diante dela, bloqueando a fotografia de sua visão.

“Ele não chegará perto de você outra vez.”

“Como pode prometer isso?”

“Porque agora você está sob minha proteção.”

Ele não tocou nela. Apenas permaneceu ali, sólido e atento, até sua respiração voltar ao normal.

“Augusto, dobre a equipe. Ninguém entra neste andar sem minha autorização.”

Na manhã seguinte, o elevador privativo se abriu pouco depois das oito.

Theo correu para fora antes que Lorenzo pudesse segurá-lo.

“Meu anjo!”

Lívia se abaixou a tempo de receber o abraço. O menino apertou os braços ao redor do pescoço dela e escondeu o rosto em seus cabelos.

“Você sumiu.”

“Eu estou aqui.”

“Promete?”

Lívia sentiu Lorenzo observá-los.

“Hoje, sim”, respondeu com cuidado. “E hoje é o que importa.”

Theo não quis soltá-la durante o café da manhã. Sentou-se ao lado dela, encostando o joelho no seu como se precisasse confirmar que era real.

Quando uma colher caiu no chão, ele se encolheu e derrubou o suco.

Lorenzo se levantou imediatamente.

“Theo.”

O menino fechou os olhos, respirando rápido.

Lívia não tentou abraçá-lo à força. Ajoelhou-se a uma distância em que ele pudesse vê-la.

“Olhe para mim. Você consegue encontrar três coisas azuis nesta sala?”

Theo hesitou.

“A sua blusa.”

“Uma.”

“O quadro.”

“Duas.”

“Os olhos do dinossauro.”

Sua respiração desacelerou.

Lorenzo observava em silêncio, com as mãos fechadas junto ao corpo.

“Foi uma técnica da faculdade?”, perguntou quando Theo se distraiu com o brinquedo.

“É um exercício de ancoragem. Ajuda a criança a perceber que o perigo não está acontecendo de novo.”

“Ele acorda gritando desde a marina.”

“Precisa de acompanhamento profissional.”

“Já contratei dois especialistas.”

“Então dê tempo a ele. Não transforme a recuperação em outra ordem que ele precisa obedecer.”

Lorenzo aceitou a observação sem se ofender.

“Você fala comigo como se eu não assustasse você.”

Lívia olhou para os seguranças junto à porta e depois para o homem que havia se lançado sobre ela durante os tiros.

“Você me assusta. Só não quando está com ele.”

Theo puxou a manga do pai.

“Papai, você prometeu panquecas.”

Lorenzo tirou o paletó, dobrou as mangas da camisa e foi para a cozinha. A imagem do Rei do Porto encarando uma frigideira como um inimigo quase fez Lívia rir.

“Eu controlo onze terminais”, ele declarou. “Posso fazer uma panqueca.”

A primeira queimou. A segunda grudou no teto quando ele tentou virá-la.

Theo gargalhou.

Lorenzo ficou imóvel ao ouvir o som. Seus olhos encontraram os de Lívia, e algo duro em seu rosto se desfez.

正文1

“Fazia semanas que ele não ria assim”, disse em voz baixa.

Ela não soube o que responder.

Augusto apareceu antes do almoço, carregando um celular dentro de um envelope transparente.

“Encontramos a antiga acompanhante de Theo. Ela tentou embarcar em um ônibus para São Paulo.”

O sorriso desapareceu do rosto de Lorenzo.

“E ela falou?”

“Diz que recebeu uma mensagem e se afastou por cinco minutos. Alega que não sabia que levariam o menino até a água.”

“Recebeu quanto?”

“Cento e vinte mil reais, divididos em quatro transferências. O dinheiro passou por duas empresas de fachada.”

Lívia permaneceu com Theo na sala enquanto os homens conversavam no escritório. Não perguntou o que fariam com a mulher. Não queria conhecer todas as partes da vida de Lorenzo.

Mas, naquela tarde, ele decidiu lhe contar o suficiente.

“A Bellini Atlântico é legal”, disse, diante das janelas voltadas para o mar. “Logística, armazenagem, imóveis e segurança. Emprega milhares de pessoas.”

“E o que não é legal?”

“Minha família construiu poder antes que eu nascesse. Alguns homens obedecem aos tribunais. Outros obedecem ao medo. Durante muito tempo, os Bellini falaram as duas línguas.”

Lívia sentiu um arrepio.

“E você?”

“Eu faço o necessário para proteger meu filho.”

Não era uma confissão completa. Também não era uma mentira.

“César Valverde quer um contrato de expansão portuária que eu me recusei a entregar. Theo foi usado para me dobrar.”

“E agora estão usando a mim.”

“Estão tentando.” Lorenzo aproximou-se, mas parou antes de invadir seu espaço. “Você pode me odiar pelo mundo que trouxe até sua porta. Só não vou permitir que esse mundo leve você embora.”

Naquela noite, Theo adormeceu no quarto de hóspedes, agarrado à mão de Lívia. Perto das duas da manhã, acordou chorando.

“Mamãe!”

Lívia sentou-se ao lado dele.

“Foi um pesadelo. Você está seguro.”

Theo abriu os olhos e se agarrou à sua cintura.

Lorenzo apareceu na porta descalço, sem paletó, sem a armadura de homem intocável. Parou ao ver o filho abrigado nos braços dela.

Não corrigiu a palavra que Theo havia usado.

Não interrompeu.

Apenas ficou ali, com uma gratidão silenciosa e dolorosa no rosto.

Quando o menino voltou a dormir, Lívia saiu do quarto.

Augusto esperava no corredor com o celular apreendido.

“Há um áudio enviado à acompanhante antes do pagamento”, explicou. “A voz foi alterada. Quase não existe som de fundo.”

Ele reproduziu a gravação.

Uma voz metálica dizia apenas:

“Deixe o menino junto à grade e vá embora.”

Lívia ficou pálida.

“Toque outra vez.”

Lorenzo a encarou.

“Você reconheceu a voz?”

“Não. O som atrás dela.”

Augusto reiniciou o áudio. Sob as palavras distorcidas, ouviu-se um assobio curto, formado por três notas.

“Eu ouvi esse assobio na marina”, disse Lívia. “Pouco antes de Theo cair. Veio de trás dos contêineres de manutenção.”

Augusto acessou outro arquivo no aparelho. Era um vídeo antigo da acompanhante, gravado próximo a um armazém. Ao fundo, o mesmo assobio atravessava o ruído de caminhões.

Ele verificou os dados de localização.

Seu semblante mudou.

“Esse vídeo foi gravado dentro de uma área restrita da Bellini Atlântico.”

Lorenzo olhou para o filho adormecido, depois para Lívia.

A ternura desapareceu de seus olhos. Restou a frieza do homem que controlava o porto.

“Quem comprou a mulher que entregou meu filho trabalha dentro do meu próprio império.”

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