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"As 50 Ligações Que Ele Ignorou" Capítulo 3

正文开头

O telefone vibrou contra a mesa até deslocar uma colher. Natan segurou a borda da bancada.

Marta continuou sentada, observando Rebeca sem oferecer uma resposta pronta. Na décima primeira ligação, o aparelho parou.

Uma mensagem de áudio entrou.

— Rebeca, atende. Que porra é essa? Onde está a Lívia? Eu estou voltando. Me liga agora.

Ela salvou o arquivo numa pasta compartilhada com Marta.

— Ele perguntou onde ela está — Natan disse.

— Porque não leu nenhuma mensagem anterior.

Marta recolheu os últimos invólucros e deixou uma cópia lacrada com Rebeca. O restante seguiria para um cofre do escritório.

Simão levou as imagens forenses e prometeu um mapa inicial até a manhã seguinte.

— Troque as senhas pessoais — Marta disse na porta. — Não acesse conta corporativa fora das suas permissões. Se ele chegar, não impeça fisicamente a entrada. Ligue para mim.

Natan mostrou as chaves do carro.

— Eu fico.

Às três e quarenta da manhã, faróis atravessaram as janelas da sala. Daniel entrou sem bater.

Usava calça de linho amarrotada, camisa branca aberta no colarinho e um bracelete azul de resort no pulso direito. A pele bronzeada contrastava com o rosto esvaziado.

— Cadê ela?

Rebeca estava em pé junto à lareira. Natan ocupava o espaço entre o corredor e a escada.

— No Cemitério do Morumbi.

Daniel olhou para os dois.

— O quê?

— Você perdeu o enterro.

Ele largou a mala. O corpo avançou um passo e parou como se o piso tivesse mudado de altura.

— Não. Não, eu vi a mensagem agora. Ela estava no hospital. Você disse que ela desmaiou.

— Eu disse que era grave. Disse que ela estava piorando. Pedi que você atendesse cinquenta vezes.

— Meu telefone estava com problema.

Natan soltou as chaves sobre o aparador.

— Tenta outra.

Daniel virou-se para ele.

— Isso é entre mim e minha mulher.

— Sua filha morreu chamando por você.

Daniel levou as duas mãos à cabeça. O bracelete azul apareceu por inteiro.

Havia uma pequena âncora branca impressa nele.

— Eu achei que ela ia ficar bem. A Rebeca sempre…

Ele interrompeu a frase ao ver o rosto da esposa.

— Sempre o quê? — ela perguntou.

— Você estava nervosa por causa da Juliana. Eu achei que as ligações eram sobre isso.

— Você ouviu alguma?

— Não.

— Então escolheu a explicação que permitia continuar bebendo.

Daniel se aproximou. Natan mudou um pé de posição e bloqueou a passagem.

— Sai da frente.

— Não.

— Eu quero ver o quarto da minha filha.

— Você não vai entrar lá desse jeito.

Daniel empurrou o ombro de Natan. Natan segurou os dois braços dele e o encostou na parede sem golpeá-lo.

Um porta-retratos caiu do aparador e quebrou no piso. Rebeca reconheceu a foto: Lívia na praia, com uma pá amarela na mão.

— Solta — ela disse.

正文1

Natan soltou Daniel e ficou diante da escada. Daniel olhou a fotografia entre os cacos.

Ajoelhou-se e estendeu a mão.

— Não toca — Rebeca falou.

Ele parou.

— Era minha filha também.

— Ela perguntou por você antes de ser sedada.

O rosto dele se contraiu.

— Para.

— Pediu que eu dissesse que ela esperou.

Daniel fechou os olhos. O choro veio sem som, empurrando os ombros para baixo.

Por alguns segundos, Rebeca viu o pai que montava barracas na sala e fazia vozes ruins para personagens de desenho. Então ele abriu os olhos e apontou para Natan.

— Manda ele embora.

— Não.

— Precisamos conversar em família.

— A família estava no hospital.

Daniel puxou o bracelete do pulso e tentou quebrá-lo. O plástico resistiu.

Ele desistiu e escondeu a mão atrás do corpo.

— Eu tive um caso com Juliana.

Natan deu um passo. Rebeca ergueu a palma sem olhar para o irmão.

— Há quanto tempo?

— Oito meses.

— Ela estava no iate?

— Estava.

— Quem mais?

— Não importa.

— Importa quando você usa dinheiro da nossa filha para pagar.

Daniel perdeu a cor. O silêncio durou o tempo de Natan olhar de Rebeca para ele.

— Que dinheiro? — Daniel perguntou.

A campainha tocou. Marta entrou depois que Natan abriu a porta.

Trazia o mesmo terno do dia anterior e uma pasta fina sob o braço.

— Senhor Valença, sou Marta Salles. Represento Rebeca em questões patrimoniais e familiares a partir de agora.

Daniel se endireitou.

— Às quatro da manhã?

— O senhor marcou o horário.

Ele olhou para a pasta.

— O que ela encontrou?

Rebeca reparou na escolha das palavras. Ele não perguntou do que ela falava.

Perguntou o que encontrara. Marta também reparou.

— Recomendo que o senhor procure advogado próprio antes de responder.

— Esta é minha casa.

— E também é a casa de Rebeca. Ela não autoriza sua entrada no quarto de Lívia esta noite. Se insistir, pediremos medida protetiva patrimonial e pessoal adequada aos fatos.

Daniel riu uma vez, sem humor.

— Vocês vão transformar meu luto num processo.

Rebeca apontou para a mala.

— Vai para um hotel.

— Eu acabei de saber que minha filha morreu.

— Eu acabei de enterrá-la.

Ele permaneceu imóvel, depois pegou a mala e foi embora sem recolher a fotografia quebrada. Ao amanhecer, Simão ligou por vídeo.

Seu rosto apareceu diante de uma parede coberta por planilhas impressas.

— Encontrei uma apólice.

Marta colocou o telefone sobre a mesa.

— Segurado?

— Lívia Valença.

Rebeca apertou o porta-retratos quebrado contra o peito.

— Valor?

— Vinte e seis milhões de reais.

— Beneficiário?

Simão ajustou os óculos.

— Daniel.

Natan xingou baixo.

— Quando foi contratada? — Marta perguntou.

— Cinco anos atrás, pela holding. Há apólices semelhantes sobre Daniel e Rebeca, o que pode indicar planejamento patrimonial legítimo na origem.

Precisamos evitar conclusões sobre a morte. O laudo médico não aponta interferência externa.

— Por que está ligando agora? — Rebeca perguntou.

Simão virou uma página para a câmera.

— Porque a seguradora recebeu o pedido de indenização hoje às seis e quarenta e dois.

Rebeca olhou o relógio da cozinha. Daniel soubera da morte da filha havia menos de quatro horas.

Natan empurrou a cadeira para trás.

— Ele preencheu isso no caminho do aeroporto?

— O endereço de conexão veio de uma rede móvel próxima ao Galeão — Simão respondeu. — Posso afirmar a localização aproximada. Não quem segurava o aparelho.

Marta solicitou à seguradora os registros de autenticação e informou que a apólice seria discutida sem qualquer alegação sobre a causa da morte. Rebeca assinou o pedido com a mesma caneta usada para autorizar a internação de Lívia.

Depois levou o porta-retratos para uma vidraçaria. Pediu que mantivessem a moldura antiga, inclusive a marca deixada pelo impacto no corredor.

O atendente perguntou se ela queria trocar o vidro por acrílico.

— Quero. Não quero que quebre de novo.

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