"A Menina Que Mandou Mensagem Para o Homem Errado" Capítulo 2 — Fique Acordada, Emma
Capítulo 2 — Fique Acordada, Emma
Matteo apertou o ícone de chamada.
O telefone tocou duas vezes. Na terceira, a ligação foi atendida, mas ninguém falou.
Ele reduziu o volume do carro. Primeiro ouviu uma respiração curta. Depois, algo raspando no chão e uma porta aberta com violência.
“Onde você está, sua pestinha?”
A voz masculina veio distante, carregada de álcool.
“Acha que pode se esconder de mim dentro da minha própria casa?”
Matteo permaneceu calado. Qualquer palavra poderia denunciar a menina.
Houve um ruído seco, como uma caixa caindo, e a ligação terminou.
Ele ligou novamente. Chamada recusada.
“Responda apenas com um ponto se ainda estiver escondida.”
O navegador marcava seis minutos.
Nenhuma resposta.
Quarenta segundos. Cinquenta.
O telefone vibrou.
“.”
O ar voltou aos pulmões de Matteo.
“Muito bem. Não faça barulho.”
“Ele abriu a porta, mas as caixas caíram. Foi olhar o banheiro.”
“Continue onde está.”
“Estou cansada.”
Matteo parou de respirar por um instante.
“Não durma.”
“Só quero fechar os olhos.”
Ele já ouvira aquilo antes. Não numa tela, mas numa voz quase inaudível, cercada pelo som de máquinas hospitalares.
Por um momento, as ruas desapareceram. Matteo viu uma pequena mão sobre um lençol branco e cachos escuros espalhados num travesseiro grande demais.
Obrigou-se a olhar para a estrada.
“Fique acordada e converse comigo.”
“Não posso falar.”
“Então escreva. Como você se chama?”
A resposta surgiu devagar.
“Emma.”
“Quantos anos você tem?”
“Oito.”
A mesma idade.
“Meu nome é Matt. Estou quase chegando. Preciso que fique acordada para mim. Consegue?”
“Vou tentar.”
“Boa menina. Fale da sua mãe.”
“Sara Pereira. Ela gosta de música antiga e faz o melhor bolo de chocolate do mundo.”
Outra mensagem chegou.
“Ela lê histórias para mim toda noite. Mesmo cansada.”
Matteo percebeu o método por trás das próprias perguntas. Não bastava ordenar que Emma permanecesse acordada; ele precisava dar à menina algo concreto a que se agarrar. Cada lembrança de Sara era uma razão para continuar respirando em silêncio dentro daquele armário.
“Ela trabalha com o quê?”
“Numa padaria. Acorda quando ainda está escuro.”
“E mesmo assim lê para você?”
“Sempre. Às vezes dorme antes do final e eu termino para ela.”
“Então hoje você ainda precisa descobrir como acaba a próxima história.”
“Ela prometeu começar uma nova.”
“Qual?”
“A da menina que entra numa floresta para buscar a mãe.”
Matteo sentiu a ironia cruel, mas não deixou que ela aparecesse nas palavras.
“Essa menina volta para casa?”
“Não sei. A gente ia ler hoje.”
“Então fique acordada. Sua mãe vai precisar contar o final.”
“Qual foi a história de ontem?”
“Uma princesa que salvava dragões.”
“Não eram os dragões que salvavam a princesa?”
“Não. Isso é coisa de história velha.”
Apesar de tudo, a resposta quase arrancou dele um sorriso.
“Sua mãe parece inteligente.”
“Ela é. Diego fala que ela é burra, mas ele mente.”
“Sim. Ele mente.”
“Ele diz que ninguém quer a gente.”
Matteo mudou de faixa sem reduzir.
“Também mente sobre isso.”
“Você quer a gente?”
A pergunta o atingiu com uma força para a qual nenhuma ameaça o preparara. Matteo passara a vida escolhendo o que desejava possuir. Nunca pensara no que significava ser necessário para alguém que não podia lhe oferecer nada.
“Quero que vocês fiquem seguras.”
O navegador anunciou três minutos.
Ele telefonou para Vicente pela segunda linha.
“Já rastreamos o endereço. Estou mandando uma equipe”, informou o braço direito.
“Mantenha-os a duas ruas até eu entrar. Descubra tudo sobre Diego, namorado de Sara Pereira. Quero foto, carro, antecedentes e endereços.”
“Quanto tempo tenho?”
“Menos do que gostaria.”
A rua apareceu à frente: casas geminadas, muros baixos, uma oficina fechada. A chuva deixara o asfalto brilhante.
O endereço ficava no fim da quadra. Era uma casa estreita de dois andares, com o portão torto e uma lâmpada quebrada sobre a varanda. Um clarão irregular atravessava as cortinas.
Matteo estacionou do outro lado e apagou os faróis.
Nenhuma viatura, ambulância ou vizinho no portão.
Aquilo acontecia no isolamento perfeito criado pelo medo: todos escutavam, ninguém queria ver.
“Emma, estou na frente da casa.”
A resposta não veio.
Matteo verificou a arma, mas não a retirou do coldre. Observou entradas, janelas e a distância até a escada. A porta principal parecia entreaberta.
Do interior veio o som de algo se quebrando. Depois, um grito abafado de mulher.
Ele saiu do carro.
“Emma?”
Nada.
Atravessou a rua sem correr. Pressa fazia barulho; raiva produzia erros. Ele aprendera a entrar em lugares perigosos sem anunciar a presença.
Mas, a cada passo, uma voz antiga crescia dentro dele.
Não deixe acontecer outra vez.
O telefone vibrou quando alcançou o portão.
“Matt, ele está voltando.”
“Eu já cheguei. Onde você está?”
“No armário do quarto da mamãe.”
“Fique aí até eu chamar.”
“Você não vai embora?”
“Não.”
“Mesmo se ele for muito forte?”
Matteo olhou para a janela do segundo andar.
“Homens como ele só parecem fortes quando ninguém os enfrenta.”
Matteo tirou uma luva fina do bolso e a vestiu na mão direita. Não pretendia deixar sinais desnecessários, mas também não permitiria que a cautela retardasse o resgate. Fotografou discretamente a fachada e enviou a imagem a Vicente com a ordem para preservar qualquer gravação das câmeras próximas.
“A equipe está posicionada”, informou Vicente por texto. “Dra. Elisa está localizável se houver feridos.”
Matteo respondeu apenas:
“Prepare-a.”
Em seguida, silenciou o aparelho. A partir daquele momento, nenhuma ligação poderia anunciar sua entrada.
Na varanda, encontrou a porta fora do encaixe. O cheiro de cerveja e fumaça escapava pela abertura.
Então ouviu passos no andar superior.
Lentos. Pesados. Cada vez mais próximos do quarto.
“Saia daí”, gritou Diego. “Sua mãe não pode mais proteger você.”
O celular vibrou.
“Me ajuda.”
A garganta de Matteo se fechou. Por trás daquela frase, ele viu outra menina de oito anos, vinte e cinco anos antes, apertando a mão do irmão e exigindo uma promessa que ele demorara uma vida inteira para cumprir.
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