"A Menina Que Mandou Mensagem Para o Homem Errado" Capítulo 3 — A Promessa de Isabela
Capítulo 3 — A Promessa de Isabela
Vinte e cinco anos antes, Matteo ainda se chamava Miguel Rodrigues.
Morava com a mãe, Carmen, e a irmã mais nova, Isabela, num apartamento de dois quartos na zona leste de São Paulo. As paredes eram finas e, nos dias de chuva, uma bacia ficava no corredor para aparar a água do teto.
Carmen trabalhava em dois turnos numa confecção do Brás. Voltava com os dedos marcados por agulhas, pão francês numa sacola e um cansaço que tentava esconder.
Miguel tinha dez anos a mais que Isabela. Depois da escola, buscava a irmã, fazia arroz, aquecia feijão e supervisionava a lição de casa enquanto fingia entender toda a matemática do mundo.
À noite, inventava histórias para ela dormir.
Isabela não gostava de princesas esperando em torres. Preferia cavaleiros perdidos, dragões com medo do escuro e meninas capazes de salvar os dois.
“Quando crescer, vou ser uma dessas meninas”, dizia.
“Uma princesa?”
“Não. A que salva todo mundo.”
Os cachos escuros saltavam quando ela ria. Isabela acreditava que o irmão consertava qualquer coisa: boneca sem braço, torneira pingando, medo de trovão. Para ela, nenhum monstro sobreviveria à chegada de Miguel.
Numa quinta-feira de novembro, ele não estava em casa.
Trabalhava numa oficina quando o dono apareceu com o telefone e o rosto sem cor.
A voz do outro lado se identificou como policial. Falou de uma discussão no apartamento vizinho, homens armados e tiros atravessando uma parede fina demais.
Carmen e Isabela haviam sido atingidas.
Miguel largou tudo e correu. Quando chegou ao prédio, a ambulância já partira. Havia sangue no corredor e uma marca de bala perto do desenho que Isabela colara na parede.
No hospital, as luzes brancas pareciam lâminas.
Carmen sobrevivera. O projétil atravessara seu braço sem atingir o osso.
Isabela não teve a mesma sorte.
Uma bala alcançara seu abdômen. Os médicos falavam em hemorragia interna e falta de tempo. Miguel ouviu tudo como se estivesse sob a água.
Sentou-se ao lado do leito e segurou a mão da irmã.
Ela parecia pequena demais entre tubos e lençóis. Cada respiração exigia um esforço que nenhuma criança deveria conhecer.
“Mih”, chamou.
“Estou aqui.”
“Você demorou.”
A culpa entrou no peito dele e nunca mais saiu.
“Desculpa.”
“Tudo bem. Você veio.”
Ela tentou sorrir.
“Promete uma coisa?”
“O que você quiser.”
“Quando alguma criança estiver com medo... você ajuda?”
“Você vai me ajudar a fazer isso.”
Isabela moveu a cabeça quase imperceptivelmente.
“Acho que não vou poder.”
“Não fala assim.”
“Então você faz por mim.”
Miguel quis chamar o médico, exigir outra cirurgia, outro remédio, outra resposta. Mas Isabela ainda esperava, acreditando que o irmão podia consertar tudo.
“Eu prometo. Sempre que uma criança estiver com medo, vou ajudar.”
Ela apertou a mão dele uma última vez.
“Eu sabia.”
Pouco depois, os aparelhos emitiram uma linha contínua.
Naquela noite, uma parte de Miguel morreu com a irmã.
Após o enterro, ele esperou pela justiça. A polícia prendeu um suspeito e soltou outro. Testemunhas mudaram versões. O homem que disparara alegou não saber que havia uma família atrás da parede.
O sistema não impedira os tiros. A lei não salvara Isabela. Então Miguel decidiu que nunca mais dependeria de um sistema construído por outros.
Começou cobrando dívidas para um homem que controlava apostas clandestinas. Aprendeu quem comprava silêncio e quais portas só se abriam para o medo.
Em cinco anos, tornou-se um cobrador que ninguém queria receber. Em dez, controlava rotas e casas noturnas. Em quinze, homens poderosos telefonavam antes de tomar decisões em territórios que ele considerava seus.
Miguel Rodrigues desapareceu sob ternos italianos, carros blindados e um novo sobrenome.
Restou Matteo Ricci.
Um homem que não confiava, não amava e não permitia que nada o alcançasse. Durante vinte e cinco anos, não ajudara criança alguma. Dizia a si mesmo que não podia proteger todas e que se envolver apenas multiplicaria a perda.
Mas nunca esquecera a promessa.
Agora, diante da casa de Emma, ela voltava inteira.
Matteo guardou o celular e atravessou a porta.
O cheiro metálico o atingiu antes que seus olhos se ajustassem.
Sangue.
Na sala, uma cadeira estava caída. A mesa tinha uma quina quebrada. Fotografias de Sara e Emma cobriam o chão entre cacos de vidro.
No centro do tapete, uma mulher permanecia imóvel.
Os cabelos claros de Sara Pereira grudavam em seu rosto. Havia sangue perto da têmpora e uma mancha escura sob a cabeça.
Matteo se ajoelhou e procurou o pulso.
Fraco, mas regular.
Sara respirava.
Ele enviou uma palavra para Vicente:
“Médica.”
O braço direito saberia que devia localizar Elisa Chen e levá-la ali sem sirenes.
No andar superior, uma porta bateu.
“Eu sei que você está aqui, Emma!”
Matteo se levantou. Os passos de Diego cruzaram o corredor e começaram a descer.
“Quando eu encontrar você, vai se arrepender de ter pegado aquele telefone.”
Matteo ficou entre a sala e o primeiro degrau.
Diego Valente era grande, com ombros largos sob uma camiseta manchada. Caminhava com a instabilidade de quem bebera demais e ainda acreditava que o próprio tamanho resolvia tudo.
Chegou ao último degrau antes de notar o estranho. Seus olhos foram de Matteo para Sara. Havia sangue nos nós de seus dedos.
“Quem diabos é você?”
Matteo observou a respiração acelerada, o peso mal distribuído e a mão direita fechada. Diego era forte, mas lento. Furioso, porém sem controle.
Acima deles, o piso rangeu.
Diego olhou para o teto.
“Então é aí que você está.”
Ele tentou subir. Matteo bloqueou o caminho.
“Saia da frente. Isso é assunto de família.”
“Não existe família onde uma criança precisa se esconder para sobreviver.”
Diego estreitou os olhos.
“Foi ela que chamou você? Você é policial?”
“Não.”
O alívio dele durou menos de um segundo.
“Ótimo. Então desapareça antes que eu faça você sair.”
Diego avançou com o punho erguido.
Matteo se moveu primeiro.
Segurou seu pulso, girou o braço e usou o impulso contra ele. Um instante antes, Diego ocupava o corredor como ameaça. No seguinte, estava de joelhos, com o rosto contra o piso e o braço preso nas costas.
Uma arma caiu de sua cintura e deslizou sob o sofá.
Matteo sentiu a última dúvida desaparecer. Diego perseguira uma menina de oito anos carregando uma arma.
“Vou fazer uma pergunta”, disse, num tom baixo. “Sua vida depende da resposta.”
“Quem é você?”
“Onde está a menina?”
“Não sei de menina nenhuma.”
Matteo aumentou a pressão.
“Resposta errada.”
“Ela está lá em cima! Deve estar no quarto da mãe.”
“Você a machucou?”
“Eu só tentei dar disciplina. Ela nem é minha filha.”
“Exatamente.”
Uma voz pequena atravessou o silêncio do segundo andar.
“Matt?”
Matteo ergueu a cabeça.
“É você?”
Ela lembrara o nome dado nas mensagens. Chamava por ele como Isabela chamava por Miguel, acreditando que sua chegada bastaria para expulsar os monstros.
O homem que construíra uma cidade ao redor do medo sentiu suas muralhas racharem.
Sem soltar Diego, respondeu:
“Sou eu, Emma.”
Houve um soluço no alto da escada.
Matteo olhou para o sangue de Sara, para a arma caída e para o homem imobilizado sob sua mão.
Então fez a primeira parte da promessa.
“Você está segura agora.”
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