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"As 50 Ligações Que Ele Ignorou" Capítulo 2

正文开头

Rebeca permaneceu ajoelhada diante do arquivo, segurando a fatura pelas bordas. Natan fechou a porta do escritório e puxou a cortina voltada para a rua.

Quando se aproximou, ela levantou a mão.

— Não toca em nada.

— Você acabou de arrombar a porta.

— E foi o último erro que a gente comete sem testemunha.

O antigo trabalho de Rebeca voltou por inteiro. Durante nove anos, antes de Lívia nascer, ela conferira balanços, autorizações e trilhas de auditoria para empresas que juravam ter perdido documentos por acaso.

Sabia que o papel visível raramente era a parte mais perigosa. Fotografou o envelope onde ele estava, o fundo falso, a gaveta e a fechadura rompida.

Depois colocou luvas de cozinha e separou cada folha sobre a mesa. O contrato social da Lívia Valença Participações Ltda. fora registrado cinco anos antes, quando Lívia tinha dois.

A menina aparecia como titular econômica das quotas por meio de uma holding familiar no exterior. Daniel figurava como administrador e representante autorizado.

O endereço de correspondência não era a casa. Era uma caixa postal privada na Avenida Faria Lima.

— Ele abriu uma empresa no nome dela — Natan disse.

— Ele abriu uma porta usando o nome dela.

Havia demonstrativos bancários, contratos de empréstimo, notas de consultoria e aquisições imobiliárias. Em duas páginas, Rebeca reconheceu a assinatura digital de executivos da Valença Logística Integrada.

Uma sequência de transferências levava a outra empresa: Bem-Estar Meridian Ltda. A administradora era Juliana Cruz. Natan viu o nome.

— A treinadora?

— A mulher das mensagens.

— Quanto?

Rebeca somou três colunas no celular. Refez a conta, anotou as datas e somou de novo.

— Oito milhões e quinhentos mil em dois anos.

— Pra quê?

— Licenciamento de metodologia, pesquisa de hábitos familiares, consultoria de bem-estar executivo.

Natan soltou uma risada sem humor.

— Lívia licenciava metodologia aos sete anos?

Rebeca virou outra página. Um pagamento de entrada para um apartamento em Miami.

Parcelas de um Range Rover. Uma locação de inverno em Aspen.

Passagens para Paris. A fatura do iate.

Na cozinha, alguém tocou a campainha. Natan olhou para a porta.

— Ninguém entra.

— Chama a doutora Marta Salles. O número está no meu e-mail, assunto "planejamento patrimonial". E diz que é urgente.

— Você confia nela?

— Minha mãe confiava.

Marta chegou uma hora depois com uma maleta rígida, um assistente de perícia digital e nenhuma palavra de condolência até terminar de olhar o corredor. Só então abraçou Rebeca por três segundos e recuou.

— Conte desde o início. Datas, ações, quem tocou em quê.

Rebeca contou. Marta examinou a fechadura, o envelope e as fotografias no telefone.

— A casa pertence a quem?

— Aos dois.

— O escritório era de uso exclusivo dele?

— Ele dizia que sim. Nunca me proibiu por escrito.

— Senhas?

— Não usei nenhuma.

Marta assentiu e ligou para um cartório de notas que mantinha plantão. Organizou uma ata notarial do estado dos documentos e uma coleta acompanhada das mídias encontradas no arquivo.

正文1

— Nada sai daqui sem registro — explicou. — E você não confronta Daniel antes de termos cópias verificadas.

— Minha filha foi enterrada hoje.

— Eu sei.

— O nome dela pagou a festa dele.

Marta tirou os óculos.

— Então a gente prova. Raiva não autentica documento.

Simão Chaves chegou no começo da noite. Deixou a mochila no chão, ligou um scanner portátil e trabalhou em silêncio.

Sempre que encontrava uma página relacionada, criava um número, registrava a origem e a colocava num invólucro transparente. Às oito e vinte, ele alinhou quatro comprovantes.

— O dinheiro não começou na holding da Lívia.

— Onde começou? — Rebeca perguntou.

— Na companhia aberta.

Ele apontou pagamentos feitos pela Valença Logística a três fornecedores de consultoria. Os fornecedores repassavam quase o mesmo valor à holding em intervalos de dois a cinco dias.

— Isso pode ser coincidência? — Natan perguntou.

Simão colocou a caneta atravessada sobre a folha.

— Pode. Onze vezes seguidas, com centavos correspondentes, fica caro chamar de coincidência.

Marta pediu os estatutos da companhia, acordos de acionistas e o último informe de governança. Rebeca abriu o notebook da cozinha e acessou sua caixa de documentos pessoais.

Daniel lhe dera quinze por cento das ações da Valença Logística depois do nascimento de Lívia. Na época, disse que queria reconhecer o sacrifício dela ao deixar a carreira.

Rebeca nunca exercera voto independente. Assinava procurações para o marido representar sua participação.

A última procuração expirara dois meses antes.

— Ele pediu renovação? — Marta perguntou.

— Três vezes.

— Você assinou?

— Minha filha estava doente. Eu disse que veria depois.

Marta olhou para Simão. Ele apenas anotou a data.

Perto das dez, chegou uma notificação do cartão conjunto. Uma cobrança da funerária havia sido processada.

Minutos depois, o telefone de Rebeca vibrou. Daniel.

Ela deixou tocar. Ele ligou de novo.

Na terceira chamada, chegou uma mensagem.

Que cobrança é essa da funerária?

Outra apareceu antes que Rebeca respondesse.

Rebeca, atende agora.

O homem que ignorara cinquenta chamadas já exigia resposta na segunda. Natan se levantou.

— Me dá isso.

Marta tocou o antebraço dele.

— A decisão é dela.

Rebeca abriu a conversa. A fotografia da pulseira hospitalar continuava ali, acima das mensagens não lidas.

Antes de enviar, Rebeca abriu o perfil de Daniel. A última fotografia pública mostrava os três numa festa escolar, Lívia nos ombros do pai, segurando um diploma de cartolina.

Os comentários chamavam Daniel de homem de família. A publicação saíra no mesmo dia em que a Bem-Estar Meridian recebera mais seiscentos mil reais.

Simão pediu autorização para registrar também a coincidência temporal. Marta respondeu que a imagem podia demonstrar uso da família na comunicação corporativa, desde que ninguém a confundisse com prova contábil.

— Tudo precisa ficar no tamanho certo — disse ela. — A foto prova que a foto foi usada. O extrato prova o dinheiro.

Rebeca salvou a página em formato verificável. O gesto levou menos de um minuto e lhe devolveu uma parte do chão que perdera desde a escola.

Ela escreveu duas palavras.

Lívia morreu.

Daniel ligou antes que a confirmação de leitura aparecesse. Rebeca virou o telefone com a tela para baixo.

Do outro lado da mesa, a tela continuou vibrando contra a madeira. Ninguém a virou.

Pela primeira vez desde a ligação da escola, Rebeca não correu para atender uma urgência criada por Daniel.

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