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"As 50 Ligações Que Ele Ignorou" Capítulo 4

正文开头

Marta pediu que ninguém ligasse para Daniel. Às sete e quinze, enviou uma notificação formal à seguradora informando a existência de disputa familiar, investigação patrimonial e possível conflito de interesses do beneficiário. Não acusou Daniel de ter provocado a morte.

Anexou apenas a certidão hospitalar, o pedido de indenização e a procuração de Rebeca.

— Vão suspender o pagamento? — Natan perguntou.

— Devem abrir diligência. Suspender definitivamente depende de fatos que ainda não temos.

Rebeca colocou o laudo médico ao lado da apólice.

— A doutora foi clara. Lívia morreu de miocardite.

— E vamos manter isso claro — Marta respondeu. — Fraude financeira já é grave. Inventar homicídio destruiria a verdade e a nossa credibilidade.

Simão passou a manhã reconstruindo a origem da apólice. Cinco anos antes, Daniel contratara seguros de alto valor para os três integrantes da família dentro de um plano sucessório.

A estrutura era incomum, mas lícita. O problema estava no destino recente dos pagamentos e na velocidade do pedido.

— Ele tinha o formulário pronto — Simão disse. — O sistema registra criação às seis e vinte e oito e envio às seis e quarenta e dois.

— Quatorze minutos — Rebeca falou.

— O certificado de óbito digital entrou na base às seis e dezessete.

Rebeca levantou-se e foi até a pia. Abriu a torneira, lavou uma xícara limpa e colocou-a no escorredor.

Natan observou sem interferir. O telefone tocou às onze.

Número desconhecido.

— Senhora Valença? Meu nome é Juliana Cruz.

Rebeca se apoiou na bancada.

— Eu sei quem você é.

Do outro lado, uma respiração rápida.

— Daniel mandou eu apagar tudo.

Marta estendeu a mão. Rebeca ativou o viva-voz e informou que sua advogada estava presente.

— Apagar o quê? — Marta perguntou.

— Mensagens, e-mails, fotos. Os arquivos da Bem-Estar Meridian. Ele disse que eram documentos pessoais e que eu podia ser presa se alguém encontrasse.

— Você apagou?

— Não. Conversei com uma advogada hoje cedo.

— Por que está ligando para Rebeca?

Juliana demorou a responder.

— Porque eu vi a notícia da Lívia.

Rebeca fechou os dedos em torno da borda de pedra.

— Você estava com ele quando eu liguei?

— Estava.

— Ele viu as chamadas?

— Viu.

Natan deu as costas para o telefone e apertou as duas mãos na nuca.

— O que ele disse? — Rebeca perguntou.

— Que você estava tentando estragar a viagem. Que, se fosse sério, alguém do hospital ligaria.

— O hospital ligou.

Juliana ficou em silêncio.

— Eu não sabia disso.

— Você atendeu uma vez.

— Peguei o telefone quando ele foi buscar gelo. Vi seu nome, ouvi uma mulher dizer "alô" e desliguei. Eu… achei que ele tinha pedido distância.

Rebeca olhou a fotografia de Lívia no aparador.

— Minha filha estava morrendo.

— Eu sei agora.

Marta assumiu a conversa. Explicou que qualquer entrega precisaria passar pela advogada de Juliana, com preservação de metadados e cadeia documental.

正文1

Marcou uma reunião para a tarde seguinte num escritório neutro. Antes de desligar, Juliana chamou Rebeca pelo nome.

— Tem uma gravação.

— De quê?

— De Daniel explicando por que colocou dinheiro no nome da Lívia.

Na tarde seguinte, Juliana chegou usando calça bege, camisa branca e óculos escuros. Sua advogada carregava um celular lacrado e um termo de entrega.

Marta verificou números de série, horários e assinaturas antes de autorizar a reprodução. A voz de Daniel encheu a sala.

— A Rebeca não sabe onde metade do nosso dinheiro vive. A estrutura da Lívia é a coisa mais limpa que eu já montei.

Juliana perguntou na gravação se aquilo daria problema quando a menina crescesse.

— Ninguém questiona uma holding familiar no nome de uma criança. A gente desmonta antes. Ela nunca vai saber.

Rebeca ouviu duas vezes. Na segunda, não olhou para Juliana.

Anotou cada frase e o minuto do arquivo.

— Quando foi isso?

— Dez meses atrás.

— Antes do caso?

Juliana apertou a capa do telefone.

— Duas semanas depois que começou.

— Por que gravou?

— Ele queria que eu assinasse um contrato. Eu não entendia por que minha empresa recebia tanto. Uma amiga disse para eu registrar as conversas.

— E continuou aceitando.

— Continuei.

A resposta veio sem defesa. Rebeca assentiu uma vez.

Simão trabalhou três dias com os arquivos. A trilha começava em contratos inflados pagos pela Valença Logística: estratégia de marca, licenças de comportamento do consumidor, pesquisa familiar, consultoria de expansão.

O dinheiro atravessava fornecedores intermediários e chegava à holding de Lívia. De lá, financiava a Bem-Estar Meridian, dois imóveis, carteiras de investimento, o iate e despesas pessoais.

Parte voltava para Daniel na forma de empréstimos de sócio com juros inferiores aos de mercado. Simão colocou o total na tela.

R$ 44.180.000,00.

— Isso é o que conseguimos rastrear — disse. — Pode haver mais.

Marta recebeu um e-mail naquele instante. Daniel, por meio de advogado, exigia uma reunião extraordinária do conselho para "proteger a companhia de acusações produzidas durante o luto instável de uma acionista".

Rebeca leu a frase até o fim. Depois abriu a gaveta, retirou o acordo de acionistas e mostrou a cláusula de voto correspondente aos seus quinze por cento.

Antes de sair, Juliana abriu no próprio aparelho uma fotografia do convés. Daniel aparecia entre ela e outra mulher, uma garrafa erguida na mão direita.

Sobre a mesa baixa, ao lado do balde de gelo, o celular dele mostrava uma sequência de chamadas.

— Tirei sem olhar — disse Juliana. — Só vi depois.

Marta recebeu a imagem pelo canal da advogada e preservou o arquivo original. Rebeca não pediu cópia pessoal.

Bastava saber que, enquanto ela segurava a mão da filha, Daniel posava diante de um telefone aceso. Simão ampliou o canto da fotografia e confirmou o horário compatível com a internação.

Não dava para ler todos os números, mas o nome REBECA aparecia na faixa superior. Naquela noite, Rebeca releu o acordo de acionistas inteiro.

Marcou artigos sobre convocação, voto, conflito e auditoria. Às três da manhã, preparou três perguntas e riscou outras onze que buscavam explicações pessoais.

— Confirma a reunião — disse a Marta. — Desta vez eu vou falar por mim.

Marta marcou o horário e perguntou quem guardaria os originais durante o encontro. Rebeca apontou para o cofre externo.

Daniel veria cópias. A prova continuaria fora do alcance dele.

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