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"A Garçonete Que Falou com as Mãos" CAPÍTULO 4 — A MENINA QUE ELES NÃO QUERIAM VER

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CAPÍTULO 4 — A MENINA QUE ELES NÃO QUERIAM VER

O pedido de Sofia permaneceu entre as duas como algo vivo.

Marina apertou de leve a mão da menina.

“Eu fico para o jantar”, respondeu em Libras. “Mas depois preciso voltar para casa.”

Sofia não pareceu completamente satisfeita, mas assentiu. Antes de sair do quarto, guardou o golfinho Azul debaixo do braço e verificou se Marina ainda a seguia.

No corredor, as fotografias nas paredes contavam uma história diferente daquela publicada nos jornais. Vicente aparecia segurando uma Sofia recém-nascida, dormindo numa poltrona com a menina sobre o peito e ajoelhado ao lado dela diante de um bolo de aniversário.

Em algumas imagens havia uma mulher de cabelos negros e sorriso luminoso.

Isabela.

Marina reconheceu o nome gravado numa moldura de prata.

Em nenhuma fotografia recente a mulher aparecia.

Sofia parou diante de uma imagem em que os três estavam na praia. Tocou o vidro com a ponta dos dedos, mas não fez qualquer sinal. Depois voltou a caminhar.

O silêncio da menina nunca parecera tão pesado.

Na escada, Marina percebeu uma câmera minúscula instalada no canto do teto. Havia outra voltada para a entrada e uma terceira acima das portas que davam para o jardim.

Homens discretos circulavam do lado de fora.

A casa de bonecas feita pelo pai, os livros e o piano diziam lar. As câmeras, os muros e as armas diziam cerco.

Na sala de jantar, Helena servia lasanha, pão italiano e uma salada de tomates. Não havia empregados ao redor da mesa. Vicente abriu uma garrafa de vinho e serviu água com gás para a filha.

"Marina, sente-se ao lado de Sofia", disse Helena. "Se ficar longe, ela passará o jantar inteiro inclinada sobre a mesa para falar com você."

Sofia confirmou com um sorriso travesso.

Marina ocupou o lugar indicado. Vicente sentou-se à cabeceira, de frente para ela.

"Pensei que uma casa como esta tivesse uma equipe inteira para servir o jantar", comentou Marina.

"Temos funcionários durante o dia", respondeu Helena. "Mas esta é a hora da família. Ninguém precisa servir ninguém."

Enquanto conversava, Helena também sinalizava. Vicente fazia o mesmo. Sofia acompanhava tudo, sem precisar esperar que alguém resumisse o assunto depois.

Marina observou aquilo em silêncio.

No restaurante e na academia, as pessoas falavam sobre Sofia. Ali, todos falavam com ela.

"Sofia me contou que você aprendeu Libras por causa de uma prima", disse Helena.

"Elisa. Crescemos juntas."

"E continuou praticando depois que ela foi embora?"

"Com livros, vídeos e comunidades online. Eu não queria esquecer."

Helena inclinou a cabeça.

"Como se soubesse que um dia voltaria a precisar."

Marina ergueu os olhos. Havia algo estranho naquela frase, mas Vicente interveio antes que ela perguntasse.

"Mãe."

Não elevou a voz. Ainda assim, Helena aceitou o aviso.

"Perdoe a curiosidade de uma velha." Ela se virou para a neta. "Conte a Marina sobre seu projeto de ciências."

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Sofia começou a explicar sua pesquisa sobre a comunicação dos golfinhos. Suas mãos se moviam depressa, e a seriedade com que descrevia assobios e sinais fazia Marina sorrir.

"Você quer trabalhar com animais marinhos quando crescer?", perguntou.

“Quero entender o que eles dizem quando ninguém está ouvindo.”

A resposta infantil tocou um ponto sensível demais.

"Acho que você vai conseguir", disse Marina.

Vicente não participou, mas seu olhar permaneceu nela por tempo suficiente para aquecer seu rosto.

Depois do jantar, Sofia pediu para mostrar o jardim. Marina aceitou e se levantou, porém Vicente também deixou a cadeira.

"A propriedade é grande. Vou com vocês."

"Há câmeras em todos os cantos e homens armados do lado de fora", observou Marina. "Imagino que não corramos o risco de nos perder."

Uma sombra de humor passou pelos olhos dele.

"Câmeras não substituem companhia."

Sofia segurou a mão de Marina e as conduziu por uma varanda. O jardim era iluminado por pequenos pontos no chão. Jasmins e rosas perfumavam o ar, e ao longe o oceano se confundia com a escuridão.

Marina notou sensores nas paredes, luzes que acompanhavam o movimento e homens posicionados em pontos estratégicos. Sofia, contudo, corria pelos caminhos como qualquer criança feliz por mostrar sua casa a uma amiga.

Ela levou Marina a um pequeno lago com peixes e depois a um balanço preso a uma árvore antiga.

“Papai fez para mim.”

"Ele constrói muitas coisas", disse Marina, olhando para Vicente.

"Construir é mais simples do que consertar", respondeu ele.

Não explicou o que queria dizer.

Sofia se sentou no balanço. Marina a empurrou suavemente, e o vestido rosa se abriu ao vento. Por alguns minutos, seus olhos perderam aquela vigilância precoce.

Vicente observava de braços cruzados.

Marina percebeu que, mesmo sorrindo para a filha, ele verificava os portões, as janelas e cada ruído vindo da vegetação.

"Ela pode brincar sozinha no jardim?", perguntou.

"Nunca."

"Nem durante o dia?"

"Nunca", repetiu Vicente.

Sofia diminuiu o movimento do balanço e fitou o pai. O sorriso havia desaparecido.

Marina não insistiu diante dela.

Quando o vento ficou mais frio, seguiram por outro caminho. Atrás de uma fileira de árvores havia um pequeno ateliê de janelas amplas, fechado e escuro.

Sofia parou.

“Era da mamãe.”

Vicente ficou rígido.

"Não precisamos ir até lá esta noite."

A menina baixou a mão, mas Marina viu a decepção.

"Você pode me mostrar em outro dia", disse a Sofia. "Se quiser."

Os olhos dela se iluminaram com a possibilidade de um reencontro.

Vicente percebeu.

"Você é bem-vinda quando desejar", disse ele. "Sofia ficaria feliz."

Marina sustentou seu olhar.

"Isso é um convite ou outra decisão tomada por mim?"

Sofia olhou de um para o outro.

Vicente demorou um instante antes de responder.

"Um convite."

"Então eu pensarei."

Não havia hostilidade em seu tom, mas também não havia submissão. Pela primeira vez naquela noite, Vicente pareceu não saber exatamente o que fazer com uma resposta.

Helena surgiu na varanda e chamou Sofia para se preparar para dormir.

A menina abraçou Marina pela cintura.

“Você volta?”

“Eu disse que pensaria.”

Sofia franziu o rosto.

Marina tocou a ponta de seu nariz.

“E quando eu prometo pensar, penso de verdade.”

A menina aceitou. Correu até a avó, mas parou na varanda e voltou a sinalizar:

“Mamãe gostava daquele jardim. Foi lá que papai ficou quando disseram que ela não voltaria.”

Vicente não se moveu.

Helena pousou as mãos nos ombros da neta e a conduziu para dentro.

Marina ficou ao lado de um homem temido por toda a cidade. Naquele momento, porém, ele parecia alguém que ainda esperava diante de uma porta fechada havia quatro anos.

"O que aconteceu com Isabela?", perguntou.

Vicente voltou os olhos para ela.

"Se você retornar", disse, "eu lhe contarei."

 

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