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"Ele Me Mandou Sair de Casa — Sem Saber Que a Casa Era Minha" CAPÍTULO 5 — DEIXE TUDO COMIGO

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CAPÍTULO 5 — DEIXE TUDO COMIGO

Às duas da tarde, Renato entrou na cozinha falando ao telefone.

“Pode deixar tudo comigo, meu amor. Quando voltarmos, a casa já estará pronta para começar.”

Ele viu Helena diante da pia, mas não interrompeu a conversa.

“Sim. A parede da sala pode sair. Depois vemos isso com o arquiteto.”

Helena secou uma xícara e a guardou.

Renato desligou.

“Patrícia está nervosa por causa da mudança.”

“Imagino como deve ser difícil mudar para uma casa que não é dela.”

“Não recomece.”

“Eu não comecei nada.”

Ele abriu a geladeira, olhou as prateleiras e a fechou sem pegar nada.

“Durante a viagem, livre-se das coisas velhas. Pode doar o que não quiser. Só não mexa nos meus documentos nem nas minhas roupas.”

“E se eu precisar esvaziar o quarto?”

Renato virou-se, impaciente.

“Coloque minhas coisas em caixas. Faça o que for preciso.”

“Quero isso por escrito.”

Ele riu.

“Por escrito?”

“Você me entregou uma proposta de divórcio. Prefiro que não existam dúvidas sobre os objetos.”

“Você ficou paranoica.”

“Então uma mensagem simples não deveria incomodar.”

Renato aproximou-se.

“Está planejando alguma coisa?”

Helena sentiu o velho reflexo de desviar os olhos.

Não desviou.

“Estou planejando não ser acusada por você depois.”

Ele a observou por alguns segundos. Depois pegou o celular.

“Mande a pergunta.”

Helena digitou com cuidado:

“Você confirma que, durante sua viagem, posso organizar a casa, embalar seus objetos pessoais, fazer inventário com fotos e transferi-los para um depósito seguro, caso seja necessário liberar os cômodos?”

O telefone de Renato vibrou.

Ele leu e respondeu diante dela:

“Confirmo. Faça o que quiser. Quando eu voltar, você não estará mais lá.”

Helena abriu a mensagem, verificou a hora e fez uma captura de tela.

“Satisfeita?”

“Esclarecida.”

Renato saiu da cozinha balançando a cabeça.

Cinco minutos depois, Helena encaminhou a conversa para Camila.

A advogada telefonou imediatamente.

“Essa mensagem ajuda na organização dos bens, mas não é autorização para vender ou destruir nada dele. Vamos seguir o inventário item por item.”

“É exatamente o que quero.”

“Tem certeza de que deseja sair da casa?”

Helena olhou em volta.

A cozinha fora reformada doze anos antes. Ela escolhera cada azulejo, mas aceitara a bancada escura de que Renato gostava. Na sala, os móveis preservavam marcas de uma família que já não existia daquela forma.

“Eu quero decidir para onde vou antes que alguém volte de viagem achando que pode me expulsar.”

“Então venha ao escritório às quatro. Precisamos montar um plano.”

Lívia já estava com Camila quando Helena chegou.

Sobre a mesa havia uma folha dividida em sete dias.

Camila apontou para a primeira linha.

“Dia um: preservar extratos, notificar o banco sobre a controvérsia e preparar uma resposta formal à proposta de divórcio. Não vamos bloquear o que não pode ser bloqueado nem retirar dinheiro escondido. Vamos registrar a divergência.”

Na segunda linha, lia-se: inventário fotográfico.

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“A empresa de mudanças terá duas testemunhas”, Camila continuou. “Os objetos pessoais de Renato serão numerados, fotografados e enviados para um depósito pago antecipadamente por três meses. Ele receberá endereço, lista e comprovantes.”

“E as minhas coisas?” Helena perguntou.

“Vão para o imóvel que a senhora escolher.”

Lívia deslizou três anúncios de apartamentos pela mesa.

“Visitei estes de manhã. Só para você não começar do zero.”

Helena leu as descrições.

Um apartamento grande demais. Outro escuro. O terceiro tinha dois quartos, uma varanda pequena e janelas voltadas para o sol da manhã.

“Quero ver este.”

“Podemos ir depois daqui”, Lívia disse.

Camila apontou para os últimos itens do plano.

“Avaliação do imóvel, consulta ao corretor e preparação da intenção de venda. Reforço: não haverá transferência precipitada. A senhora poderá receber propostas, mas qualquer conclusão seguirá o procedimento seguro.”

“Está bem.”

“O corretor se chama Marcelo Azevedo. Ele conhece a região e já intermediou terrenos para uma incorporadora interessada em reunir lotes nessa rua.”

Helena sentiu o plano ganhar peso real.

Até então, vender a casa era uma ideia dolorosa. Uma porta imaginada.

Agora tinha etapas, nomes e horários.

Depois da reunião, mãe e filha visitaram o apartamento.

A sala era menor que a da casa, mas a luz da tarde entrava inteira pela varanda. Havia espaço para a cristaleira de Dona Celina e uma mesa de quatro lugares.

“Você não precisa decidir hoje”, Lívia disse.

Helena caminhou até a janela.

Lá embaixo, uma mulher passeava com um cachorro pequeno. Uma criança andava de bicicleta na calçada. Ninguém naquele lugar sabia qual chá Renato preferia, a hora em que ele queria jantar ou como suas camisas deviam ser passadas.

“Eu quero este.”

Lívia ficou em silêncio.

“Você acha cedo demais?” Helena perguntou.

“Acho que você está machucada.”

“Estou.”

“E tenho medo de que venda a casa para ferir o pai.”

Helena virou-se para a filha.

“Eu não quero vender para machucá-lo. Quero vender porque aquela casa virou a prova de que passei anos protegendo o lugar errado.”

“Era a casa da vovó.”

“Minha mãe não deixou aquelas paredes para que um homem me mandasse sair delas.”

Lívia baixou os olhos.

Helena aproximou-se.

“Vou levar a cristaleira. Vou transplantar uma das roseiras se for possível. Vou guardar o que é amor. Mas não preciso guardar o cenário da minha humilhação.”

Lívia a abraçou.

“Então vamos fazer direito.”

Naquela noite, Marcelo visitou a casa discretamente enquanto Renato estava fora com Patrícia.

Mediu o terreno, verificou a fachada e explicou que a rua despertara interesse de uma incorporadora por causa dos lotes amplos.

“Posso preparar a avaliação e iniciar conversas”, disse. “Mas só colocarei a placa quando sua advogada autorizar.”

“Amanhã, depois que eles embarcarem.”

Marcelo assentiu.

“É uma casa com história.”

“É justamente por isso que sei quanto custa mantê-la.”

Quando Renato voltou, quase meia-noite, encontrou Helena diante da parede da sala.

Ela retirava a fotografia do casamento.

“Já começou a empacotar?” ele perguntou.

“Comecei a escolher o que levo.”

“Essa foto pode jogar fora.”

Renato seguiu para o quarto sem esperar resposta.

Helena abriu a parte de trás da moldura.

Com cuidado, retirou a fotografia. Não a rasgou. Apenas dobrou a imagem no espaço entre os dois corpos, ocultando Renato.

Ficou olhando para a jovem de vinte e três anos que sorria de vestido branco.

Durante muito tempo, pensara naquela mulher como alguém ingênua demais para compreender o futuro.

Naquela noite, teve outra impressão.

A jovem não era fraca.

Apenas ainda não sabia quanto tempo levaria para voltar a pertencer a si mesma.

Helena colocou sua metade da fotografia dentro da bolsa.

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