"A Menina Que Mandou Mensagem Para o Homem Errado" Capítulo 4 — Sangue na Sala
Capítulo 4 — Sangue na Sala
“Não desça ainda, Emma.”
A voz de Matteo atravessou a casa sem subir de tom.
Ele manteve Diego com o rosto contra o piso e o braço preso às costas. O homem tentou mover o joelho, procurando apoio, mas Matteo aumentou a pressão apenas o suficiente para fazê-lo parar.
“Está me machucando”, gemeu Diego.
“Você ainda consegue reclamar. Sara não.”
Matteo olhou para a arma sob o sofá. Estava fora do alcance de Diego, porém perto demais de Sara. Com a ponta do sapato, empurrou-a até a parede.
No andar de cima, o assoalho rangeu.
“Matt?”
“Continue no quarto.”
“A mamãe está aí?”
Matteo fitou Sara. O peito dela se elevava pouco, mas num ritmo regular. O sangue junto à têmpora parecia ter diminuído.
“Ela está aqui comigo.”
“Ela está acordada?”
Mentir seria fácil. Ele mentira para policiais, rivais e homens que imploravam pela própria vida. Dizer a uma menina que a mãe estava bem exigiria menos esforço do que qualquer uma dessas mentiras.
Mas Emma já vivera horas demais cercada por adultos que distorciam a realidade.
“Ainda não. Uma médica está vindo cuidar dela.”
Houve um silêncio curto.
“Ela vai morrer?”
“Eu não vou deixar que ela fique sem ajuda.”
Não era a resposta que Emma pedira. Era a única promessa honesta que ele podia oferecer.
Diego aproveitou a distração e tentou girar o corpo. Matteo soltou o braço dele apenas para agarrá-lo pela nuca e bater seu peito contra o chão outra vez.
O impacto arrancou o ar do homem.
“Faça isso de novo”, avisou Matteo, “e vou esquecer que há uma criança no andar de cima.”
Diego ficou imóvel.
Matteo retirou o cinto do próprio paletó, prendeu os pulsos dele e testou o nó. Em seguida, recolheu a pistola usando a luva. O carregador estava cheio. Não havia trava acionada.
“Você ia usar isto contra quem?”
“É para proteção.”
“Proteção de quê? De uma menina de oito anos?”
Diego virou o rosto, tentando encará-lo.
“Você não entende. Sara perdeu o controle daquela garota desde que o pai morreu.”
“O nome dela é Emma.”
“Tanto faz.”
Matteo apoiou o joelho entre as omoplatas dele.
“Não. Para você, a partir de agora, nada sobre ela será ‘tanto faz’.”
O telefone de Diego estava no bolso traseiro. Matteo o retirou e apontou a tela para o rosto do dono. O reconhecimento facial falhou por causa da posição.
“A senha.”
“Vai para o inferno.”
Matteo não repetiu a ordem. Pressionou o polegar contra um ponto abaixo da orelha de Diego, e a resistência durou menos de três segundos.
“Quatro, nove, zero, dois”, cuspiu ele.
O aparelho abriu.
Havia dezenas de chamadas para Sara naquela noite, mensagens acusando-a de esconder dinheiro e ameaças enviadas nas semanas anteriores. Matteo viu fotografias de um armário destruído, de uma porta arrancada e de um hematoma no pulso dela.
Sara havia fotografado tudo.
Talvez pretendesse pedir ajuda. Talvez ainda reunisse coragem para sair.
Matteo encaminhou os arquivos para Vicente e colocou o telefone sobre a mesa, fora do alcance de Diego.
“Você invadiu minha privacidade”, protestou o homem.
Matteo olhou para ele, incrédulo diante da escolha das palavras.
“Sua privacidade está no chão da sala, respirando o próprio sangue.”
O celular de Matteo vibrou uma vez.
“Elisa a seis minutos. Equipe posicionada. Câmeras da rua preservadas”, informou Vicente.
“Entre sozinho pela frente”, respondeu Matteo. “Traga lacres e não toque em nada.”
Menos de um minuto depois, a silhueta de Vicente surgiu na porta. Ele analisou a sala, Sara, a arma e Diego imobilizado. Seu rosto não revelou surpresa, mas o maxilar se contraiu ao ver o sangue.
“O que precisa?”
“Prenda os pés dele. Depois verifique o andar de cima sem entrar no quarto. Emma está escondida no armário.”
Vicente retirou dois lacres plásticos do bolso.
“E a polícia?”
Matteo olhou para Sara. Chamar uma viatura naquele instante significaria perguntas, demora e o risco de que a prioridade deixasse de ser a vida dela. Mas apagar o ocorrido também deixaria mãe e filha sem provas se um dia precisassem se defender formalmente.
“Fotografe a sala como está. Guarde cópias das mensagens e da câmera da rua. Nada será destruído.”
Vicente compreendeu. Matteo não estava limpando a cena. Estava preservando opções.
Depois de prender Diego, ele subiu devagar e parou a alguns passos do quarto.
“Emma?”, chamou. “Meu nome é Vicente. Eu trabalho com o Matt. Não vou chegar perto da porta.”
Não houve resposta.
Matteo ouviu o som abafado de uma respiração apressada.
“Volte”, ordenou.
Vicente desceu sem contestar.
“Ela só confia no senhor.”
Matteo já sabia.
Esse fato era mais pesado do que a arma em sua mão.
Ele passou o controle de Diego a Vicente e se aproximou de Sara. Afastou cuidadosamente os cabelos de seu rosto. Havia uma marca arroxeada na face, além do ferimento na cabeça. Quando tocou o pulso dela outra vez, Sara moveu os dedos.
“Sara?”
Os lábios da mulher se abriram, mas apenas um som rouco escapou.
“Emma...”
“Ela está viva.”
As pálpebras de Sara estremeceram.
“Proteja...”
“Eu vou protegê-la.”
Sara perdeu a consciência novamente, mas o desespero abandonou seu rosto por um segundo, como se tivesse ouvido o bastante.
Matteo se levantou e foi até o primeiro degrau.
“Emma, sua mãe falou comigo.”
Um soluço respondeu.
“Ela sabe que você está segura. Agora escute com atenção: o homem que machucou vocês está preso e não consegue se levantar. Há outra pessoa comigo, mas ele vai ficar longe. Quando sair, olhe apenas para mim.”
“Ele está mesmo preso?”
“Está.”
“Você promete que não vai deixar ele me pegar?”
Matteo encarou Diego. Pela primeira vez, o agressor pareceu entender que o estranho diante dele não chegara por acaso e não iria embora após uma ameaça vazia.
“Ele nunca mais vai tocar em você.”
A porta do quarto se abriu.
Passos pequenos se aproximaram da escada.
Então Emma apareceu no alto, abraçada ao próprio braço, usando um pijama coberto de unicórnios. Seus cabelos estavam desarrumados e o rosto molhado de lágrimas.
Ela procurou Matteo no meio da sala destruída.
Quando o encontrou, começou a descer.
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