"A Garçonete Que Falou com as Mãos" CAPÍTULO 2 — ELE VOLTOU POR ELA
CAPÍTULO 2 — ELE VOLTOU POR ELA
Às sete e dois da noite, as portas do Bellagio se abriram.
Desta vez, Vicente Ferraz entrou acompanhado por três seguranças.
Sofia vinha ao lado dele usando um vestido cor de vinho e uma faixa combinando nos cabelos. Apertava contra o peito um golfinho de pelúcia já gasto pelo tempo.
Assim que viu Marina perto do balcão, puxou a manga do pai e começou a sinalizar com entusiasmo.
“Marina está aqui.”
Vicente acompanhou o olhar da menina. Um quase sorriso tocou o canto de sua boca antes de ele assentir.
Marina respirou fundo e se aproximou.
"Boa noite, senhor Ferraz."
Então sorriu para Sofia e usou Libras.
“Olá de novo. Gostei do seu golfinho.”
“Ele se chama Azul. Papai comprou no aquário.”
"Sofia falou de você durante todo o dia", informou Vicente. "Parece que deixou uma impressão duradoura."
"É fácil conversar com ela."
Marina percebeu os seguranças observando cada movimento seu. Para aqueles homens, até um sorriso podia esconder uma ameaça.
"O de ontem para Sofia", ordenou Vicente. "E um vinho tinto para mim."
Quando Marina se virou, viu de relance a menina fazer um pedido ao pai. Vicente negou com a cabeça.
"Hoje não, piccola. Talvez outra vez."
Sofia abaixou os olhos e apertou o golfinho.
Ao voltar com as bebidas, Marina não conteve a curiosidade.
“O que você pediu a ele?”
Sofia olhou para o pai. Vicente concedeu um pequeno aceno.
“Perguntei se você poderia sentar conosco por alguns minutos. Não tenho muitos amigos que saibam falar comigo.”
A confissão atingiu Marina com força.
Antes que ela respondesse, Vicente pousou a taça sobre a mesa.
"Talvez Marina possa se juntar a nós depois do expediente."
Ele disse aquilo como quem anunciava uma decisão já tomada.
"Eu termino às nove."
"Estaremos aqui até as nove e meia. Sofia costuma pedir a sobremesa nesse horário."
Marina deveria ter explicado que tinha planos. Mesmo que precisasse inventá-los.
Mas Sofia sorria para ela como se acabasse de ganhar um presente.
"Então eu volto quando terminar."
As duas horas seguintes passaram entre pedidos, pratos e clientes impacientes. Ainda assim, Marina sentia os olhos de Vicente acompanhando-a sempre que atravessava o salão.
Às nove, trocou a camisa do uniforme por uma blusa simples e soltou os cabelos castanhos, antes presos num rabo de cavalo. No espelho manchado do banheiro, as olheiras denunciavam semanas de turnos extras.
"Você não precisa fazer isso", disse ao próprio reflexo.
Mas Sofia entendia a solidão de um jeito que nenhuma criança deveria entender.
Marina não conseguiria abandoná-la depois de prometer voltar.
Ao sair, Márcio bloqueou seu caminho.
"Você vai se sentar com eles sem uniforme? Ficou maluca?"
"Ele pediu."
"Vicente Ferraz não pede nada sem ter um motivo."
"Ele só quer alguém que converse com Sofia."
"E você não acha estranho ter sido escolhida entre todas as pessoas de Santos que conhecem Libras?" Márcio olhou para a mesa doze. "Homens como ele não acreditam em coincidências."
As palavras a acompanharam até a mesa.
Vicente interrompeu a conversa com um segurança e se levantou quando ela chegou. O gesto antigo de cortesia parecia incompatível com tudo o que Marina ouvira sobre ele.
"Sente-se conosco. Sofia contou os minutos."
“Você veio”, sinalizou a menina.
“Eu prometi.”
Sofia começou a falar com as mãos sobre o piano, um livro de animais marinhos e o golfinho Azul. Marina respondeu, riu e fez perguntas. A menina ganhava vida a cada frase silenciosa.
Vicente as observava com uma atenção imóvel.
"Você sinaliza muito bem", comentou durante uma pausa. "Falou de uma prima."
"Elisa. Ela nasceu surda. Crescemos juntas, mas os pais dela se separaram e ela foi morar longe. Continuei praticando porque..."
Marina passou o dedo pela borda do prato.
"Porque parecia uma forma de conservar uma parte dela comigo."
"Lealdade", disse Vicente. "Uma qualidade rara."
Um garçom trouxe três sobremesas: tiramisù para Vicente, gelato para Sofia e bolo de chocolate para Marina.
"Eu não pedi isso."
"Sofia lembrou que você mencionou gostar de chocolate."
Marina olhou para a menina, que confirmou com entusiasmo.
Eles haviam falado sobre ela.
Pior: lembravam-se de detalhes que a própria Marina dizia sem pensar.
Durante a sobremesa, Vicente fez perguntas aparentemente casuais: há quanto tempo trabalhava no Bellagio, em que bairro vivia, onde crescera.
Marina respondeu com cautela.
"E sua família?"
"Sou só eu. Meus pais morreram num acidente quando eu tinha dezessete anos. Depois disso, passei por algumas famílias acolhedoras."
O rosto de Vicente mudou por um instante, mas Sofia puxou a manga dele antes que respondesse.
“A Marina pode ir à minha apresentação de piano na quinta-feira?”
Os olhos da menina estavam cheios de esperança.
Vicente olhou para Marina.
"Você gostaria de ir? Significaria muito para Sofia."
"Claro. Onde será?"
"Na Academia Santista de Música, às sete."
Ele retirou um cartão do bolso, escreveu um número no verso e o deslizou pela mesa.
"Meu telefone particular. Envie seu endereço. Meu motorista buscará você às seis."
"Posso ir sozinha."
O olhar dele endureceu, embora o tom permanecesse calmo.
"A academia fica numa área de acesso ruim para transporte público, e estacionar será quase impossível. O carro estará em sua porta às seis."
Marina sentiu a delicadeza da armadilha. Tudo era oferecido como gentileza, mas nada parecia aceitar recusa.
Mesmo assim, assentiu.
Sofia bateu palmas sem som e começou a explicar as músicas que tocaria.
Um dos seguranças se aproximou e murmurou algo no ouvido de Vicente. A transformação foi imediata. A suavidade desapareceu de seus olhos.
"Precisamos sair. Agora."
Sofia escorregou da cadeira sem protestar e pegou o golfinho. A rapidez com que obedeceu revelava uma disciplina aprendida pela necessidade.
“Vejo você na quinta”, sinalizou Marina.
“Promete?”
“Prometo.”
Vicente observou a troca antes de abotoar o paletó.
"Até quinta, Marina."
Tânia apareceu assim que o grupo deixou o salão.
"O que ele queria?"
"Convidou-me para a apresentação de Sofia."
O rosto da colega perdeu a cor.
"Ele não convida garçonetes para eventos da família."
"Não é por mim. É por ela."
"Não seja ingênua. Nada é simples com gente como Vicente Ferraz."
Marina guardou o cartão na bolsa e saiu do restaurante pouco depois. O vento úmido vindo do mar esfriava as ruas. Ela apertou o casaco fino ao redor do corpo e seguiu até o ponto de ônibus.
Queria jogar o cartão fora.
Queria também ver Sofia subir ao palco e encontrar na plateia alguém capaz de dizer, com as próprias mãos, que estava orgulhosa dela.
Tão perdida estava em seus pensamentos que só percebeu o SUV preto quando ele reduziu a velocidade ao seu lado.
O vidro traseiro desceu.
O segurança mais velho, com uma cicatriz cortando a sobrancelha, inclinou o rosto para fora.
"Senhorita Alves, o senhor Ferraz pediu que a levássemos para casa. Os ônibus ficam escassos neste horário."
Marina parou.
"Como sabe meu sobrenome?"
O homem não respondeu.
"Não precisa. Eu pego o ônibus."
"O senhor Ferraz insiste que chegue em segurança."
A palavra insiste deixou claro que aquilo também não era um pedido.
Fazer uma cena no meio da rua pareceu imprudente. Marina entrou no veículo e afundou no banco de couro.
O motorista já conhecia o endereço.
Na manhã seguinte, encontrou uma caixa branca diante da porta de seu apartamento. Dentro havia um livro infantil sobre uma menina que conversava com golfinhos e um cartão.
“Sofia achou que você gostaria.”
Marina nunca havia enviado seu endereço ao número de Vicente.
No dia posterior, chegaram compras de supermercado: o café que costumava beber, o pão que sempre levava e até a marca barata de sabonete que usava.
Outra mensagem acompanhava as sacolas.
“Você trabalha demais para perder tempo com compras. V.F.”
Marina segurou o bilhete com os dedos frios.
Aquilo não era cuidado comum.
Era a atenção de um homem que sabia coisas demais.
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