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"Minha Pior Rival" Capítulo 7

正文开头

Parte 7

Aquele sorriso durou mais do que Marina gostaria de admitir.

Nos dias seguintes, a campanha da Vértice se aproximou, as roupas ficaram mais folgadas e o telefone tocou com uma frequência que ela quase tinha esquecido como era.

Marina continuava subindo na balança todas as manhãs.

Quando o número diminuía, o dia começava bem.

Quando não diminuía, ela dizia a si mesma que não se importava.

Mas se importava.

Ainda assim, por fora, tudo parecia estar finalmente entrando no lugar.

As marcas voltavam.

Os convites aumentavam.

E, onde quer que aparecesse, Marina ouvia a mesma frase:

"Você está voltando."

Ela começava a acreditar.

Na quinta-feira, chegou a um evento de uma marca de cosméticos na Avenida Paulista pouco depois das três.

O lançamento só começaria às seis, mas Marina gravaria alguns vídeos antes da abertura.

O corredor dos camarins estava cheio de araras, caixas, maquiadores e assessores andando depressa demais.

Marina acabara de sair da maquiagem quando ouviu um barulho atrás de uma porta.

Parecia alguma coisa caindo.

Depois, silêncio.

Ela bateu.

"Tem alguém aí?"

Nenhuma resposta.

Marina abriu a porta devagar.

Lívia estava sentada no chão.

Por um instante, Marina quase não a reconheceu.

Não havia vestido curto.

Não havia salto.

Não havia cabelo perfeitamente finalizado.

Lívia usava um moletom cinza enorme, com as mangas cobrindo metade das mãos. Os cachos estavam presos no alto da cabeça e o rosto estava completamente sem maquiagem.

Parecia menor.

Mais nova.

Sobre uma mesa baixa havia uma embalagem aberta de chocolate.

Um quadradinho tinha uma mordida.

Lívia limpou o rosto depressa.

"Fecha a porta."

Marina fechou.

"Você está bem?"

"Estou."

Marina ficou olhando para ela.

Lívia soltou uma risada sem humor.

"Tá. Pergunta idiota."

"Eu não disse nada."

"Mas pensou."

Marina se aproximou.

"Quer que eu chame alguém?"

"Não."

"Água?"

"Não."

"Quer que eu vá embora?"

Lívia demorou.

"Não."

Marina sentou na cadeira em frente.

Não perguntou sobre o celular.

Não perguntou sobre a foto.

Não perguntou por que uma garota que parecia ter tudo estava chorando sozinha num camarim três horas antes de aparecer diante de centenas de câmeras.

Lívia olhou para o chocolate.

"Eu não devia."

Marina seguiu o olhar.

"O quê?"

"Ter comido."

Foi tão baixo que Marina quase não ouviu.

"Você comeu um pedaço de chocolate."

"Eu sei."

"Então?"

Lívia apertou os olhos.

Uma lágrima caiu.

"Eu não devia."

Marina sentiu alguma coisa se mover dentro do peito.

Conhecia aquele tom.

Não era tristeza por chocolate.

Era medo.

"Não aconteceu nada", Marina disse.

"Você não sabe."

"Sei que um pedaço de chocolate não..."

"Eu não devia."

Lívia puxou as mangas sobre as mãos.

"Hoje tem foto. Tem vídeo. Tem live. Amanhã tenho prova de roupa."

"Você está com fome?"

Silêncio.

"Lívia."

"Estou."

Marina olhou para a embalagem.

"Então come."

Lívia soltou uma risada amarga.

"Claro."

"Estou falando sério."

"Eu também."

Ela levantou o rosto.

Os olhos estavam vermelhos.

正文1

"Sem desculpas."

Marina congelou.

Duas palavras.

Só duas.

Mas não pertenciam àquela sala.

Pertenciam a outro tempo.

Outro corpo.

Outra Marina.

Lívia repetiu:

"Sem desculpas."

Marina sentiu a garganta secar.

"Por que você falou isso?"

A expressão de Lívia mudou.

Algo entre vergonha e raiva.

"Você não lembra?"

Marina lembrava.

Claro que lembrava.

"Disciplina não tem desculpas."

A frase tinha estampado camiseta.

Legenda.

Vídeo.

Campanha.

Milhares de pessoas tinham repetido.

Marina também.

"Eu tinha dezessete anos", Lívia disse.

Marina não se mexeu.

"Você dizia que fome era só falta de disciplina."

"Lívia..."

"Eu via tudo."

"Eu sei."

"Não. Você não sabe."

A voz da garota tremeu.

"Eu colocava despertador para treinar antes da escola porque você dizia que quem queria de verdade dava um jeito."

Marina baixou os olhos.

"Eu parei de comer pão."

"Lívia..."

"Fiquei meses sem comer sobremesa."

"Você tinha dezessete anos."

"Eu sei."

"Você era uma menina."

"Eu sei."

A resposta veio mais alta.

Marina se calou.

Lívia limpou as lágrimas com a manga.

"Quando eu sentia fome, eu repetia suas frases."

Marina sentiu vontade de dizer que não era culpa dela.

A defesa veio rápida.

Automática.

"Era conteúdo de internet."

Lívia olhou para ela.

Marina se arrependeu antes mesmo da resposta.

"Então por que você ensinava isso?"

Silêncio.

Não havia frase pronta.

Nenhuma resposta profissional.

Nenhuma maneira inteligente de virar aquela pergunta.

Marina pensou em Rafael.

"Aquilo era conteúdo."

"A equipe fazia reunião."

"A gente testava frases."

"Porque funcionava."

Tudo verdadeiro.

Nada suficiente.

"Eu não sabia o que estava fazendo comigo mesma", Marina disse.

Lívia ficou quieta.

"Eu achava que estava no controle."

"Mas você dizia como se soubesse."

Marina respirou fundo.

"Eu sei."

"Não, você não..."

"Eu sei."

Dessa vez, Marina não tentou se defender.

"Você tem razão."

Lívia parou.

Parecia não esperar aquilo.

Marina olhou para o chocolate.

"Eu dizia como se soubesse."

Sua voz saiu mais baixa.

"Eu não sabia."

Uma batida forte interrompeu as duas.

A porta se abriu.

Sérgio entrou com o celular numa mão e folhas impressas na outra.

"Finalmente."

Ele olhou para Lívia.

"Por que você ainda não está pronta?"

Lívia limpou o rosto.

"Eu..."

"Maquiagem está esperando há vinte minutos."

Sérgio percebeu Marina.

"Oi, Marina."

"Oi."

Ele voltou para Lívia.

"A live foi antecipada. Cinco e quinze."

"Hoje?"

"Claro que hoje."

Lívia olhou para o relógio.

"Eu achei que era só o vídeo."

"Alteraram."

Sérgio colocou as folhas sobre a mesa.

"Esse é o texto. A marca aprovou agora."

Lívia pegou.

Marina viu os olhos dela descerem pela página.

Pararem.

O rosto perdeu a cor.

"Não."

Sérgio já digitava no celular.

"O quê?"

"Essa frase."

"Qual?"

Lívia apontou.

Sérgio olhou.

"É ótima."

Marina se levantou.

"Deixa eu ver."

Lívia entregou o papel.

Marina leu.

No meio do roteiro, em letras maiúsculas:

DISCIPLINA NÃO TEM DESCULPAS.

Por alguns segundos, Marina ouviu a própria voz de cinco anos atrás.

Animada.

正文2

Segura.

Convincente.

"Você quer que ela fale isso?", perguntou.

Sérgio deu de ombros.

"É uma referência."

"A quê?"

"A você."

Ele sorriu.

"A marca adorou essa conexão entre gerações. Marina original, nova Marina. Esse tipo de coisa engaja demais."

Lívia ficou imóvel.

Marina olhou para ela.

"Você quer fazer?"

Lívia abriu a boca.

Sérgio respondeu primeiro.

"Ela tem contrato."

Marina não tirou os olhos da garota.

"Eu perguntei para ela."

Lívia apertou as mãos.

"Eu não sei."

Sérgio suspirou.

"Você sabe, sim. A gente já discutiu isso. É trabalho."

Marina olhou novamente para a frase.

Então rasgou a folha ao meio.

Sérgio ficou imóvel.

Marina rasgou de novo.

E mais uma vez.

Os pedaços caíram sobre a mesa.

"O que você está fazendo?"

"Hoje não vai ter live."

Sérgio soltou uma risada incrédula.

"Você enlouqueceu?"

"Talvez."

"Você não tem nada a ver com o contrato dela."

"Eu tenho a ver com essa frase."

"Marina, isso é publicidade. Ninguém está escrevendo uma tese."

"Eu sei exatamente o que é."

"Então sabe que não pode chegar aqui e decidir por ela."

Marina parou.

Olhou para Sérgio.

Depois para Lívia.

"Exatamente."

Sérgio franziu a testa.

Marina deu um passo para trás.

"Você também não."

O silêncio mudou.

Até aquele momento, Lívia parecia estar esperando que um dos dois vencesse a discussão.

Agora os dois olhavam para ela.

Sérgio foi o primeiro.

"Lívia, vamos. A equipe inteira está esperando."

Ela não respondeu.

"Lívia."

A garota olhou para os pedaços do roteiro.

Depois para o chocolate.

Depois para Marina.

Respirou fundo.

"Eu não vou fazer."

Sérgio fechou os olhos.

"Não começa."

"Eu não vou fazer."

"Você tem vinte e dois anos. Não joga uma campanha fora porque ficou nervosa."

"Eu não estou nervosa."

"Então qual é o problema?"

Lívia levantou.

O moletom parecia ainda maior nela.

"Eu não quero dizer isso."

"É uma frase."

"Para mim, não é."

Sérgio ficou em silêncio.

Lívia apontou para a porta.

"Pode dizer que eu passei mal."

"Você sabe o tamanho do problema que isso vai..."

"Eu sei."

A voz ainda tremia.

Mas ela não voltou atrás.

"Eu não vou fazer."

Sérgio olhou para Marina.

"Parabéns."

Ela não respondeu.

Ele saiu e bateu a porta.

Por alguns segundos, as duas ficaram em silêncio.

Então Lívia começou a rir.

Um riso nervoso.

"Eu acho que acabei de demitir meu próprio futuro."

Marina sentou novamente.

"Talvez não."

"Você não conhece o Sérgio."

"Conheço o mercado."

"Isso não ajuda."

Marina sorriu de leve.

Lívia olhou para ela.

"Obrigada."

Marina balançou a cabeça.

"Não me agradece."

"Por quê?"

"Porque parte disso começou comigo."

Lívia não respondeu.

Marina pegou a embalagem de chocolate.

Estendeu para ela.

Lívia olhou.

Não pegou.

Marina também não insistiu.

Deixou sobre a mesa, entre as duas.

"Sobre aquela foto no meu celular...", Lívia começou.

Marina levantou os olhos.

"Você não precisa explicar agora."

"Preciso."

A garota respirou fundo.

"Não era só uma foto."

Marina sentiu o corpo ficar alerta.

Lívia pegou o celular.

"Eu tinha uma pasta inteira."

"De mim?"

"De você naquela época."

Marina não sabia o que dizer.

"Fotos. Vídeos. Entrevistas. Stories que você apagou."

"Por quê?"

Lívia deu um sorriso triste.

"Porque eu queria ser você."

A frase deveria ter alimentado alguma parte antiga do ego de Marina.

Não alimentou.

Marina só sentiu frio.

Lívia desbloqueou o celular.

"Eu salvei um vídeo seu antes de você apagar."

"Que vídeo?"

"Não sei se você lembra."

Marina tentou pensar.

Havia milhares.

Treinos.

Receitas.

Rotinas.

Bastidores.

Desafios.

"Era de alguma campanha?"

"Não."

"Então do quê?"

Lívia hesitou.

Pela primeira vez naquela tarde, pareceu ter medo não de Sérgio, nem de comida, nem das câmeras.

Medo da resposta.

"Você postou de madrugada."

Marina franziu a testa.

"Eu?"

"Ficou no ar por poucos minutos."

"Eu não lembro."

"Eu achei que você tinha postado sem querer."

Marina sentiu o coração acelerar.

"O que tinha no vídeo?"

Lívia olhou para ela.

"Você."

"Fazendo o quê?"

Os olhos de Lívia se encheram de lágrimas outra vez.

"Você estava chorando."

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