"Ele Me Mandou Sair de Casa — Sem Saber Que a Casa Era Minha" CAPÍTULO 1 — O JANTAR DA APOSENTADORIA
CAPÍTULO 1 — O JANTAR DA APOSENTADORIA
Helena Duarte estava na cozinha desde pouco depois das quatro da tarde.
O peixe assava no forno com rodelas de limão, alho e ervas. O feijão terminava de engrossar em fogo baixo, e a farofa dourava na frigideira. Sobre a mesa, ela havia colocado a toalha branca que costumava guardar para aniversários.
Não era uma comemoração luxuosa.
Era apenas a maneira que Helena conhecia de dizer: eu vi o seu esforço. Eu estive aqui durante todo o caminho.
Naquela sexta-feira, Renato encerraria trinta e nove anos de trabalho em uma empresa de equipamentos logísticos de Campinas. Durante semanas, ele reclamara das homenagens, do discurso do diretor e dos colegas que, segundo ele, fingiriam sentir saudade.
Helena ouvira tudo em silêncio, como sempre fazia.
Tinha comprado uma garrafa do vinho que ele gostava e escondido na despensa um pequeno álbum com fotografias da família. Na primeira página, escrevera à mão: “Agora começa o nosso tempo.”
Por trinta e seis anos, quase todo o tempo havia sido dele.
Os horários das refeições acompanhavam as reuniões de Renato. As férias dependiam das metas da empresa. Quando Lívia nasceu, Helena deixou o emprego de assistente contábil porque Renato dizia que pagar uma babá seria jogar dinheiro fora.
“Depois você volta a trabalhar”, ele prometera.
O depois virou escola, doenças, sogros idosos, almoços de domingo, contas, uniformes e aniversários que só aconteciam porque Helena se lembrava deles.
Ainda assim, naquela tarde, ela não queria fazer balanços.
Queria acreditar que a aposentadoria devolveria alguma coisa aos dois.
Às sete e doze, a fechadura da porta da frente girou.
Helena secou as mãos no avental e sorriu antes mesmo de sair da cozinha.
“Chegou cedo. O jantar está quase...”
As palavras morreram quando ela viu a mulher atrás do marido.
Renato ainda vestia o terno cinza que usara na cerimônia da empresa. Trazia uma sacola com uma placa de homenagem em uma das mãos. A outra estava apoiada nas costas de uma mulher de vestido claro e salto fino.
Ela parecia ter pouco mais de quarenta anos. Os cabelos castanhos caíam em ondas cuidadosamente arrumadas, e a maquiagem permanecia perfeita apesar do calor.
“Helena, esta é Patrícia Nogueira.”
Não houve hesitação na voz dele. Tampouco vergonha.
A mulher estendeu a mão.
“Finalmente nos conhecemos.”
Finalmente.
A palavra entrou na casa antes dela.
Helena não apertou a mão oferecida. Apenas olhou para Renato.
“Quem é ela?”
Ele soltou um suspiro impaciente, como se a pergunta fosse uma inconveniência prevista.
“É justamente sobre isso que precisamos conversar.”
Patrícia recolheu a mão sem perder o sorriso.
“Talvez seja melhor sentarmos.”
Helena reparou que ela não tinha o rosto de quem viera pedir desculpas. Observava o corredor, a sala e os móveis com uma curiosidade fria, quase profissional.
Não era uma visitante constrangida.
Era alguém examinando o que esperava receber.
Renato entrou sem esperar convite. Patrícia o acompanhou. Ele parou diante da mesa posta e franziu o nariz.
“Você fez peixe?”
“É o seu preferido.”
“Hoje não vamos jantar aqui.”
Helena sentiu o cheiro de alho vindo do forno. Minutos antes, aquele aroma lhe parecera acolhedor. Agora fazia a cozinha parecer o cenário de uma vida que só ela ainda acreditava existir.
Renato colocou a sacola sobre uma cadeira e permaneceu de pé.
“Eu e Patrícia vamos viajar depois de amanhã.”
“Viajar para onde?”
“Cancún. Sete dias.”
Helena olhou de um para o outro.
“Vocês dois?”
“Foi o que eu disse.”
O tom dele era irritantemente calmo.
“A rescisão caiu hoje. Também resgatei uma parte da previdência privada. Trabalhei a vida inteira e decidi que vou aproveitar o que é meu.”
“O que é seu”, Helena repetiu.
Renato abriu os braços.
“Não comece. Eu não vim pedir permissão.”
Patrícia deu um passo à frente.
“Helena, eu sei que isso deve ser difícil. Mas Renato adiou a própria felicidade por muito tempo.”
“Foi isso que ele contou?”
Por um instante, o sorriso da outra mulher vacilou.
“Ele sempre colocou a família em primeiro lugar.”
Helena quase olhou para a mesa.
O peixe escolhido para ele. O vinho comprado para ele. A toalha guardada para celebrar o fim da carreira dele.
Se aquilo significava ser colocada em primeiro lugar, Helena não queria imaginar como seria o último.
“Há quanto tempo?” ela perguntou.
Renato desviou os olhos.
“Isso não importa mais.”
Importava.
Mas Helena percebeu que não obteria uma resposta enquanto demonstrasse precisar dela.
Tirou o celular do bolso do avental e o colocou sobre o aparador, com a tela voltada para baixo. O gesto pareceu tão comum que nenhum dos dois prestou atenção.
Com a ponta do dedo, ela acionou a gravação.
“Então diga o que veio dizer.”
Renato pareceu aliviado. Enfiou a mão no bolso interno do paletó e retirou um envelope branco.
Jogou-o sobre a mesa.
Uma das pontas acertou o prato que Helena havia colocado para ele.
“É uma proposta de divórcio. Leia, assine e entregue ao meu advogado antes de eu voltar.”
Helena não tocou no envelope.
“Você preparou isso antes de me contar que tinha outra mulher.”
“Eu preparei tudo para evitar drama.”
“Trazer sua amante para a minha sala foi sua maneira de evitar drama?”
Patrícia apertou os lábios.
Renato elevou a voz.
“Não a chame assim.”
“Como devo chamar uma mulher que viaja com um homem casado usando dinheiro retirado durante o casamento?”
“Meu dinheiro”, ele corrigiu. “Eu ganhei cada centavo.”
A frase atravessou Helena com mais precisão do que a notícia da viagem.
“E os trinta e seis anos em que cuidei desta casa?”
“Você morou aqui. Comeu, vestiu-se, criou nossa filha. Não transforme uma vida confortável em sacrifício.”
Helena sentiu o rosto aquecer.
Durante décadas, Renato chamara de conforto tudo o que ela fizera para que ele não precisasse fazer.
Patrícia adotou uma expressão de piedade.
“Às vezes, amar também é saber deixar ir.”
Helena voltou os olhos para ela.
“Que conveniente você ter descoberto isso na vida dos outros.”
O silêncio durou apenas um segundo.
Renato bateu a palma da mão na mesa.
“Chega. Quando eu voltar, quero você fora daqui.”
Helena permaneceu imóvel.
“Fora desta casa?”
“Sim. Patrícia vai se mudar para cá. Depois reformamos tudo. Esses móveis já deveriam ter ido para o lixo há anos.”
Patrícia não fingiu surpresa. Olhou para a cristaleira antiga, depois para as cortinas, como se já escolhesse substitutos.
“Renato disse que a casa tem potencial”, comentou.
Helena ouviu o forno apitar na cozinha.
Nenhum dos dois se moveu.
Ela foi até lá, desligou o fogo e retirou a assadeira. O peixe estava no ponto exato. Helena o pousou sobre o fogão, respirou fundo e voltou à sala.
“Eu não vou impedir a viagem.”
Renato relaxou os ombros.
“Ótimo. Finalmente está sendo sensata.”
“Mas eu não disse que vou assinar isso.”
O sorriso dele desapareceu.
“Não complique uma coisa que já está decidida.”
“Foi decidida por você. Não por mim.”
“O casamento acabou, Helena.”
“Talvez. Mas o fim de um casamento não transforma tudo o que existe dentro dele em propriedade exclusiva do marido.”
Renato riu.
“E o que você pretende fazer? Contratar um advogado com o dinheiro que eu coloquei nesta casa?”
Helena sentiu algo mudar dentro dela.
Não foi coragem repentina. Foi o cansaço perdendo o medo.
“Ainda não sei o que vou fazer.”
Ela aproximou-se da mesa e pegou o envelope pelas bordas.
“Mas vou descobrir antes de você voltar.”
Patrícia tocou o braço de Renato.
“Vamos. Nossa reserva é para as oito.”
Nossa reserva.
Renato recolheu a sacola com a homenagem da empresa e caminhou até a porta.
Antes de sair, virou-se.
“Não faça papel de ridícula. Você não tem como mudar nada.”
Helena esperou a porta fechar.
Então voltou ao aparador, encerrou a gravação e enviou o arquivo para um endereço de e-mail que Renato desconhecia.
Na cozinha, o jantar ainda estava quente.
Na sala, a proposta de divórcio parecia fria demais sobre a toalha branca.
Helena sentou-se no lugar que durante trinta e seis anos pertencera ao marido e abriu o envelope.
Leu a primeira página sem derramar uma lágrima.
Renato achava que havia lhe entregado o fim da vida.
Na verdade, deixara sobre a mesa a primeira prova de como pretendia roubá-la.
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