"Minha Pior Rival" Capítulo 9
Parte 9
"Você viu?", perguntou.
Camila demorou a responder.
"Vi."
"Quando?"
"Naquela época."
Marina levantou os olhos.
"Por que eu não lembro?"
"Porque você apagou."
"Mas você guardou."
"Guardei."
Marina olhou novamente para a tela.
A mulher na miniatura tinha vinte e quatro anos.
Era magra.
Estava maquiada.
O cabelo caía em ondas perfeitas sobre os ombros.
Se alguém congelasse aquela imagem e publicasse na internet, os comentários seriam os mesmos de sempre.
Perfeita.
Meu corpo dos sonhos.
Rainha.
Marina apertou o botão.
O vídeo começou.
Durante os primeiros segundos, nada aconteceu.
A Marina de vinte e quatro anos estava sentada no chão de um camarim.
Ainda usava a roupa do ensaio.
Um top branco.
Calça de cintura baixa.
A barriga completamente lisa.
Ela olhava para algum ponto fora da câmera.
Então passou as duas mãos pelo rosto.
"Eu não sei mais comer."
Marina parou de respirar.
A voz no vídeo estava baixa.
Rouca.
"Eu não sei como as pessoas fazem isso."
A jovem Marina soltou uma risada curta e limpou uma lágrima sem cuidado, borrando a maquiagem.
"Tipo... sentir fome e comer."
Ela ficou em silêncio.
"Eu sinto fome e começo a fazer conta."
A Marina de hoje sentou devagar.
Camila permaneceu em pé do outro lado da mesa.
No vídeo, Marina respirou fundo.
"Se eu tenho foto na sexta, eu começo a ficar nervosa na quarta."
Ela olhou para a própria barriga.
"Às vezes na terça."
Uma lágrima caiu.
"Eu acordo e a primeira coisa que faço é me pesar."
Marina fechou os olhos.
Não adiantou.
A voz continuou.
"Se o número baixou, eu fico feliz."
Uma pausa.
"Se subiu, meu dia acabou."
Marina abriu os olhos.
Naquela manhã, fizera exatamente aquilo.
A jovem na tela continuava falando.
"Eu sei que é idiota."
Não era.
"Eu sei que ninguém vai perceber meio quilo."
Marina apertou as mãos.
"Mas eu percebo."
A garota riu outra vez.
Dessa vez, começou a chorar de verdade.
"Eu percebo tudo."
Marina levou a mão à boca.
Não lembrava de ter gravado aquilo.
Mas reconhecia cada pensamento.
"Quanto mais gente me segue, pior fica."
A jovem Marina olhou diretamente para a câmera.
"Porque agora tem muita gente esperando que eu continue assim."
Ela apontou para o próprio corpo.
"Se eu mudar, acabou."
Marina sentiu uma lágrima escorrer.
Não limpou.
"Às vezes eu penso que ninguém gosta de mim."
A garota parou.
Corrigiu:
"Gostam disso."
Outra vez, apontou para o corpo.
"Gostam porque eu sou magra. Porque eu tenho disciplina. Porque eu nunca falho."
A voz ficou menor.
"Mas eu falho o tempo inteiro."
Marina já estava chorando.
Sem perceber quando começara.
Na tela, a jovem puxou os joelhos contra o peito.
Parecia tão pequena.
Não fisicamente.
Pequena de um jeito que nenhuma fotografia mostrava.
"Hoje eu comi antes da foto."
Ela fechou os olhos.
"Uma banana."
A palavra quase não saiu.
"E eu chorei no banheiro."
Marina sentiu alguma coisa quebrar.
Uma banana.
A mulher que milhões de pessoas tinham invejado chorava porque tinha comido uma banana.
A mulher que Marina passara anos invejando também.
"Eu estou cansada."
A jovem limpou o nariz com a mão.
"Eu estou tão cansada."
Depois veio um silêncio longo.
Ela olhou para a câmera.
Sem pose.
Sem sorriso.
Sem frase de efeito.
Só uma garota de vinte e quatro anos assustada.
"Eu só queria parar de ter medo de engordar."
Marina parou o vídeo.
Não conseguiu continuar.
O apartamento ficou em silêncio.
Camila não se aproximou.
Não tentou abraçá-la.
Marina agradeceu por isso.
Ela precisava olhar para aquela mulher.
Voltou alguns segundos.
Apertou play.
"Eu só queria parar de ter medo de engordar."
Pausou.
Voltou.
"Eu só queria parar de ter medo de engordar."
Na terceira vez, não conseguiu.
Colocou o celular sobre a mesa.
"Meu Deus."
Camila chorava em silêncio.
Marina se levantou.
Andou até a janela.
São Paulo continuava lá fora.
Carros.
Prédios.
Gente atravessando a rua.
Cinco anos tinham passado.
Durante cinco anos, Marina olhara para fotografias daquela mulher e pensara:
Eu quero voltar.
Quero aquele rosto.
Aquela cintura.
Aquela vida.
Agora tinha ouvido a própria voz.
A mulher da fotografia não queria ficar.
Ela queria sair.
"Eu não lembrava", Marina disse.
"Eu sei."
"Eu não lembrava de nada disso."
Camila não respondeu.
Marina abraçou o próprio corpo.
Então começou a lembrar.
Não do vídeo.
Das últimas semanas.
A balança ao lado do armário.
Todas as manhãs.
Antes do café.
Antes do banho.
Antes de qualquer coisa.
O bolo de aniversário de Camila.
"Eu realmente não quero."
Mentira.
O chocolate na geladeira.
A água que pegara no lugar dele.
As fotos antes de publicar.
O rosto.
A cintura.
O braço.
As refeições diminuindo quando havia evento no dia seguinte.
O alívio quando o número baixava.
O medo quando não baixava.
Marina encostou a testa no vidro.
"Eu fiz tudo de novo."
Camila se aproximou um pouco.
"Marina..."
"Eu fiz tudo de novo."
Dessa vez, a voz quebrou.
"Eu achei que estava melhor."
Ela virou.
"Eu achei que estava vencendo."
Camila não tentou contradizer.
Marina agradeceu por isso também.
Porque tinha vencido.
Essa era a parte mais cruel.
Ela tinha emagrecido.
As roupas tinham voltado a servir.
Os seguidores tinham voltado.
As marcas tinham voltado.
Rafael tinha voltado.
Tudo o que Marina imaginara que aconteceria tinha acontecido.
Ela conseguira.
Tinha se tornado novamente a mulher que mais invejava no mundo.
E estava começando a sentir exatamente o que aquela mulher sentia.
Medo.
Marina olhou para o celular.
Na tela pausada, seu rosto de vinte e quatro anos estava molhado de lágrimas.
"Eu consegui voltar."
Camila fechou os olhos.
Marina começou a chorar outra vez.
"Eu consegui."
A frase não parecia vitória.
Gabriel estava saindo de uma produtora em Pinheiros quando recebeu a mensagem.
"Você está ocupado?"
Ele respondeu alguns minutos depois.
"Agora não."
Marina ficou olhando para a resposta.
Depois digitou:
"Posso te encontrar?"
Dessa vez, ele respondeu imediatamente.
"Pode."
Gabriel escolheu um café pequeno, quase vazio.
Quando Marina chegou, ele já estava lá.
Não perguntou por que seus olhos estavam inchados.
Não perguntou se ela tinha chorado.
Só empurrou um copo de água na direção dela.
Marina sentou.
"Eu descobri uma coisa."
Gabriel esperou.
"Sobre mim."
Ele continuou esperando.
Marina quase riu.
"Você nunca facilita."
"Estou tentando não atrapalhar."
Ela olhou para ele.
Os olhos cinza-esverdeados estavam tranquilos.
Marina pensou na primeira fotografia.
Na pergunta.
"Foi isso que você viu primeiro?"
Ela baixou os olhos.
"Posso te perguntar uma coisa?"
"Pode."
"Mas responde de verdade."
"Normalmente é o plano."
Marina respirou fundo.
"Você me acharia mais bonita se eu fosse como antes?"
Gabriel ficou em silêncio.
Marina odiou aqueles segundos.
"É uma pergunta simples."
"Não é."
"É sim."
"Não."
Ela sentiu a defesa subir.
"Você viu minhas fotos antigas."
"Vi."
"Então?"
Gabriel apoiou os braços na mesa.
"Você percebe que sempre me faz perguntas em que uma de vocês precisa perder?"
Marina ficou imóvel.
"O quê?"
"Você de agora ou você de antes."
Ele sustentou o olhar dela.
"Uma precisa ser mais bonita. Uma precisa estar certa. Uma precisa vencer."
Marina não respondeu.
"Por quê?"
"Porque não dá para as duas serem iguais."
"Eu não disse que são."
"Então qual você prefere?"
Gabriel respirou fundo.
Não parecia irritado.
Só cuidadoso.
"Eu não estou competindo com nenhuma delas."
Marina sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
"Não foi isso que eu perguntei."
"Eu sei."
"Então responde."
"Essa é a minha resposta."
Ela desviou os olhos.
Gabriel continuou:
"Eu conheci você agora."
Marina olhou para ele.
"Não conheci a mulher daquela foto. Não sei o que ela pensava quando chegava em casa. Não sei do que ela tinha medo. Não sei se estava feliz."
Marina sentiu os olhos arderem.
Agora sabia.
"Então eu não vou colocar vocês duas numa disputa só porque todo mundo colocou."
Ela ficou em silêncio.
Por muito tempo.
"Ela não estava feliz", disse finalmente.
Gabriel não perguntou quem.
"Eu descobri hoje."
A voz de Marina falhou.
"Ela estava apavorada."
Gabriel ficou quieto.
Marina respirou.
"Eu passei anos odiando ela."
"Por quê?"
"Porque ela tinha tudo que eu perdi."
Gabriel olhou para ela.
"E agora?"
Marina pensou no vídeo.
Na banana.
Na balança.
Na garota sentada no chão de um camarim.
"Agora..."
A voz quase desapareceu.
"Agora eu sinto pena dela."
Gabriel balançou a cabeça devagar.
"Talvez seja um começo."
Marina olhou para ele.
Não havia promessa.
Não havia elogio.
Ele não disse que ela era mais bonita agora.
Não disse que o corpo não importava.
Não disse que deveria se amar.
Só deixou que as duas Marinas existissem sem obrigar nenhuma a derrotar a outra.
Pela primeira vez, Marina percebeu como aquilo era raro.
Chegou em casa depois das dez.
Tirou os brincos.
A bolsa.
Os sapatos.
Foi ao banheiro.
A balança estava no mesmo lugar.
Marina parou diante dela.
Por hábito, tirou também as meias.
Colocou um pé perto da borda.
Parou.
Ficou assim por alguns segundos.
O número de ontem veio à cabeça.
Depois o de anteontem.
Ela sabia todos.
Marina fechou os olhos.
"Eu só queria parar de ter medo de engordar."
Abriu.
Não subiu.
Pegou a balança.
Era mais pesada do que parecia.
Levou até o quarto.
Abriu a porta do armário.
Colocou no fundo.
Marina não a quebrou.
Não jogou fora.
Não chorou.
Apenas fechou a porta.
O celular vibrou.
Ela quase ignorou.
Vibrou novamente.
Marina pegou.
Henrique.
Havia um documento anexado.
"Parabéns. A diretoria aprovou hoje."
Marina abriu.
Era a proposta definitiva da Vértice.
O contrato que três anos antes tinham encerrado porque sua imagem já não servia.
O contrato pelo qual ela passara semanas tentando mudar o próprio corpo.
Agora estava oficialmente de volta.
Marina desceu até o valor.
Parou.
Era maior do que o primeiro.
Maior até do que o contrato que tivera aos vinte e quatro anos.
Outra mensagem de Henrique apareceu.
"Conseguimos melhorar bastante a proposta."
E depois:
"Bem-vinda de volta, Marina."
Marina ficou olhando para aquelas palavras.
Atrás da porta fechada do armário estava a balança.
Na mesa estava o celular antigo com o vídeo da mulher que todos queriam de volta.
E, pela primeira vez, Marina entendeu exatamente para onde estavam pedindo que ela voltasse.
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