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"As 50 Ligações Que Ele Ignorou" Capítulo 1

正文开头

O telefone escorregou da mão de Rebeca quando o monitor de Lívia disparou. Uma enfermeira entrou correndo pela esquerda, puxou a cortina e apertou o botão vermelho acima da cama.

Dois médicos vieram logo atrás. Rebeca foi empurrada para o corredor com a imagem da filha de sete anos arqueando o peito sob o lençol amarelo.

— Senhora Valença, espere aqui.

— O pai dela precisa saber.

Ninguém respondeu. A porta fechou, e o vidro fosco transformou os corpos lá dentro em sombras apressadas.

Rebeca pegou o telefone do piso. A tela estava rachada num canto, porém ainda mostrava o histórico: quarenta e nove chamadas para Daniel.

Ela tocou no nome dele pela quinquagésima vez. O sinal chamou até cair na caixa postal.

Naquela terça-feira, às onze e quarenta da manhã, a escola ligara dizendo que Lívia havia desmaiado durante a aula de educação física. Quando Rebeca chegou, encontrou a filha deitada no chão do ginásio, cercada por mochilas afastadas às pressas e por uma professora que repetia que o socorro já estava vindo.

Lívia abriu os olhos quando ouviu a voz da mãe.

— Meu coração tá tropeçando.

Rebeca se ajoelhou sem sentir o impacto no piso.

— A ambulância chegou, meu amor. Fica olhando pra mim.

No Hospital Infantil Santa Aurora, exames ocuparam a primeira hora. Depois vieram o cardiologista, a sala de estabilização e uma expressão no rosto dos médicos que ninguém precisou traduzir.

— Miocardite fulminante — explicou a doutora Paula Nogueira. — É uma inflamação aguda do músculo do coração. Às vezes surge depois de uma infecção viral que parece banal.

— Ela teve resfriado há duas semanas.

— Pode ter relação. Agora precisamos controlar a arritmia e preservar a função cardíaca.

— Ela vai ficar bem?

A médica segurou a pasta contra o corpo.

— Estamos fazendo tudo o que pode ser feito.

Daniel deveria estar num encontro de investidores em Angra dos Reis. Três dias, dissera ele, com uma visita técnica a um terminal e um jantar com parceiros.

Na véspera da viagem, os dois tinham discutido por causa de Juliana Cruz, a personal trainer que mandava mensagens tarde demais para tratar apenas de treino. Daniel fechara a mala com força.

— Eu não vou passar duas semanas prestando contas de cada compromisso.

— São três dias.

— Você sabe do que eu estou falando.

O texto dele chegou no aeroporto: Não me procure pelas próximas duas

semanas. Quando eu voltar, a gente conversa.

Rebeca lera como ameaça de separação. Ainda assim, na escola, ligou.

Na ambulância, ligou. Na recepção do hospital, ligou.

Mandou mensagens curtas, depois longas, depois uma fotografia da pulseira de internação de Lívia.

Ela desmaiou.

Estamos no Santa Aurora.

É grave.

Por favor, atende.

O aplicativo marcava as mensagens como entregues. Nenhuma fora lida.

Natan chegou ao hospital pouco depois das duas, ainda usando o avental preto do restaurante sob a jaqueta. Trazia as chaves do carro apertadas na mão e cheiro de alho nas mangas.

正文1

— Cadê ele?

Rebeca apontou para o celular.

— Angra.

— Já falou com o hotel?

— Ele não está em hotel.

Ela mostrou a confirmação que uma assistente de Daniel enviara depois de muita insistência. O grupo estava hospedado num iate fretado, fora da marina.

A assistente dissera que não tinha autorização para passar o número do comandante. Natan ligou para o escritório da Valença Logística.

Apresentou-se, exigiu contato com o diretor de operações, ameaçou ir pessoalmente à sede. Quinze minutos depois, entregou o telefone de volta.

— Disseram que ele pediu para não ser interrompido.

Rebeca encarou a porta da UTI.

— Fala de novo.

— Ele pediu para não ser interrompido.

O peito de Lívia voltou a estabilizar no fim da tarde. Permitiram que Rebeca entrasse por cinco minutos.

A menina parecia menor entre os cabos. Havia adesivos redondos no peito, uma cânula sob o nariz e um oxímetro vermelho no dedo.

— Cadê o papai?

Rebeca puxou a cadeira.

— Estou chamando.

— Ele tá bravo?

— Com você, nunca.

A mentira saiu com a voz inteira. Lívia relaxou os dedos sobre o lençol.

— Quando ele atender, fala do aquário.

No domingo anterior, Daniel prometera levar a filha ao aquário. Lívia planejara o passeio num papel pautado: tubarões primeiro, pinguins depois, panquecas na volta.

Desenhou um fantasma sobre o prato porque dizia que as panquecas do café perto de casa tinham olhos de mirtilo.

— Eu falo.

— Ele vai rir.

— Vai.

Lívia fechou os olhos. Rebeca esperou a respiração da filha se alongar antes de sair.

Na madrugada de quarta-feira, os médicos colocaram Lívia em circulação assistida. Natan dormiu vinte minutos sentado, com a cabeça apoiada na parede.

Rebeca continuou acordada e ligando. Na chamada de número trinta e sete, uma voz masculina atendeu ao fundo.

Houve música, vento e uma gargalhada feminina. Antes que Rebeca dissesse alô, a ligação caiu.

Ela tentou de novo. Bloqueada.

Natan acordou com o som seco do celular batendo no braço da cadeira.

— Ele atendeu?

— Alguém atendeu.

— E?

— Desligaram.

Natan se levantou e caminhou até a janela. Os nós de seus dedos ficaram brancos ao redor das chaves.

— Eu vou buscar esse desgraçado.

— Você não sabe onde o barco está.

— Eu descubro.

Rebeca segurou a manga dele.

— Fica comigo.

Ele voltou para a cadeira sem discutir. Às cinco e dez da tarde, Lívia abriu os olhos pela última vez antes da sedação. Rebeca encostou o rosto perto do dela.

— A mamãe está aqui.

— O papai ligou?

Rebeca apertou a mão pequena, cuidando para não deslocar o oxímetro.

— Ainda não.

— Quando ele ligar, diz que esperei.

A anestesista pediu espaço. Rebeca beijou a testa da filha e saiu para o corredor andando de costas, até a porta esconder a cama.

Na quinta-feira, às duas e dezessete da manhã, a doutora Paula desligou o alarme depois de quarenta minutos de reanimação. Natan cobriu a boca.

正文2

Rebeca continuou junto à parede, com o telefone aceso na mão. O histórico marcava cinquenta chamadas.

Nenhuma resposta. O laudo veio horas depois.

A miocardite havia provocado uma instabilidade elétrica irreversível. Não havia trauma, substância tóxica ou sinal de interferência externa.

Uma doença veloz entrara na vida de Lívia e consumira o tempo antes que alguém entendesse a extensão do perigo. Daniel não ligou na quinta.

Também não ligou na sexta. Rebeca escolheu o vestido branco que Lívia usara na apresentação da escola.

Natan cuidou da funerária, das flores e do padre. Quando perguntaram se aguardariam o pai, Rebeca olhou para o relógio.

— O enterro é sábado, às dez.

Choveu durante a cerimônia. Rebeca ficou diante do caixão branco fechado, uma mão apoiada na madeira, enquanto a água escorria pela gola do casaco preto.

Natan segurava o guarda-chuva atrás dela. O lugar de Daniel permaneceu vazio.

— Ela chamou por você — Rebeca disse para a cadeira sem ninguém.

O caixão começou a descer. Ela não se afastou até a primeira pá de terra bater na tampa.

Depois do cemitério, Natan a levou para casa. Havia travessas de comida sobre a bancada, flores no corredor e mensagens de gente que Rebeca mal conhecia.

Ela passou por tudo e subiu. O escritório de Daniel estava trancado.

Natan parou atrás dela.

— Quer que eu chame a advogada primeiro?

Rebeca foi buscar uma chave de fenda.

— Quero saber onde ele estava.

A lingueta da fechadura cedeu no terceiro golpe. Dentro, o cômodo cheirava a couro e ao perfume de Daniel.

Rebeca abriu gavetas, fotografou pastas e retirou o fundo falso de um arquivo lateral que ela própria ajudara a comprar. Um envelope pardo caiu sobre o tapete.

Na primeira página havia a fotografia do iate Magnólia, uma fatura de duzentos e dez mil reais e a data da internação de Lívia. No campo pagador, Rebeca leu devagar:

Lívia Valença Participações Ltda.

Ela virou a folha. A beneficiária da empresa era sua filha morta.

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