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"Ele Me Mandou Sair de Casa — Sem Saber Que a Casa Era Minha" CAPÍTULO 2 — A MULHER QUE VEIO MEDIR MINHA CASA

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CAPÍTULO 2 — A MULHER QUE VEIO MEDIR MINHA CASA

Renato saiu cedo na manhã seguinte.

Disse que precisava resolver documentos da aposentadoria, buscar moeda estrangeira e comprar algumas coisas para a viagem.

Não mencionou onde passara a noite.

Helena também não perguntou.

Esperou o carro dele deixar a garagem e fechou a porta. Em seguida, levou o envelope branco para a pequena mesa da cozinha.

Leu a proposta inteira.

O texto dizia que os dois encerrariam o casamento de forma amigável, que cada um permaneceria com os bens em seu nome e que não haveria qualquer discussão posterior sobre valores movimentados antes da assinatura.

Também afirmava que Helena deixaria voluntariamente a residência em até dez dias.

Ela releu essa parte três vezes.

Voluntariamente.

Renato havia escrito uma ordem e tentado chamá-la de escolha.

Helena fotografou cada página. Depois abriu o aplicativo do banco.

Durante anos, ela conferira as despesas da casa pelo extrato mensal. Renato reclamava quando ela perguntava sobre algum gasto alto.

“Não precisa fiscalizar tudo”, dizia.

Naquela manhã, Helena deixou de olhar os números como esposa. Voltou a olhá-los como a assistente contábil que um dia fora.

Data. Favorecido. Valor. Frequência. Descrição.

Encontrou uma cobrança de R$ 18.740 de uma agência de turismo. Havia também R$ 6.800 pagos a um resort em Cancún e uma transferência de R$ 12.000 para Patrícia Nogueira.

Helena aproximou o celular do rosto.

Não era coincidência de nomes.

O CPF parcial exibido no comprovante coincidia com os números que apareciam na proposta de viagem impressa e esquecida por Renato junto à impressora.

Ela baixou os comprovantes e os enviou para o mesmo e-mail da gravação.

O interfone tocou às dez e quarenta e três.

Helena olhou para a tela da câmera instalada sobre o portão.

Patrícia estava do lado de fora.

Usava um vestido azul-claro, sandálias de salto e óculos escuros. Parecia pronta para um almoço, não para visitar a esposa do homem com quem viajaria no dia seguinte.

Helena respirou fundo antes de atender.

“Quem é?”

“Sou eu, Patrícia. Podemos conversar um pouco?”

“Renato não está.”

“Eu sei.”

A resposta veio rápida demais.

Helena observou a imagem por mais alguns segundos. Então abriu o portão e ficou parada na entrada, sem convidá-la a passar.

Patrícia tirou os óculos.

“Não quero brigar.”

“Então veio fazer o quê?”

“Tentar facilitar as coisas para todos.”

Antes que Helena respondesse, Patrícia inclinou o corpo para enxergar o corredor.

“A casa parece maior nas fotos.”

Helena sentiu um frio percorrer os braços.

“Que fotos?”

Patrícia percebeu o erro, mas recuperou o sorriso.

“Renato me mostrou algumas.”

“Entre.”

Desta vez, foi Helena quem abriu espaço.

Patrícia interpretou o gesto como rendição. Entrou devagar, observando o piso, as paredes e o teto. Helena fechou a porta e deixou o celular sobre o aparador, perto de onde estivera na noite anterior.

A câmera do interfone continuava registrando a entrada. O gravador do telefone, mais uma vez, estava ligado.

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“Quer café?” Helena perguntou.

“Não, obrigada. Não vou demorar.”

Patrícia caminhou até a sala.

“Renato disse que pretende trocar este sofá. Ele é confortável, mas deixa o ambiente pesado.”

Helena olhou para o móvel.

Lívia dormira ali durante uma crise de asma aos oito anos, com Helena sentada no chão ao lado dela. Renato estivera em uma convenção da empresa naquela noite.

“Ele falou dos móveis com você?”

“Falamos sobre tudo. Quando duas pessoas planejam uma vida juntas, precisam pensar nesses detalhes.”

Patrícia passou os dedos pela cristaleira de madeira escura.

“Isto também deve sair. Um apartamento mais moderno combinaria melhor, mas Renato tem carinho pela casa.”

“Ele disse que a casa é dele?”

Patrícia virou-se.

“Disse que é a casa do casal.”

“De qual casal?”

O sorriso desapareceu por um instante.

“Helena, não torne tudo mais doloroso. Renato já escolheu.”

“E o que exatamente ele escolheu?”

“Ficar comigo.”

“Aqui?”

“Sim, aqui. Depois da viagem, você vai se mudar, e nós vamos começar a reforma.”

Helena manteve a voz serena.

“Então você veio conhecer a casa onde pretende morar.”

“Achei mais honesto não esconder.”

Honesto.

Patrícia usava palavras bonitas como quem borrifava perfume sobre lixo.

“E Renato também lhe disse que pretende pagar os móveis?”

“Claro. Já escolhemos a loja.”

“Com o dinheiro da aposentadoria?”

“Com o dinheiro dele.”

A resposta saiu automática.

Helena assentiu lentamente.

“Entendi.”

Patrícia pareceu encorajada pelo silêncio.

Foi até a janela, afastou a cortina e olhou para o jardim.

“Eu tiraria essas roseiras. Dão muito trabalho e deixam a frente antiquada.”

Helena sentiu as unhas pressionarem a palma da mão.

As roseiras haviam sido plantadas por Dona Celina, sua mãe, pouco antes de morrer. Algumas não resistiram aos anos. As três que restavam floresciam todo inverno.

“Minha mãe plantou aquelas flores.”

“Então talvez você queira levá-las.”

Patrícia soltou a cortina.

“Seria melhor separar seus objetos logo. Há muita coisa aqui, e Renato quer começar a obra assim que voltarmos.”

“Você sabe quando ele decidiu isso?”

“Nós falamos seriamente depois que ele confirmou o resgate da previdência. Mas nossa relação não começou ontem, se é isso que está tentando descobrir.”

Helena sustentou o olhar dela.

“Não preciso descobrir tudo hoje.”

Patrícia cruzou os braços.

“Precisa entender uma coisa: este lugar logo deixará de ser seu.”

A frase ficou entre as duas.

Clara. Completa. Gravada.

Helena caminhou até a porta e a abriu.

“Agora eu entendi exatamente o que precisava.”

Patrícia hesitou.

“Espero que possamos agir como adultas.”

“Eu também.”

“Renato é um homem sensível. Não o pressione durante a viagem.”

Helena quase sorriu.

“Um homem que traz a amante para o jantar de aposentadoria e manda a esposa sair de casa deve ser protegido de muita coisa. Principalmente das consequências.”

Patrícia ficou vermelha.

“Você está sendo amarga.”

“E você está na minha porta. A diferença é que eu sei por quê.”

Patrícia recolocou os óculos e saiu sem se despedir.

Helena fechou o portão. O perfume da mulher permaneceu no corredor por alguns minutos, como se ela tivesse tentado marcar território.

Helena recuperou a gravação do telefone e baixou o vídeo do interfone.

Criou uma pasta chamada “Documentos — Helena” e registrou a data, o horário de chegada e de saída, as roupas que Patrícia usava e cada frase relevante.

Depois voltou ao extrato bancário.

Além da agência e do resort, localizou uma transferência de R$ 9.500 para uma loja de móveis de alto padrão. A descrição dizia apenas: “sinal projeto sala”.

Helena telefonou para a central do banco e solicitou os extratos completos dos últimos doze meses.

“A senhora suspeita de fraude?” perguntou o atendente.

Ela olhou para a mesa onde fizera contas durante quase quatro décadas.

“Ainda estou descobrindo o nome correto.”

Após encerrar a ligação, abriu o armário sob a escada. Retirou caixas de fotografias, declarações antigas e uma pasta com documentos de Lívia.

No fundo, encontrou uma caixa verde, presa por um elástico ressecado.

Helena se ajoelhou no chão.

Reconheceu a letra da mãe em uma etiqueta amarelada:

“Casa — guardar.”

Dentro estavam o formal de partilha, certidões antigas e a matrícula atualizada que Helena pedira anos antes, quando reformara o telhado.

Ela encontrou o campo dos proprietários.

Passou o dedo sobre o nome impresso.

Helena Maria de Almeida Duarte.

Não Renato.

Nunca Renato.

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