"Minha Pior Rival" Capítulo 8
Parte 8
Marina ficou olhando para Lívia.
"Eu não lembro."
"Eu imaginei."
"Você ainda tem?"
Lívia hesitou.
"Tenho."
Marina sentiu vontade de pedir para ver.
Ali.
Naquele instante.
Mas alguma coisa a impediu.
Talvez medo.
Talvez porque, pela primeira vez, ela não tivesse certeza se queria encontrar a mulher de vinte e quatro anos que passara os últimos meses tentando recuperar.
"Não agora", disse.
Lívia assentiu.
Marina saiu do camarim com uma pergunta que não conseguiu abandonar pelo resto do dia.
Por que eu estava chorando?
Naquela noite, abriu o armário onde guardava caixas que não tocava havia anos.
Cabos.
Cartões de memória.
Dois notebooks antigos.
Três HDs externos.
Começou pelo primeiro.
Fotos de viagens.
Campanhas.
Vídeos.
Arquivos com nomes que já não significavam nada.
No segundo, encontrou pastas de 2020 e 2021.
Marina abriu uma delas.
Ali estava ela.
Aos vinte e quatro.
Em centenas de fotografias.
Marina clicou na primeira.
Depois na segunda.
Na terceira.
Tudo parecia familiar demais.
Cintura fina.
Pernas longas.
Pele perfeita.
O mesmo corpo que aparecia nos comentários.
O mesmo que a Vértice queria de volta.
O mesmo que Marina tentava reconstruir todas as manhãs sobre uma balança.
Mas eram arquivos finais.
Editados.
Marina começou a procurar os originais.
Não encontrou.
À uma e vinte da manhã, ligou para Camila.
Ela atendeu no quinto toque.
"Alguém morreu?"
"Você ainda tem meus arquivos antigos?"
Silêncio.
Camila acordou imediatamente.
"Que arquivos?"
"Não faz isso."
"Marina, é uma e vinte."
"Os originais."
Outro silêncio.
Marina sentou no chão.
"Você tem?"
"Tenho."
A resposta foi tão simples que a irritou.
"Por quê?"
"Porque eu nunca apago material de trabalho."
"Eu pedi para você apagar."
"Eu sei."
"Então por que não apagou?"
"Porque você me pedia para apagar tudo quando estava mal e depois perguntava onde estavam os arquivos quando precisava de alguma coisa."
Marina fechou os olhos.
Aquilo parecia verdade.
"Quero ver."
"Agora?"
"Sim."
"Marina..."
"Camila."
Uma pausa.
"Eu vou levar amanhã."
"Hoje."
"É madrugada."
"Então de manhã."
Camila respirou fundo.
"Tá."
Às nove e quinze, Camila apareceu no apartamento com um notebook e dois HDs.
Não trouxe café.
Marina percebeu que aquilo era sério.
Camila colocou tudo sobre a mesa.
"Antes de abrir..."
"Abre."
"Eu só quero que você entenda que..."
"Camila."
Ela parou.
Conectou o primeiro HD.
Pastas apareceram na tela.
Marina reconheceu nomes de campanhas que não via havia anos.
Uma delas fez seu estômago apertar.
VERÃO — ORIGINAIS.
"Essa."
Camila abriu.
Centenas de imagens preencheram a tela.
Marina clicou numa fotografia.
E ficou em silêncio.
Era ela.
O mesmo biquíni.
A mesma praia.
O mesmo dia.
A mesma foto que Lívia usava na tela do celular.
Mas não era a mesma mulher.
Marina aproximou a imagem.
Aos vinte e quatro anos, já era muito magra.
Mais magra do que estava agora.
A cintura era estreita.
As pernas, finas.
As clavículas apareciam.
Mas sua cintura não fazia aquela curva impossível da fotografia publicada.
A pele tinha textura.
Havia uma dobra pequena quando ela inclinava o corpo.
As coxas eram mais largas.
Os olhos, menores.
O rosto não terminava num queixo tão fino.
"Coloca a publicada do lado."
Camila não se mexeu.
"Camila."
Ela abriu outra pasta.
FINAL.
As duas imagens ficaram lado a lado.
Marina sentiu o ar desaparecer dos pulmões.
À esquerda, uma mulher magra.
À direita, uma mulher impossível.
A cintura tinha sido reduzida.
As pernas, alongadas.
O rosto, afinado.
Os olhos estavam maiores.
A pele não tinha poros.
Nem marcas.
Nem textura.
Até o espaço entre o braço e a cintura havia sido alterado para fazer o corpo parecer menor.
Marina aproximou mais.
O fundo estava discretamente deformado.
Ela lembrou da fotografia que havia visto semanas antes.
Da linha estranha perto da cintura.
Naquela noite, ignorara.
Agora sabia por quê.
"Meu Deus."
Camila não disse nada.
Marina abriu outra foto.
Original.
Final.
Outra.
Original.
Final.
Outra.
Original.
Final.
O padrão se repetia.
Em uma fotografia de vestido preto, as pernas tinham sido alongadas.
Em outra, seu braço estava mais fino.
Em uma campanha de academia, até os músculos do abdômen tinham sido realçados.
Marina começou a rir.
Camila olhou para ela, preocupada.
"Marina?"
Ela continuou rindo.
Não porque fosse engraçado.
Porque alguma coisa dentro dela estava cedendo.
"Eu não era assim."
Camila ficou em silêncio.
Marina apontou para a fotografia publicada.
"Eu nunca fui assim."
A frase saiu quase como uma pergunta.
Camila respondeu:
"Não."
Marina olhou outra vez.
Durante anos, sentira vergonha por ter perdido aquele corpo.
Nos últimos meses, acordara cedo, recusara comida, pesara cada pequena mudança, tentando voltar a uma imagem.
Mas aquela imagem não era uma lembrança.
Era um arquivo editado.
Marina sentiu os olhos arderem.
"Eu não perdi."
Camila não entendeu.
"O quê?"
Marina tocou a tela.
"Isso."
A mulher perfeita continuava sorrindo.
"Eu passei anos achando que perdi esse corpo."
Sua voz falhou.
"Mas ele nunca existiu."
E, por um instante, Marina sentiu alívio.
Puro.
Quase físico.
Como se alguém tivesse retirado um peso de seu peito.
Ela nunca tinha fracassado em voltar a ser aquela mulher.
Ninguém conseguiria.
Nem ela.
Então uma pergunta apareceu.
Marina olhou para Camila.
"Quem fez isso?"
Camila não respondeu.
O alívio durou menos de cinco segundos.
"Foi a agência?"
Silêncio.
"A marca?"
Camila abaixou os olhos.
"Rafael?"
"Marina..."
"Quem?"
Camila puxou o notebook para perto.
Abriu as informações do arquivo.
Depois uma pasta antiga de edição.
Havia versões salvas.
Datas.
Horários.
Registros.
E um nome de usuário.
marinavalente.
Marina não entendeu.
"Isso é o quê?"
Camila continuou em silêncio.
"Camila."
"Era sua conta."
Marina olhou para ela.
"Não."
"Era."
"Eu não sabia editar assim."
"Sabia."
"Não sabia."
"Você aprendeu."
Marina balançou a cabeça.
"Não."
Camila abriu outro histórico.
Depois outro.
Todos tinham o mesmo nome.
marinavalente.
Marina sentiu o rosto esquentar.
E então lembrou.
Não de uma vez.
Em pedaços.
Madrugadas com o notebook no colo.
Aplicativos.
Tutoriais.
Uma cintura reduzida só mais um pouco.
Uma perna alongada.
O rosto afinado.
"Só um pouquinho."
Era isso que ela dizia.
Ninguém vai perceber.
Marina se levantou da cadeira.
"Eu fiz isso."
Camila não respondeu.
"Eu fiz."
"Fez."
Marina levou a mão à boca.
Lembrou de uma noite em um hotel no Rio.
Rafael dormindo.
Ela no banheiro, editando uma foto às duas da manhã porque não suportava o tamanho da própria coxa.
Tinha diminuído.
Publicado.
E depois passado vinte minutos lendo comentários de mulheres dizendo:
"Meu sonho ter seu corpo."
Marina fechou os olhos.
Outra lembrança.
Uma campanha.
Ela já estava tão magra que Camila tinha perguntado se estava comendo direito.
Mesmo assim, Marina afinara a cintura na fotografia.
Depois olhara para a imagem editada e pensara:
Ainda estou larga.
"Eu achava que estava gorda."
Camila abaixou a cabeça.
"Eu sei."
Marina virou para ela.
"Você sabia?"
A pergunta mudou tudo.
Camila não respondeu rápido o suficiente.
Marina sentiu o alívio desaparecer.
"Você sabia."
"Eu sabia que você não estava bem."
"E não fez nada?"
"Eu tentei."
"Quando?"
"Várias vezes."
"Quando?"
Camila levantou.
"Eu perguntava se você tinha comido. Tentava tirar o celular de você. Eu dizia para você descansar."
"Isso não é tentar."
"Eu tinha vinte e cinco anos, Marina!"
"E eu tinha vinte e quatro!"
A voz ecoou pela sala.
As duas ficaram em silêncio.
Camila respirou fundo.
"Eu fiquei com medo."
"De quê?"
"De você."
Marina franziu a testa.
"De perder você. De você me mandar embora."
"Então preferiu assistir?"
"Não."
"Foi o que fez."
Camila começou a chorar.
"Você estava ganhando dinheiro. Muito dinheiro."
Marina ficou imóvel.
"As marcas chegavam toda semana. Os seguidores subiam todos os dias. A gente tinha uma equipe que dependia daquilo."
"Então valia a pena?"
"Não."
"Na época pareceu que valia."
Camila enxugou o rosto.
"Na época parecia que, se eu fosse a pessoa que dissesse 'para', eu seria a única pessoa tentando destruir tudo que você tinha construído."
Marina olhou para ela.
"Você era minha melhor amiga."
"Eu sei."
"Era você quem deveria ter dito."
"Eu sei."
"Mesmo que eu te odiasse."
"Eu sei."
"Mesmo que eu te mandasse embora."
"Eu sei."
Camila chorava em silêncio agora.
Marina queria perdoá-la.
Uma parte dela queria abraçar Camila e dizer que eram jovens, que ninguém sabia o que estava fazendo, que a culpa era do mercado, das marcas, de Rafael, da internet.
Mas outra parte não conseguia.
Ainda não.
"Eu preciso ficar sozinha."
Camila assentiu.
Começou a guardar o notebook.
"Deixa."
"Os arquivos?"
"Deixa aqui."
Camila soltou o cabo.
Foi até a porta.
Parou antes de abrir.
"Tem uma coisa que eu nunca te contei."
Marina estava cansada demais.
"Hoje não."
"Precisa ser hoje."
Camila ficou parada.
Depois abriu a bolsa.
Tirou um celular antigo.
A tela tinha uma rachadura no canto.
"Eu guardei isso também."
Marina reconheceu o aparelho.
"Esse era meu."
"Era."
Camila ligou.
Demorou alguns segundos.
Abriu uma pasta de vídeos.
Marina sentiu um arrepio antes mesmo de ver.
"Tem mais uma coisa."
Camila colocou o celular sobre a mesa.
Na tela havia a miniatura de um vídeo.
Uma data de cinco anos atrás.
Marina aos vinte e quatro.
Maquiagem perfeita.
Cabelo perfeito.
Rosto fino.
A mesma mulher que todo mundo queria de volta.
Mas naquela imagem ela não estava sorrindo.
Os olhos estavam vermelhos.
O rosto molhado.
Marina olhou para Camila.
"É esse?"
Camila assentiu.
Marina lembrou imediatamente das palavras de Lívia.
"Você estava chorando."
Seu dedo parou sobre o botão de reprodução.
E, pela primeira vez desde que tudo começara, Marina teve medo de descobrir o que a mulher perfeita tinha a dizer.
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