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"O Rei do Porto Escolheu o Anjo de Seu Filho" PARTE 2 — SOB A PROTEÇÃO DOS BELLINI

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PARTE 2 — SOB A PROTEÇÃO DOS BELLINI

Lívia não entrou no carro naquela noite.

Lorenzo não a obrigou.

Mandou dois homens verificarem o prédio, esperou até que ela trancasse a porta do apartamento e deixou um cartão sobre a mesa da pequena cozinha.

“Se vir qualquer coisa estranha, ligue. Não importa a hora.”

Na manhã seguinte, um utilitário escuro estava estacionado diante da cafeteria.

Quando Lívia saiu para a faculdade, ele a seguiu à distância. À noite, estava parado perto do ponto de ônibus.

Ela telefonou para o número do cartão.

Lorenzo atendeu antes do segundo toque.

“Tem um carro me seguindo.”

“São meus homens.”

“Isso deveria me tranquilizar?”

“Deveria mantê-la viva.”

“Eu não pedi proteção.”

“Eu sei.” A voz dele permaneceu calma. “Por isso mantive distância. Mas não vou retirar a equipe enquanto a ameaça existir.”

Lívia desligou irritada, porém não conseguiu ignorar o alívio que sentiu ao ver o carro acompanhá-la até em casa.

Três dias depois do resgate, a cafeteria estava mais cheia que o normal. Alguns clientes haviam descoberto que a jovem citada no noticiário trabalhava ali.

Dona Célia recusava entrevistas em nome dela.

“Você salvou uma criança. Não virou atração de circo”, resmungou a proprietária.

“Obrigada.”

“Agradeça chegando no horário amanhã.”

Lívia sorriu pela primeira vez naquele dia.

Daniel Nogueira apareceu pouco depois das dez. Trabalhava no prédio em frente e costumava pedir café sem açúcar. Naquela manhã, permaneceu junto ao balcão.

“Eu soube que foi você.”

“Preferia que ninguém soubesse.”

“Não vim pedir uma selfie.” Ele sorriu. “Vim perguntar se aceita jantar comigo no sábado.”

Era uma oferta simples. Normal. O tipo de convite que pertencia à vida que Lívia entendia.

Antes que pudesse responder, a porta se abriu.

O burburinho morreu.

Lorenzo entrou sem pressa, acompanhado apenas por Augusto. O terno azul-escuro moldava seus ombros largos, mas não era a roupa cara que alterava o ambiente. Era a certeza silenciosa de que todos abririam caminho.

Seus olhos passaram por Daniel e repousaram em Lívia.

“Um espresso.”

Ela preparou a bebida tentando ignorar o próprio pulso acelerado.

“Theo está melhor?”

“Fisicamente, sim. À noite, chama por você.”

Lívia parou com a xícara entre as mãos.

“Por mim?”

“Ele acredita que um anjo o tirou da água. Não consegui convencê-lo do contrário.”

Havia cansaço por trás da expressão controlada de Lorenzo. Pela primeira vez, ela enxergou o pai antes do homem poderoso.

“Diga que estou feliz por ele estar bem.”

“Diga você mesma.”

Lorenzo colocou um celular sobre o balcão. Na tela, Theo aguardava uma chamada de vídeo, abraçado a um dinossauro de pelúcia.

“Meu anjo!”

O sorriso do menino desarmou Lívia.

“Oi, campeão. Está obedecendo aos médicos?”

“Quase sempre.”

“Então precisa melhorar essa parte.”

Theo prometeu tentar. Quando a ligação terminou, Lívia percebeu que Lorenzo não olhava para o aparelho. Olhava para ela.

Daniel limpou a garganta.

“Sobre o jantar...”

O olhar de Lorenzo se moveu até a janela.

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Na calçada oposta, um homem levantava o celular na direção da cafeteria.

“Abaixe-se.”

Lívia mal teve tempo de reagir.

Lorenzo contornou o balcão, envolveu sua cabeça com um braço e a derrubou atrás da bancada, protegendo-a com o próprio corpo.

O estampido veio logo depois.

A vidraça explodiu.

Clientes gritaram. Daniel se jogou no chão. Augusto sacou a arma e correu para a porta com os seguranças que aguardavam no carro.

Outro disparo acertou a parede.

Lorenzo continuou sobre Lívia, cobrindo-a dos estilhaços.

“Você está ferida?”

Ela sentia o peso dele, o calor do corpo e uma gota de sangue descendo da têmpora masculina.

“Você está sangrando.”

“Responda.”

“Não. Não estou ferida.”

Só então Lorenzo ergueu a cabeça.

Lá fora, pneus cantaram no asfalto. O atirador fugira.

Augusto voltou trazendo um pequeno objeto metálico encontrado sob a janela. Colocou-o na mão do chefe.

Era um cavalo-marinho.

O mesmo símbolo que Lívia vira no punho do homem na marina.

“Eu já vi isso”, ela sussurrou.

Lorenzo a ajudou a se levantar.

“Onde?”

“No homem que me filmou depois que tirei Theo da água.”

A mandíbula dele endureceu.

“Valverde.”

“Quem é Valverde?”

“O motivo pelo qual você não pode voltar para casa.”

Dona Célia se aproximou, pálida, olhando a cafeteria destruída.

“Eu não posso simplesmente desaparecer”, disse Lívia. “Ela vai perder o negócio por minha causa.”

Lorenzo pegou o telefone.

“A troca da fachada começa hoje. Salários, estoque e dias fechados serão cobertos.”

“Não quero que compre meus problemas.”

“Não estou comprando nada. O ataque aconteceu porque você salvou meu filho. A responsabilidade é minha.”

Ele tirou um lenço do bolso e limpou com cuidado um pequeno corte no rosto dela.

“Existe um apartamento seguro no Leblon. Você ficará lá até eu encontrar esse homem.”

“E se eu disser não?”

“Coloco segurança dentro do seu prédio, na sua faculdade e diante desta cafeteria. Você continuará livre, mas não continuará desprotegida.”

Não havia ameaça na resposta. Havia uma promessa.

Lívia olhou os cacos espalhados, o medo de Dona Célia e o sangue na têmpora de Lorenzo. Ele se ferira porque a cobrira sem hesitar.

“Só até isso acabar.”

“Só até você estar segura.”

Lorenzo cumpriu também a promessa feita a Dona Célia. Antes do fim da tarde, uma empresa de manutenção isolou a fachada, um contador calculou o prejuízo e cada funcionário recebeu a confirmação de que o salário seria pago durante os reparos.

“Ele resolveu em duas horas o que o seguro levaria meses para discutir”, murmurou Dona Célia.

Lívia observou Lorenzo falar com os trabalhadores sem levantar a voz. Ninguém o interrompia. Ninguém questionava suas decisões.

O poder dele deveria assustá-la mais do que assustava.

Mas ela ainda sentia no rosto o instante em que ele a cobrira, escolhendo receber os estilhaços no lugar dela.

Naquela noite, Lívia entrou no apartamento protegido levando apenas uma mala. O lugar tinha janelas voltadas para o mar e mais quartos do que ela saberia usar.

Lorenzo permaneceu perto da porta, respeitando a distância que ela ainda precisava.

O telefone dele tocou. Theo aparecia na tela, de pijama, recusando-se a dormir.

“Quero o meu anjo.”

Lívia sentou-se no sofá e contou uma história curta sobre um menino que sobrevivera a uma tempestade. Antes do fim, Theo já dormia.

Lorenzo encerrou a chamada, mas não guardou o telefone.

Uma nova mensagem acabara de chegar.

Ele abriu a imagem e ficou imóvel.

“O que foi?” Lívia perguntou.

Lorenzo virou a tela.

A fotografia mostrava Lívia adormecida em sua antiga cama, tirada na noite anterior. Ao fundo, refletido no espelho, aparecia o contorno de um homem.

Alguém estivera dentro do apartamento enquanto ela dormia.

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