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"Minha Pior Rival" Capítulo 10

正文开头

Parte 10

Marina não respondeu.

Na manhã seguinte, também não abriu o armário.

A balança continuou lá dentro.

Ela pensou nela enquanto escovava os dentes.

Pensou enquanto tomava café.

Pensou quando se vestiu para o lançamento da Vértice.

Mas não abriu a porta.

Às onze, um carro enviado pela marca a esperava na frente do prédio.

Marina quase cancelou.

Tinha motivos suficientes.

O vídeo.

A proposta.

A noite inteira sem dormir.

Mas havia passado meses tentando chegar àquele dia.

Queria olhar para aquilo de frente.

O lançamento aconteceria num espaço de eventos na Vila Olímpia.

Na entrada, um painel enorme exibia o logotipo da Vértice.

Abaixo dele, uma fotografia de Marina.

Não era a antiga.

Era recente.

Marina parou.

Na imagem, usava uma camisa branca e olhava diretamente para a câmera.

Nenhuma foto de biquíni.

Nenhum antes e depois.

Nenhuma frase sobre voltar à antiga forma.

No lugar disso, quatro palavras:

TODAS AS SUAS VERSÕES.

Marina franziu a testa.

Henrique apareceu antes que ela pudesse perguntar.

"Você chegou."

"Isso mudou."

Ele sorriu.

"Mudou."

"Quando?"

"Nos últimos dias."

Henrique fez sinal para que ela o acompanhasse.

"Vem. Você vai gostar."

Marina não tinha certeza.

Na sala reservada à equipe, uma apresentação já estava projetada na parede.

A primeira página mostrava três fotografias de Marina.

Aos vinte e quatro.

Durante o período em que ganhara peso.

Agora.

TODAS AS SUAS VERSÕES.

Abaixo:

AME CADA UMA DELAS.

Marina ficou parada.

Henrique parecia animado.

"A gente percebeu que estava contando a história errada."

"Qual era a história certa?"

"Não é sobre voltar."

Ele passou para o próximo slide.

Mulheres de corpos diferentes.

Idades diferentes.

Tamanhos diferentes.

"É sobre evolução."

Marina não respondeu.

"Você não precisa ser quem era aos vinte e quatro. Essa é justamente a força da campanha."

Mais um slide.

AUTENTICIDADE.

DIVERSIDADE.

FORÇA FEMININA.

Marina leu tudo.

"Quando vocês decidiram isso?"

Henrique fechou o controle na mão.

"Depois do que aconteceu com a Lívia, a conversa cresceu muito."

Claro.

Marina sentiu alguma coisa gelada no estômago.

"Vocês estão acompanhando?"

"Todo mundo está."

"Ela teve uma crise num camarim."

"Eu sei."

"E isso virou pesquisa de mercado?"

Henrique perdeu parte do sorriso.

"Não é isso."

"Então o que é?"

"A conversa existe, Marina. Com ou sem a gente."

Ele mudou de slide.

Agora apareciam manchetes.

Comentários.

Posts.

Trechos de discussões sobre padrões de beleza, dietas e influenciadoras.

Uma fotografia de Marina estava no centro.

"Você está no meio de uma mudança cultural."

"Eu?"

"Você."

Henrique se aproximou.

"Cinco anos atrás, você representava uma coisa. Hoje pode representar outra."

Marina olhou para a tela.

"Qual?"

"Liberdade."

Ela quase riu.

Henrique continuou:

"Aceitação. Maturidade. Uma relação mais real com o corpo."

"Vocês queriam que eu emagrecesse três meses atrás."

"Eu sei."

"E agora querem que eu fale sobre aceitação."

"A campanha evoluiu."

Marina finalmente olhou para ele.

"Rápido."

Henrique respirou fundo.

"Eu entendo a ironia."

正文1

"Entende?"

"Entendo."

Ele puxou uma cadeira.

"Por isso a diretoria reviu tudo."

Colocou uma pasta sobre a mesa.

"Inclusive o cachê."

Marina não abriu.

"Quanto?"

Henrique disse.

Ela ficou em silêncio.

Era quase absurdo.

Mais do que a proposta da noite anterior.

Mais do que qualquer contrato que recebera nos últimos anos.

Dinheiro suficiente para escolher projetos durante muito tempo.

Talvez para nunca mais precisar aceitar uma campanha que não quisesse.

Henrique sorriu.

"Você virou um símbolo."

Marina olhou para ele.

"Símbolo de quê?"

"De uma mulher que passou por transformações e aprendeu a amar todas as versões de si mesma."

Marina ficou imóvel.

"Eu nunca disse isso."

"Não com essas palavras."

"Nem com outras."

Henrique tentou manter o tom leve.

"É conceito de campanha."

"Então vocês decidiram o que eu aprendi?"

"Marina..."

"Ontem eu descobri que passei anos tentando voltar para um corpo que nem existia."

Henrique não sabia disso.

Marina percebeu imediatamente.

A surpresa no rosto dele durou pouco.

Depois veio outra coisa.

Interesse.

Ela conhecia aquele olhar.

"Isso é muito forte", ele disse.

Marina sentiu o estômago virar.

"Não."

"O quê?"

"Não faz isso."

"Fazer o quê?"

"Não transforma isso em campanha."

"Eu só quis dizer que..."

"Eu sei exatamente o que você quis dizer."

Henrique ficou quieto.

Marina olhou novamente para a apresentação.

Aos vinte e quatro, eles vendiam sua cintura.

Agora queriam vender a cicatriz.

Antes, sua disciplina.

Agora, sua recuperação.

Antes, o medo de engordar precisava ficar escondido.

Agora, talvez pudesse aparecer em câmera lenta, com música bonita e uma frase sobre liberdade.

Até suas lágrimas tinham valor de mercado.

Desde que fossem bem iluminadas.

"Marina, ninguém está tentando explorar você."

Ela soltou uma risada curta.

"Henrique."

"Estou falando sério."

"Eu sei."

E era justamente isso que tornava tudo pior.

Uma hora depois, o espaço estava cheio.

Imprensa.

Influenciadores.

Executivos.

Convidados.

Câmeras.

Nos bastidores, uma produtora prendeu o transmissor na roupa de Marina.

Outra mulher entregou um cartão.

"Esse é o texto final."

Marina leu.

Falava de jornada.

Transformação.

Amor-próprio.

De aprender a amar cada versão de si mesma.

No último parágrafo:

"Hoje eu entendo que meu corpo sempre foi minha casa."

Marina quase perguntou quem tinha escrito.

Não importava.

"Dois minutos", avisou alguém.

Henrique apareceu.

"Está tudo bem?"

Marina olhou para ele.

"Não sei."

Ele sorriu como se fosse nervosismo.

"Vai ser lindo."

Marina ouviu o próprio nome.

Aplausos.

Entrou.

As luzes eram fortes.

No telão atrás dela:

TODAS AS SUAS VERSÕES.

Marina ficou no centro do palco.

Por alguns segundos, não disse nada.

O cartão estava em sua mão.

Na primeira fila, Henrique assentiu discretamente.

Marina aproximou o microfone.

"Quando a Vértice me procurou há alguns meses, a proposta era simples."

O sorriso de Henrique desapareceu.

"Eu precisava voltar."

Silêncio.

"Não disseram emagrecer."

Algumas pessoas riram, sem saber se deviam.

Marina continuou:

"Disseram 'retomar minha imagem'. Disseram 'adequação estética'. Disseram 'história de retorno'."

正文2

Henrique olhou para alguém ao lado do palco.

"Eu aceitei."

Essa parte era importante.

Marina respirou.

"Não quero fingir que fui obrigada."

O espaço ficou completamente quieto.

"Eu aceitei porque também queria voltar."

Ela olhou para a fotografia de vinte e quatro anos projetada atrás dela.

"Eu achava que aquela mulher tinha alguma coisa que eu tinha perdido."

Uma câmera se aproximou.

Marina percebeu.

Dessa vez, não mudou de ângulo.

"Então eu emagreci."

Engoliu em seco.

"E tudo voltou."

"Os seguidores."

"As campanhas."

"As pessoas dizendo que eu estava bonita de novo."

De novo.

Rafael.

Marina deixou a palavra passar.

"Eu achei que tinha conseguido."

Olhou para Henrique.

"Até descobrir que aquela mulher que eu estava tentando recuperar tinha medo de comer."

Ninguém se mexeu.

"Ela acordava e se pesava antes de fazer qualquer outra coisa."

Marina sentiu a voz ameaçar falhar.

Não deixou.

"E quanto mais vocês gostavam dela, mais medo ela sentia de mudar."

Henrique fez um gesto pequeno para a lateral do palco.

Marina viu.

Continuou.

"Antes vocês queriam vender o meu medo de engordar."

Um murmúrio atravessou a sala.

"Agora querem vender o fato de eu ter engordado."

Henrique se levantou.

Na lateral, alguém levou a mão ao headset.

Marina olhou para o telão.

TODAS AS SUAS VERSÕES.

"Agora isso se chama autenticidade."

A transmissão oficial caiu.

As luzes do palco continuaram acesas.

Um homem da produção fez sinal para que Marina encerrasse.

Ela tocou o ouvido.

Retirou o ponto eletrônico.

"Marina", alguém chamou.

Ela pegou o celular.

Abriu o Instagram.

Ao vivo.

Os primeiros espectadores começaram a entrar.

Cem.

Quinhentos.

Dois mil.

Marina apoiou o telefone no púlpito.

Henrique subiu um degrau.

"Não faz isso."

Ela olhou para ele.

"É meu celular."

"Você está sob contrato."

Marina quase sorriu.

"Não por muito tempo."

Voltou para a câmera.

Os números subiam.

"Eu não estou aqui para dizer que emagrecer é errado."

Pausa.

"Nem que engordar é certo."

Mais pessoas entraram.

"Eu não quero transformar outro corpo em resposta."

Marina pensou em Gabriel.

Uma de vocês precisa perder.

"Eu passei anos achando que uma versão minha precisava vencer a outra."

Sua voz ficou mais baixa.

"Não precisa."

O chat corria rápido demais para ler.

"Também não vou dizer para ninguém amar o próprio corpo todos os dias."

Ela respirou.

"Eu nem sei fazer isso."

Aquela frase saiu mais fácil do que todas as outras.

"Tem dia que eu gosto."

"Tem dia que não."

"Tem dia que eu ainda olho no espelho e a primeira coisa que penso é no que eu deveria mudar."

Marina olhou diretamente para a câmera.

"Mas eu não quero mais ganhar dinheiro ensinando outras mulheres a ter medo."

Ninguém tentou interrompê-la dessa vez.

"Nem quero ganhar dinheiro fingindo que já resolvi tudo."

Ela olhou para a campanha atrás de si.

"Meu corpo não é uma campanha."

Desligou.

A Vértice encerrou o contrato antes das oito da noite.

正文3

O comunicado chegou por e-mail.

Curto.

Formal.

"Quebra de obrigações contratuais."

"Conduta incompatível."

"Encerramento imediato."

Marina leu duas vezes.

Depois viu o valor que deixaria de receber.

Precisou sentar.

Não havia sensação de liberdade.

Não imediatamente.

Havia medo.

Muito.

Às nove, seu nome estava entre os assuntos mais comentados.

Às dez, havia vídeos sobre ela em todas as plataformas.

Às onze, Marina cometeu o erro de abrir os comentários.

"Ícone."

"Finalmente alguém falou."

"Ela acabou com a marca ao vivo KKKKK."

Mas havia outros.

"Que ingrata."

"Recebeu dinheiro deles e agora quer posar de vítima."

"Quando era magra vendia dieta."

"Quando engordou vendeu autoestima."

"Agora emagreceu e vende trauma."

"Essa mulher transforma tudo em conteúdo."

Marina parou naquele.

Leu outra vez.

Talvez porque doesse.

Talvez porque uma parte dela achasse que havia verdade ali.

Continuou descendo.

"Body positivity só quando convém."

"Ela está reclamando porque voltou a ficar bonita?"

"Queria ver se recusava esse dinheiro quando estava esquecida."

Marina começou a digitar.

"Vocês não entenderam..."

Apagou.

Tentou outra vez.

"Eu nunca disse que..."

Apagou.

Abriu os stories.

Poderia explicar.

Fazer quinze minutos.

Mostrar o contrato.

Contar sobre o vídeo.

Contar sobre Rafael.

Contar sobre a balança.

Contar tudo.

O dedo ficou sobre o botão.

Marina fechou o aplicativo.

Colocou o celular virado para baixo.

Cinco minutos depois, ele vibrou.

Gabriel.

"Você está bem?"

Marina ficou olhando.

Poderia dizer sim.

Era o que dizia sempre.

Estou ótima.

Tudo certo.

Melhor impossível.

Digitou:

"Não."

Enviou.

Gabriel visualizou.

Não respondeu imediatamente.

Marina respirou fundo.

Depois escreveu:

"Mas vou ficar."

A resposta dele veio pouco depois.

"Tá."

Só isso.

Marina sorriu.

Não porque estivesse bem.

Não estava.

Tinha acabado de perder o maior contrato dos últimos anos.

Metade da internet a chamava de corajosa.

A outra metade, de hipócrita.

Amanhã talvez nenhuma marca ligasse.

Talvez ligassem mais.

Ela já não sabia qual possibilidade assustava mais.

Mas naquela noite não publicou explicação.

Não pediu desculpas.

Não tentou convencer todo mundo de que era uma boa pessoa.

Foi dormir.

Quando acordou, o celular tinha centenas de notificações.

Marina não abriu nenhuma.

Fez café.

Comeu pão.

Pensou na balança dentro do armário.

Não abriu a porta.

Só depois das nove resolveu olhar os e-mails.

Havia jornalistas.

Podcasts.

Programas de televisão.

Marcas.

Agências.

Propostas.

Marina foi passando sem abrir.

Então parou.

Um e-mail não tinha logotipo.

Não tinha nome de empresa.

Não tinha assunto profissional.

Só uma frase.

Obrigada por dizer aquilo.

Marina abriu.

A mensagem começava:

"Oi, Marina.

Eu tenho dezessete anos."

Ela parou.

Dezessete.

A mesma idade que Lívia tinha quando começou a segui-la.

Marina continuou lendo.

"Eu não sei se você vai ver isso, mas ontem eu estava assistindo à sua live..."

Os olhos de Marina se encheram.

Dessa vez, ela não desviou.

E continuou.

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