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"A Garçonete Que Falou com as Mãos" CAPÍTULO 6 — NADA FOI COINCIDÊNCIA

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CAPÍTULO 6 — NADA FOI COINCIDÊNCIA

A chave permaneceu presa na fechadura.

"O que isso quer dizer?", perguntou Marina.

Vicente olhou para a escada vazia antes de responder.

"Há três meses, comecei a procurar alguém para Sofia."

"Uma professora?"

"Uma companhia. Alguém que conhecesse Libras, mas não enxergasse minha filha como paciente ou emprego. Contratei especialistas, intérpretes e tutores. Todos tinham qualificações impecáveis. Nenhum conseguiu alcançá-la."

Marina sentiu um peso se formar no estômago.

"E eu apareci convenientemente no restaurante certo."

"Você não apareceu. Eu fui até você."

O corredor pareceu estreitar.

"Continue."

"Meus homens pesquisaram candidatos. Pessoas com domínio de Libras, estabilidade emocional e experiência real com isolamento. Seu nome apareceu."

"Minha estabilidade emocional?" Marina soltou uma risada sem humor. "Vocês me avaliaram como se eu estivesse concorrendo a uma vaga que nem sabia existir."

"Eu precisava saber quem permitiria perto da minha filha."

"O que exatamente sabe sobre mim?"

Vicente não desviou os olhos.

"Sei que perdeu seus pais num acidente quando tinha dezessete anos. Sei que passou por três famílias acolhedoras. Que sua prima Elisa foi a pessoa mais próxima de você na infância. Sei que conseguiu bolsa para uma faculdade, mas desistiu quando a última família se mudou e você precisou trabalhar para pagar aluguel."

Cada fato atingiu Marina como uma porta arrombada.

"Sabe onde trabalho, onde moro, o que compro e a que horas pego o ônibus."

"Sim."

Ele não pediu desculpas. Não tentou tornar a confissão menos grave.

"Márcio mentiu sobre Roberto ter passado mal."

"Eu pedi que você atendesse nossa mesa."

"Você pagou a ele?"

"O Bellagio tinha uma dívida. Resolvi uma parte dela em troca da cooperação do gerente."

Marina tirou a chave da fechadura.

"Então cada coisa foi encenada. Sua entrada, a mesa doze, a ordem para eu atendê-los."

"A oportunidade foi criada. O que aconteceu depois, não."

"Não use Sofia para justificar isso."

A voz dela ecoou no corredor.

Vicente contraiu o maxilar.

"Não estou usando minha filha. Estou dizendo que fiz o que considerei necessário para protegê-la."

"Você escolheu minha rotina, invadiu minha história e me colocou diante de uma criança solitária sem me permitir saber que eu estava sendo testada."

"Se eu tivesse oferecido dinheiro, você teria recusado."

"É claro que teria recusado. Esse direito era meu."

O silêncio caiu entre eles.

Marina abriu a bolsa, retirou o cartão particular de Vicente e o pressionou contra o peito dele.

"Também deveria devolver a pulseira e o dinheiro? Faziam parte da avaliação?"

Ele segurou o cartão, mas não a mão dela.

"A gorjeta foi porque você fez minha filha sorrir. O livro foi escolhido por Sofia. A pulseira também. Nada disso foi um teste."

"E as compras?"

"Vi que trabalhava turnos duplos e chegava tarde em casa. Quis ajudar."

"Sem perguntar."

"Sem perguntar", admitiu.

A resposta direta a desarmou por um segundo. Vicente não parecia envergonhado de ter poder. Parecia apenas surpreendido por ela exigir limites que ninguém mais ousava estabelecer.

正文1

"O que eu sou para você?", perguntou Marina. "Uma futura funcionária? Uma babá escolhida por investigação? Um projeto para Sofia?"

"Você deveria ser uma companhia para ela. Talvez uma tutora, se aceitasse."

"Deveria?"

"Esse era o plano."

"E agora?"

Ele ficou em silêncio tempo demais.

Marina abriu a porta do apartamento.

"Boa noite, Vicente."

Quando tentou entrar, ele falou:

"Agora você é a primeira pessoa que Sofia procura quando está feliz. A única estranha que ela deixou tocar nas lembranças da mãe."

Marina parou.

"Isso diz respeito a ela. Não a você."

"Para mim, você é uma complicação que não estava em nenhum relatório."

Ela se virou devagar.

Vicente estava a menos de um passo, mas não avançou.

"Uma complicação?"

"Eu esperava encontrar alguém gentil, previsível e fácil de manter à distância. Encontrei uma mulher que questiona minhas escolhas, enfrenta meus homens e me obriga a olhar para coisas que passei anos evitando."

Sua voz baixou.

"Uma mulher em quem penso mesmo quando não está diante de mim."

A raiva de Marina não desapareceu. Misturou-se a algo mais perigoso.

"Isso não torna aceitável o que fez."

"Eu sei."

Foi a primeira concessão real.

"Não quero mais presentes não solicitados. Não quero carros me seguindo. Não quero que seus homens decidam o que é melhor para mim."

"Você anda sozinha de madrugada numa área perigosa."

"A escolha é minha."

"E se alguma coisa acontecer?"

"Então você aprenderá que não pode transformar todas as pessoas que ama em prisioneiras para impedir uma perda."

Vicente recuou como se ela o tivesse atingido.

"Você acredita que eu a amo?"

Marina percebeu tarde demais o que dissera.

"Estou falando de Sofia."

"Não estava falando apenas dela."

O ar se tornou denso.

"Você me conhece há menos de uma semana."

"Conheço fatos sobre você há três meses. Mas só conheci você quando sinalizou para minha filha e não baixou os olhos diante de mim."

Vicente ergueu a mão. Desta vez, esperou.

Marina deveria fechar a porta.

Em vez disso, permitiu que os dedos dele tocassem seu rosto.

O contato foi surpreendentemente cuidadoso.

"Isso é uma péssima ideia", sussurrou.

"Sim."

"Você manipulou nosso encontro."

"Sim."

"Ainda estou com raiva."

"Eu sei."

"E não estou perdoando você."

"Não pedi perdão."

"Essa é parte do seu problema."

Um sorriso quase invisível tocou os lábios dele.

Marina segurou a lapela de seu paletó e o puxou para si.

O beijo começou como confronto.

A boca de Vicente encontrou a dela com uma fome contida por tempo demais. Uma das mãos deslizou até sua cintura; a outra permaneceu em seu rosto, firme sem prendê-la.

Marina sentiu anos de solidão ruírem sob o calor daquele toque. Beijou-o de volta com a mesma intensidade, mesmo sabendo que desejo não apagava invasões, perigos ou perguntas.

Quando se afastaram, ambos respiravam depressa.

Vicente encostou a testa na dela.

"Isso também não estava no plano", disse.

"Que bom. Pela primeira vez, alguma coisa não estava."

Ele soltou uma risada baixa. Então recuou, retomando pouco a pouco o controle.

"Sofia quer mostrar a você o ateliê de Isabela. Vá no sábado."

Marina ergueu uma sobrancelha.

"Você ainda não aprendeu a convidar."

Vicente respirou fundo.

"Você gostaria de passar a tarde conosco no sábado? Sem obrigação, sem presentes e sem um carro na porta, a menos que peça."

"Vou pensar."

"É uma resposta melhor do que não."

Ele levou a mão dela aos lábios e beijou seus dedos. Depois desceu a escada sem olhar para trás.

Marina entrou no apartamento e fechou a porta.

Tânia estava certa. Tudo em torno de Vicente Ferraz era perigoso, até sua ternura. Ele havia escolhido Marina antes de conhecê-la, investigado sua vida e fabricado o acaso que a colocou diante de Sofia.

Ela deveria apagar o número.

Deveria devolver a pulseira, trocar de emprego e desaparecer antes que os Ferraz ocupassem um espaço grande demais em sua vida.

O celular vibrou.

Não era Vicente.

Era uma fotografia enviada do número de Helena: Sofia dormia abraçada ao cardigã de Marina, o golfinho Azul preso sob o outro braço.

Abaixo, havia apenas uma frase.

“Ela perguntou se você estará aqui no sábado.”

Marina ficou muito tempo olhando para a imagem.

Então abriu a conversa com Vicente.

Seus dedos pairaram sobre a tela antes de escrever:

“Sábado, ao meio-dia. Eu chego sozinha.”

A resposta veio segundos depois.

“Estaremos esperando.”

Marina guardou o telefone sem apagar o número.

Talvez já estivesse presa no mundo de um homem perigoso e de sua filha silenciosa.

O pior era que, mesmo conhecendo agora todas as mentiras que haviam aberto aquela porta, ela já não tinha certeza de querer fechá-la.

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