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"A Garçonete Que Falou com as Mãos" CAPÍTULO 3 — PRESENTES QUE SABIAM DEMAIS

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CAPÍTULO 3 — PRESENTES QUE SABIAM DEMAIS

Na quinta-feira, Marina passou quase uma hora diante do pequeno guarda-roupa.

Sua vontade era telefonar para Vicente e cancelar. Poderia alegar uma indisposição, um turno extra, qualquer desculpa que fechasse a porta que ele parecia abrir à força em sua vida.

Mas havia feito uma promessa a Sofia.

Escolheu um vestido azul-marinho simples, o mesmo que usara na última audiência antes de sair definitivamente do sistema de acolhimento. O tecido desbotara com as lavagens e a barra tinha um ponto quase solto, mas era a peça mais elegante que possuía.

Às seis em ponto, o celular vibrou.

“O carro está esperando.”

O SUV preto brilhava diante do prédio envelhecido como um animal deslocado. O segurança da cicatriz abriu a porta traseira.

"Senhorita Alves. O senhor Ferraz nos encontrará na academia."

Sobre o banco havia uma pequena sacola.

"Isso é para a senhora."

Marina encontrou dentro dela uma pulseira fina de prata com um pingente de golfinho.

O presente era delicado, não ostensivo. Exatamente o tipo de joia que ela escolheria se algum dia pudesse gastar dinheiro com algo inútil e bonito.

Esse conhecimento implícito a incomodou mais do que o preço.

Ainda assim, colocou a pulseira.

Por Sofia, disse a si mesma.

A Academia Santista de Música funcionava num casarão histórico restaurado, com colunas claras, jardins impecáveis e janelas altas. Carros de luxo formavam uma fila na entrada. Pais em roupas de grife conduziam crianças com estojos de instrumentos para o auditório.

Marina se sentiu intrusa antes mesmo de pisar na calçada.

A porta do SUV se abriu por fora.

Vicente estava ali, num terno grafite impecável.

Seus olhos percorreram o vestido, a bolsa gasta e, por fim, a pulseira no pulso dela.

"Você está linda."

Marina aceitou a mão que ele oferecia para ajudá-la a sair.

"Obrigada pela pulseira. Não precisava."

"Sofia escolheu. Ficará feliz ao ver que está usando."

Ele não soltou a mão dela ao subir os degraus.

As pessoas olhavam.

Algumas com curiosidade; outras, com uma hostilidade mal disfarçada. Homens cumprimentavam Vicente com movimentos discretos de cabeça. Mulheres puxavam bolsas caras para mais perto do corpo, como se a presença dele pudesse contaminá-las.

"Onde está Sofia?"

"Nos bastidores. Reservei lugares na primeira fila."

O auditório tinha teto alto, painéis de madeira e cadeiras revestidas de veludo. Quando Vicente caminhou pelo corredor central, as pessoas abriram passagem.

Eles se sentaram lado a lado.

"Ela ensaiou durante meses", murmurou ele. "O professor sugeriu uma peça mais simples, mas Sofia não aceitou."

O orgulho em sua voz era impossível de esconder.

As luzes diminuíram. Crianças pequenas tocaram melodias curtas, algumas errando notas e recomeçando sob aplausos entusiasmados.

Então anunciaram Sofia Ferraz.

Ela surgiu usando um vestido rosa-claro que a fazia parecer ainda menor. Caminhou até o piano com as costas retas e o queixo erguido.

Não procurou o pai na plateia.

Apenas fechou os olhos e começou.

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As mãos pequenas percorreram as teclas com uma segurança delicada. A música se espalhou pelo salão como água, limpa e triste. Marina não entendia de técnica, mas reconheceu algo que conhecia bem: a solidão transformada em beleza porque não encontrara outra saída.

Ao seu lado, Vicente ficou absolutamente imóvel.

A frieza havia desaparecido de seu rosto. Ele olhava para a filha com uma admiração tão desprotegida que, por alguns segundos, Marina esqueceu todos os boatos.

Não viu o homem que controlava parte da cidade.

Viu um pai que amava a filha com tudo o que ainda restava nele.

Quando a última nota morreu, o auditório permaneceu em silêncio por um instante. Depois, explodiu em aplausos.

Sofia abriu os olhos e encontrou a primeira fila.

Seu rosto sério se transformou ao ver Marina ao lado do pai.

Marina se levantou para aplaudir. As lágrimas surgiram antes que pudesse contê-las.

Vicente ficou de pé junto dela. Quando seus ombros se tocaram, ele não se afastou.

Após a apresentação final, todos seguiram para o salão de recepção. Vicente guiou Marina pela multidão com a mão pousada em suas costas. As pessoas se afastavam antes que ele precisasse pedir.

"Senhor Ferraz!"

Uma mulher loira, de cerca de quarenta e cinco anos, aproximou-se com um sorriso rígido. Diamantes brilhavam em seu pescoço. Um homem igualmente elegante vinha ao lado dela.

"Senhora Brandão", cumprimentou Vicente. "Senhor Brandão."

"A apresentação de Sofia foi impressionante", disse a mulher. Seus olhos deslizaram sobre Marina. "Muito além do esperado para uma criança... com as limitações dela."

A mão de Vicente ficou tensa nas costas de Marina.

"Minha filha não tem limitações musicais. Ela tem disciplina. Algo que nem sempre acompanha o privilégio."

O sorriso da mulher vacilou.

"Naturalmente. Eu também gostaria de falar sobre o baile beneficente. Como membro do conselho da academia, seria negligente se não pedisse novamente sua contribuição."

"Meu assessor entrará em contato. Tenho certeza de que encontraremos uma solução que beneficie a academia."

A ênfase fez o marido da mulher baixar os olhos.

Ela voltou a atenção para Marina.

"E a senhorita é...?"

Antes que Marina respondesse, Vicente pressionou de leve a mão contra suas costas.

"Marina Alves. Uma amiga da família."

Amiga da família.

As palavras pairaram entre os três, carregadas de uma intimidade que Marina ainda não sabia se possuía.

"Que adorável", disse a senhora Brandão. "Não vamos afastá-los de Sofia."

Assim que o casal saiu, Marina encarou Vicente.

"O que foi isso?"

"O marido dela me deve uma quantia considerável. A academia recebe minhas doações e, em troca, finge não considerar Sofia um problema para a imagem impecável deles."

A raiva contida em sua voz era mais assustadora do que um grito.

"Tentaram impedir a matrícula dela?"

"Disseram não ter recursos para uma criança com necessidades especiais." Seu maxilar se contraiu. "O que queriam dizer era que uma menina que não fala estragaria a fotografia perfeita da escola."

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Antes que Marina respondesse, as portas do salão se abriram.

Sofia apareceu e correu pela multidão.

Atirou-se primeiro nos braços do pai. Vicente a ergueu, apertou-a contra o peito e a colocou no chão. Em seguida, sinalizou:

“Você foi extraordinária, piccola. Tenho muito orgulho de você.”

Sofia se voltou para Marina.

“Você veio. Gostou? Eu toquei bem?”

Marina se ajoelhou para ficar na altura dela.

“Você foi maravilhosa. Nunca ouvi alguém tocar com tanta beleza.”

A menina lançou os braços ao redor de seu pescoço.

Marina retribuiu o abraço, sentindo o cheiro infantil de xampu de morango. Algo quente e doloroso se abriu dentro de seu peito.

Quando se levantou, percebeu que Vicente as observava.

Ao redor deles, pais cochichavam atrás de sorrisos educados. A imagem era impossível de ignorar: o homem mais temido de Santos, sua filha silenciosa e uma mulher que claramente não pertencia àquele mundo, unidos por uma língua que os curiosos não compreendiam.

"Sofia quer que você jante conosco", disse Vicente. "Para comemorarmos."

Marina olhou a hora. Já passava das oito, e teria turno cedo no dia seguinte.

“Venha”, pediu Sofia. “Quero mostrar meu quarto, meu piano e minha casa.”

Resistir à esperança em seus olhos foi impossível.

"Tudo bem. Mas não posso ficar até muito tarde."

Sofia segurou sua mão e a puxou para a saída.

Do lado de fora, o vento do mar havia esfriado. A menina estremeceu dentro do vestido fino. Marina tirou o cardigã e o colocou sobre os ombros dela sem pensar.

"Obrigada", disse Vicente, baixo. "A maioria das pessoas não faz isso."

"Emprestar um casaco?"

"Enxergá-la." O olhar dele permaneceu no rosto de Marina. "Uns veem a condição de Sofia. Outros veem a mim e o que represento. Você vê minha filha."

Marina observou Sofia, que abraçava o cardigã como se fosse um cobertor.

"Ela é fácil de enxergar. Sofia brilha."

Algo se desarmou no rosto de Vicente.

No SUV, Sofia se acomodou entre os dois e continuou segurando a mão de Marina. O carro deixou para trás as avenidas iluminadas e tomou uma estrada particular que subia os morros, de onde se via o brilho distante do porto e do oceano.

O portão de uma propriedade cercada por muros altos se abriu.

Homens armados conferiram o veículo antes de permitir a entrada.

Marina viu jardins extensos, câmeras discretas e uma casa mediterrânea iluminada no alto. Não era a ostentação que imaginara. Parecia um lar bonito transformado em fortaleza.

"Bem-vinda à nossa casa", disse Vicente.

Sofia saltou assim que a porta abriu e puxou Marina pelos degraus. Uma senhora de cabelos escuros marcados por mechas prateadas já as aguardava.

“Vovó!”, sinalizou a menina, correndo para abraçá-la.

"Aí está minha estrela", respondeu a mulher, também em Libras.

Depois, seus olhos atentos pousaram em Marina.

"E você deve ser Marina Alves."

Marina parou.

"A senhora sabe meu nome?"

"Sofia não fala de outra pessoa há dias." A mulher sorriu. "Sou Helena Ferraz, mãe de Vicente. Entre. O jantar ficará pronto em meia hora."

Sofia levou Marina escada acima e mostrou seu quarto, os livros de animais marinhos, o piano e uma casa de bonecas que Vicente construíra com as próprias mãos.

Por alguns minutos, aquele lugar pareceu apenas a casa de uma menina amada.

Então Sofia acendeu as pequenas luzes da casa de bonecas e seu sorriso desapareceu.

“Gosto daqui”, sinalizou. “Papai faz tudo para ser seguro.”

Marina sentou-se ao lado dela.

“Seguro contra o quê?”

Os dedos da menina hesitaram.

“Contra os homens maus que machucaram minha mamãe.”

Antes que Marina pudesse perguntar mais, Helena chamou para o jantar.

Sofia fechou a casa de bonecas e agarrou a mão de Marina com força.

Seus olhos escuros estavam sérios demais para uma criança de sete anos.

“Não vá embora”, pediu com as mãos. “Por favor, fique conosco.”

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