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"O Rei do Porto Escolheu o Anjo de Seu Filho" PARTE 1 — O MENINO NA ÁGUA

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PARTE 1 — O MENINO NA ÁGUA

O grito atravessou o barulho das máquinas de café.

Lívia Azevedo ergueu os olhos no instante em que uma mulher, do lado de fora, apontou para a Baía de Guanabara.

“Tem uma criança na água!”

A xícara escapou da mão de Lívia e se partiu no chão.

Do outro lado da vidraça, perto da Marina da Glória, uma pequena mão apareceu entre as ondas. Sumiu. Tornou a aparecer mais longe, enquanto dezenas de pessoas gritavam sem sair do lugar.

Lívia correu.

Não pensou no avental verde, no celular dentro do bolso nem na advertência que Dona Célia lhe daria por abandonar o balcão em pleno horário de movimento.

Pensou apenas naquela mão.

O menino estava afundando.

“Chamem os bombeiros!”, alguém berrou.

Lívia passou pela mureta e saltou.

A água fria golpeou seu corpo. Por um segundo, ela perdeu o ar. A corrente puxou suas pernas, mas os anos de natação na instituição onde crescera voltaram aos músculos antes que o medo pudesse vencê-la.

Ela nadou até o casaco azul que desaparecia sob a superfície.

Quando finalmente o alcançou, o menino já não se debatia.

“Eu peguei você”, murmurou Lívia, segurando-o por baixo dos braços. “Não vou soltar.”

A volta pareceu duas vezes mais longa. Seus braços queimavam. A água entrava por sua boca. Ainda assim, ela manteve o rosto do garoto acima das ondas até sentir mãos ajudando a puxá-los para o concreto.

O menino não respirava.

Lívia se ajoelhou, pressionou o pequeno peito e iniciou a respiração de emergência. Ao redor, celulares gravavam. Uma sirene se aproximava.

“Vamos, querido. Volte.”

Nada.

Ela tentou outra vez.

O corpo do menino estremeceu. Ele tossiu água, puxou o ar com violência e começou a chorar.

Lívia quase desabou de alívio.

“Está tudo bem”, disse, embora tremesse tanto quanto ele. “Você está seguro agora.”

Alguém colocou uma jaqueta sobre os dois. O menino abriu os olhos, enormes e escuros, e agarrou o avental encharcado de Lívia.

“Meu anjo”, sussurrou.

Antes que ela respondesse, três utilitários pretos pararam junto à marina. Homens de terno saíram depressa, afastando curiosos e exigindo os celulares de quem havia filmado de perto.

Um paramédico colocou o menino na maca.

“Como você se chama, meu amor?”, perguntou Lívia.

“Theo.”

“Theo o quê?”

O homem que comandava os seguranças respondeu por ele:

“Theo Bellini.”

O nome provocou silêncio em quem estava perto.

Lívia não entendeu. Só apertou os dedos frios do menino até que o paramédico pedisse espaço.

“Ele vai ficar bem?”

“Você o trouxe de volta”, respondeu o profissional. “Isso fez toda a diferença.”

Enquanto levavam Theo, um policial pediu o nome e o endereço de Lívia. Ela respondeu mecanicamente, ainda com os dentes batendo.

Foi então que viu um homem parado atrás da multidão.

Ele não observava o menino. Filmava Lívia.

Vestia um paletó cinza e mantinha o celular erguido. Quando percebeu que ela o encarava, baixou o aparelho. Um pequeno cavalo-marinho de metal brilhava em seu punho.

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Lívia piscou, e ele desapareceu entre os curiosos.

No hospital, Theo Bellini foi levado diretamente para uma ala reservada.

Quarenta minutos depois, as portas do elevador se abriram e Lorenzo Bellini atravessou o corredor como uma tempestade contida.

Aos trinta e seis anos, ele comandava a Bellini Atlântico Logística, terminais portuários, armazéns e empreendimentos imobiliários avaliados em bilhões. Nos círculos onde contratos eram assinados à luz do dia e dívidas eram cobradas depois da meia-noite, era chamado de Rei do Porto.

Naquele momento, porém, ele era apenas um pai.

“Onde está meu filho?”

O médico indicou a porta da unidade pediátrica.

“Fora de perigo. Uma jovem o retirou da água e fez os primeiros socorros.”

Lorenzo fechou os olhos por um instante.

“Quero o nome dela.”

Seu chefe de segurança, Augusto Reis, aproximou-se.

“Lívia Azevedo. Vinte e quatro anos. Trabalha em uma cafeteria e estuda psicologia infantil à noite.”

“E a mulher que deveria estar com Theo?”

“Desapareceu.”

A humanidade abandonou o rosto de Lorenzo.

“Foi acidente?”

Augusto mostrou uma imagem congelada de uma câmera da marina. Nela, uma figura conduzia Theo até a área isolada próxima à água.

“Não.”

Lorenzo entrou no quarto do filho. Theo parecia ainda menor sob os lençóis brancos.

No corredor, Augusto continuou examinando os registros. A pulseira eletrônica de Theo havia deixado de transmitir exatamente sete minutos antes da queda. O dispositivo não apresentava defeito: alguém conhecia o código usado pela equipe de segurança.

“Suspenda todos os acessos”, ordenou Lorenzo antes de entrar. “Ninguém deixa uma instalação Bellini sem ser identificado.”

“A imprensa já descobriu o sobrenome do menino.”

“Proteja a identidade da mulher.”

“Há pelo menos quatro vídeos dela circulando.”

Lorenzo encarou a imagem de Lívia ajoelhada no concreto, tentando devolver a vida ao filho de um desconhecido.

“Então descubra quem baixou o primeiro arquivo. E chegue até ela antes de quem fez isso.”

O menino abriu os olhos com esforço.

“Papai...”

Lorenzo segurou sua mão e beijou seus dedos.

“Estou aqui, piccolo.”

“O anjo me salvou.”

“Eu sei.”

Theo tentou sorrir.

“Não deixa ninguém machucar ela.”

Lorenzo olhou para Augusto.

“Ninguém vai tocar nela.”

Quando Lívia deixou sua segunda jornada naquela noite, as ruas estavam úmidas. O ônibus que deveria levá-la para casa acabara de partir.

Ela seguiu a pé até a esquina, abraçando a própria bolsa. Não percebeu de imediato os passos atrás de si.

Só quando dobrou em uma rua menos movimentada viu o reflexo de um homem na vitrine fechada.

Paletó cinza.

Ele acelerou.

Lívia parou, sem saber se deveria correr ou gritar.

Faróis brancos iluminaram a calçada. Um sedã preto atravessou a rua e bloqueou o caminho do desconhecido.

A porta traseira se abriu.

Lorenzo Bellini desceu.

Alto, vestido de preto, ele se colocou entre Lívia e o homem antes mesmo que ela compreendesse quem era. Dois seguranças surgiram logo atrás. O desconhecido recuou e desapareceu por um beco.

Lorenzo não mandou persegui-lo. Primeiro, voltou-se para ela.

“Ele tocou em você?”

“Não.” A voz de Lívia falhou. “Quem é você?”

“O pai de Theo.”

Ela fitou os olhos escuros que o menino herdara.

“Ele está bem?”

A tensão nos ombros de Lorenzo diminuiu quase imperceptivelmente.

“Está vivo por sua causa.”

Lívia soltou o ar. Era a única resposta que realmente importava.

Lorenzo tirou o próprio sobretudo e o colocou sobre os ombros molhados dela. Depois, olhou para o beco onde o homem havia sumido.

“Você precisa vir comigo.”

“Eu nem conheço você.”

“Mas ele conhece você.”

Lorenzo tornou a encará-la. Sua voz saiu baixa, controlada e mais assustadora do que um grito.

“O homem que tentou matar meu filho já sabe o seu nome.”

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