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"A Garçonete Que Falou com as Mãos" CAPÍTULO 1 — A MESA DOZE

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CAPÍTULO 1 — A MESA DOZE

O tilintar dos talheres e o murmúrio das conversas enchiam o Bellagio naquela noite de sábado.

Havia oito meses, Marina Alves trabalhava naquele restaurante italiano no Gonzaga, um dos bairros mais valorizados de Santos. O cheiro de alho, manjericão e manteiga já parecia impregnado em sua pele. Nem os banhos demorados depois do expediente conseguiam arrancá-lo por completo.

Seus pés latejavam dentro dos sapatos pretos de salto exigidos pelo gerente, e a gola engomada da camisa raspava seu pescoço. Ainda assim, ela equilibrava três pratos de linguine no antebraço com o sorriso treinado de quem sabia que um segundo de distração podia custar a gorjeta — ou o emprego.

"A mesa sete pediu a conta", sussurrou Tânia ao passar por ela. Seus olhos correram nervosos até a entrada. "E, pelo amor de Deus, não chegue perto da mesa doze."

Marina serviu os empresários da mesa nove, que mal interromperam a conversa para notá-la.

Aquilo lhe convinha.

Os invisíveis sobreviviam.

Ela aprendera essa lição cedo, muito antes de completar dezoito anos, quando ainda passava de uma família acolhedora para outra carregando toda a vida dentro de uma mala.

Ao se virar para buscar a conta, Marina sentiu a mudança no ambiente.

Não foi um barulho, mas a ausência dele.

As conversas diminuíram. Uma risada morreu pela metade. Até os garçons que circulavam entre as mesas reduziram o passo quando as portas de madeira se abriram.

Dois homens de terno preto entraram primeiro. Não tinham a postura desajeitada de seguranças de shopping. Seus olhos percorreram saídas, janelas e rostos com precisão mecânica.

Então ele apareceu.

Vicente Ferraz era mais imponente do que as histórias faziam parecer.

Alto, ombros largos, perto dos quarenta, vestia um terno grafite que provavelmente custava mais do que seis meses do aluguel de Marina. Fios prateados marcavam suas têmporas. O rosto moreno, severo e bonito carregava pequenas cicatrizes que nenhum alfaiate caro poderia esconder.

Mas eram os olhos que prendiam a atenção.

Escuros, frios e indecifráveis.

Olhos de alguém que já havia visto violência — e que talvez a tivesse ordenado.

Márcio, o gerente, correu para recebê-lo. O homem que gritava com os funcionários por causa de uma taça fora do lugar agora parecia ter esquecido como respirar.

Vicente respondeu ao cumprimento com um aceno discreto.

Marina conhecia os rumores. O nome Ferraz aparecia em notícias cuidadosamente redigidas, sempre cercado por palavras como “empresário”, “investigação arquivada” e “falta de provas”. Diziam que ele controlava parte dos negócios clandestinos ligados ao porto, além de casas de apostas e uma rede de proteção que alcançava policiais, empresários e políticos.

Ninguém dizia isso em voz alta.

Contudo, não foi Vicente que manteve Marina olhando.

Foi a pequena figura meio escondida atrás dele.

Uma menina de no máximo sete anos, cabelos escuros caindo em ondas cuidadosas ao redor do rosto. Usava um vestido azul-marinho, sapatilhas envernizadas e mantinha as costas retas como se tivesse ensaiado cada passo antes de sair de casa.

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"Venha, Sofia", disse Vicente.

A voz que fazia homens adultos empalidecerem tornou-se inesperadamente suave.

Ele pousou a mão no ombro da filha e a conduziu à mesa doze, afastada num canto de onde era possível observar tanto o salão quanto a rua. Um dos seguranças puxou primeiro a cadeira da menina, depois a de Vicente.

Sofia se sentou com elegância treinada, mas seus olhos se moviam depressa demais.

Ela estava assustada.

"Marina."

A voz urgente de Márcio a fez estremecer.

Ele surgira ao lado dela com o rosto pálido.

"Você vai atender a mesa doze."

"Eu? Aquele setor é do Roberto."

"Roberto passou mal."

O olho direito dele tremeu. Márcio mentia sempre que aquele tique aparecia.

"O senhor Ferraz é um cliente muito importante", continuou. "Não cometa nenhum erro."

Importante.

Uma palavra educada para perigoso.

Marina alisou o avental e caminhou até a mesa. Cada passo parecia ecoar no salão silencioso.

"Boa noite. Bem-vindos ao Bellagio. Meu nome é Marina e vou atendê-los. Posso trazer algo para beber?"

O olhar de Vicente subiu até seu rosto e a examinou numa única varredura. Marina resistiu ao impulso de baixar os olhos.

"Água com gás para mim."

Ele olhou para a filha, que mantinha a atenção presa ao guardanapo dobrado.

Marina percebeu então que os demais garçons faziam um grande desvio daquela mesa. Os clientes próximos evitavam olhar para Sofia, como se até a criança carregasse a reputação do pai.

"E para sua filha? Temos sodas italianas de morango, framboesa e laranja."

Algo parecido com surpresa atravessou os olhos de Vicente.

"Sofia não fala."

Os ombros da menina se contraíram. Seus dedos apertaram a toalha branca.

Marina conhecia aquela cena. Adultos respondendo por alguém. Pessoas discutindo limitações como se quem as possuía não estivesse presente.

Ela se inclinou um pouco para ficar mais próxima da altura da menina.

"Tudo bem", disse, olhando diretamente para Sofia. "Não é preciso falar para saber do que gosta."

Então suas mãos se moveram.

Os sinais vieram com a memória de algo que seu corpo jamais esquecera.

“Você prefere morango, framboesa ou laranja?”

Sofia levantou a cabeça de repente.

Seus olhos se arregalaram. Por um instante, todo o restaurante pareceu desaparecer. Restaram apenas uma menina silenciosa e uma garçonete que falava a língua que os outros não haviam se dado ao trabalho de aprender.

As pequenas mãos de Sofia se ergueram com cautela.

“Morango, por favor.”

O sorriso que iluminou seu rosto foi tão intenso que apertou o peito de Marina.

“Ela quer morango”, traduziu Marina, endireitando-se.

Vicente a encarava.

Um dos seguranças mudou de posição e levou a mão para perto do paletó. Marina sentiu a boca secar.

"Você conhece Libras", disse Vicente.

Não era uma pergunta.

"Minha prima nasceu surda. Nós crescemos juntas."

Por alguns segundos, ele permaneceu imóvel. Depois, a dureza de seu rosto cedeu quase imperceptivelmente.

"Água com gás e soda de morango. Precisamos de alguns minutos para escolher."

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"Claro."

Marina se afastou e só percebeu que prendia a respiração quando alcançou o balcão de bebidas.

"O que você fez?", perguntou Tânia, quase sem mover os lábios.

"Perguntei o que ela queria beber."

"Você fez sinais para a filha de Vicente Ferraz."

"E ela respondeu."

Tânia olhou para Marina como se essa fosse precisamente a parte assustadora.

Durante o jantar, Marina voltou à mesa mais vezes do que o necessário. Sofia contou que adorava golfinhos, odiava brócolis e aprendia piano. Eram detalhes simples, infantis, preciosos. Cada vez que alguém falava, Marina também sinalizava, garantindo que a menina não fosse excluída da conversa.

Vicente observava tudo.

Ele quase não sorria, mas sua atenção nunca deixava a filha. Cortou a comida de Sofia sem que ela pedisse, afastou discretamente um copo quando o braço dela quase o atingiu e usou Libras sempre que se dirigia a ela.

O homem perigoso dos boatos parecia desaparecer por breves segundos.

Em seu lugar havia apenas um pai.

Depois do tiramisù de Vicente e do gelato de Sofia, Marina levou a conta. Ele colocou um cartão preto na pasta sem verificar o valor.

Sofia fez um sinal rápido para o pai.

Marina viu e seu coração falhou uma batida.

“A Marina pode ser minha amiga?”

O olhar de Vicente encontrou o dela.

"A Marina está trabalhando, Sofia", respondeu ele, sinalizando ao mesmo tempo. "Agradeça pelo atendimento."

O sorriso da menina desapareceu.

Antes que pudesse se conter, Marina respondeu em Libras:

“Eu trabalho aqui de terça a sábado. Pode vir me ver quando quiser.”

Sofia se iluminou novamente.

Já Vicente ficou muito quieto.

Quando se levantaram, ele parou diante de Marina. Perto demais, ela sentiu o perfume discreto de cedro e alguma coisa mais escura.

"De terça a sábado", repetiu em voz baixa.

Não era uma pergunta.

Era uma informação que ele decidira guardar.

Em seguida, Vicente saiu com a filha e os seguranças, abrindo caminho pelo salão como se aquela cidade lhe pertencesse.

Marina começou a retirar os pratos. Só então viu as cinco notas de quinhentos reais dobradas sob o saleiro.

"Dois mil e quinhentos reais", murmurou Tânia, surgindo ao seu lado. "O que você fez para merecer isso?"

Marina fitou o dinheiro com um desconforto difícil de explicar.

"Eu apenas conversei com a filha dele."

"Esse é o problema." Tânia baixou ainda mais a voz. "Todo mundo sabe que é melhor manter distância dos Ferraz. Quem se aproxima de Vicente acaba trabalhando para ele, devendo a ele ou enterrado por causa dele."

Marina deveria ter ouvido o aviso.

Deveria ter pedido folga, trocado de turno ou feito qualquer coisa para permanecer invisível.

Mas, na tarde seguinte, Márcio já a esperava junto ao relógio de ponto.

Seu olho direito tremia.

"O senhor Ferraz telefonou pessoalmente", disse. "Reservou a mesa doze para hoje, às sete."

Marina apertou a alça da bolsa.

"E exigiu que você atendesse a filha dele."

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