"Bilionário Me Chama de Neta" Capítulo 9
Carolina Menezes ligou na manhã seguinte.
— Passei a noite escolhendo a primeira frase — disse. — "Oi" foi a única que não pareceu ensaiada.
Ela tinha sessenta e um anos, morava em Florianópolis e se afastara dos negócios da família duas décadas antes. Pela videochamada, vi cabelos castanhos cortados na altura dos ombros, atravessados por mechas brancas, e uma camisa de linho azul.
— Minha mãe dizia que não tinha irmãos.
Carolina apertou os lábios.
— Ricardo dizia que Ana recusava todas as minhas mensagens.
— Tenho cartas devolvidas.
— Eu também.
Marcamos um encontro no apartamento novo. Carolina chegou com duas malas de fotografias e uma lata amassada de receitas.
Não tentou me abraçar na porta. Esperou que eu oferecesse a mão e a segurou entre as duas dela.
— Você tem os olhos da Ana — disse.
— Todo mundo fala isso.
— Deve ser cansativo.
Foi a primeira pessoa da família que entendeu sem que eu explicasse.
Espalhamos imagens pela mesa. Ana aos seis anos coberta de lama; aos quinze, segurando um cartaz numa manifestação por bibliotecas públicas; aos vinte, com o cabelo cortado torto porque Augusto criticara seu penteado.
Carolina me ensinou a receita dos pãezinhos de canela que minha mãe fazia em domingos de chuva.
— Isso também é herança — falou, entregando a lata. — Ricardo nunca soube medir as coisas importantes.
Nossa relação cresceu sem reunião de conselho. Ela enviava cartões, ligava quando queria contar uma lembrança e aceitava quando eu precisava desligar.
Com Augusto, o caminho era mais irregular.
Ele continuava telefonando aos domingos. Às vezes tentava inserir uma solução financeira em qualquer problema.
— O elevador do prédio quebrou — comentei certa vez.
— Posso comprar o edifício.
— Pode ligar para perguntar se subi bem pela escada.
— Subiu bem pela escada?
— Sim.
— Estou aprendendo.
Meses depois, levei-o ao túmulo de Ana, no interior de São Paulo.
Augusto carregou flores amarelas. Ficou diante da lápide por quinze minutos, apoiado na bengala, sem dizer nada.
— Desculpe por ter colocado meu orgulho acima do nosso tempo — murmurou.
Afastei-me para deixá-lo sozinho.
Alguns pedidos de perdão pertencem aos mortos. Eu não tinha o direito nem a obrigação de responder por minha mãe.
Daniel me esperava no carro. Tínhamos começado a namorar havia oito meses, depois do jantar da inauguração.
Ele nunca tentou ocupar os silêncios com conselhos.
— Quer conversar? — perguntou.
— Ainda não.
Daniel ligou o motor e me entregou uma garrafa de água.
— Então escolhe a música.
Seu afeto aparecia assim: espaço, café, curativos, mensagens que não exigiam resposta. Quando mencionei o valor do truste, ele franziu o rosto.
— Isso é preocupante.
— Por quê?
— Nunca mais vou impressionar você com meu cartão de atacadista.
Ri tanto que derramei café na mesa.
O julgamento de Ricardo começou no ano seguinte. Os áudios de Ana foram reproduzidos em audiência, e a sala ouviu sua voz acusá-lo de falsificação.
Ele tentou atribuir tudo a decisões coletivas. Documentos recentes mostravam que continuara transferindo valores para empresas próprias muito depois da crise usada como desculpa.
Ricardo foi condenado a uma pena federal. A investigação recuperou centenas de milhões e identificou outros executivos envolvidos.
O Grupo Menezes sobreviveu sob administração independente. Empregados permaneceram nos hotéis, e contratos foram renegociados.
Augusto acompanhou o resultado pela televisão do apartamento para onde se mudara. Tinha quatro quartos e chamava o lugar de pequeno.
Helena fez acordo judicial por falsidade documental e colaboração. A idade dos fatos e sua cooperação evitaram prisão, mas ela recebeu multa, restrições e proibição permanente de administrar patrimônio de terceiros.
Vendeu grande parte das joias. O dinheiro financiou uma clínica jurídica para mulheres presas em relações de controle financeiro.
Não passei a perdoá-la por isso.
Respeitei a decisão.
A Fundação Ana Campos abriu um centro de apoio junto a um hospital comunitário. Havia creche para filhos de pacientes em quimioterapia, auxílio emergencial de aluguel, transporte gratuito e atendimento jurídico.
Continuei trabalhando na emergência em jornada reduzida.
Daniel me pediu em casamento na escada de incêndio do meu prédio. Comíamos pizza porque a cozinha estava cheia de caixas da mudança.
Ele tirou do bolso um anel simples.
— Elisa Ana Campos, prometo nunca falsificar seu truste, roubar três bilhões de reais nem bater em você num gala.
— É uma meta muito baixa.
— Começo com objetivos alcançáveis.
Estendi a mão.
— Sim.
Na véspera do casamento, recebi um cartão de Helena. Não havia presente caro nem pedido de encontro.
Uma única frase ocupava o papel:
"Espero que ninguém na sua nova família confunda controle com amor."
Guardei o cartão.
Não o mostrei a Augusto. A mensagem era consequência de uma relação entre Helena e eu, não mais um documento para ele administrar.
Sara guardou uma cópia no arquivo pessoal apenas porque o processo ainda aceitava novas comunicações. O original ficou comigo.
Naquela noite, pendurei o vestido azul do gala ao lado da roupa escolhida para o casamento. A barra continuava manchada num ponto que a lavanderia não removera.
Daniel perguntou se eu queria jogá-lo fora.
— Ainda não.
— Vai usar de novo?
— Talvez na inauguração de alguma coisa que Helena jamais controlará.
Ele fechou o armário.
— Então merece uma capa boa.
Nos dias anteriores ao casamento, Augusto tentou mudar o cardápio, contratar músicos e reservar um salão maior. Recusei cada oferta.
— Cinquenta e seis pessoas cabem no restaurante.
— Setenta caberiam melhor.
— Não conheço setenta pessoas que quero ver comendo bolo.
Carolina tomou a lista da mão dele.
— Ela já respondeu, papai.
Na cerimônia, Augusto pediu permissão para ajustar o fecho do medalhão de Ana. Seus dedos tremiam.
— Posso?
Virei de costas. Ele encaixou a corrente e se afastou.
— Obrigado por me deixar estar aqui.
— Continue merecendo amanhã.
Daniel aguardava sob uma árvore, de terno azul e com o sorriso nervoso das cirurgias difíceis.
— Nenhum elevador envolvido — sussurrou quando cheguei. — Planejei tudo.
O riso dos convidados não tinha crueldade. Pela primeira vez, um salão cheio não me fez procurar a saída.
Durante a festa, Augusto pediu uma dança. Aceitei uma música, com a condição de que não virasse fotografia oficial.
— Nenhuma equipe foi contratada.
Daniel apontou para Carolina, que nos filmava.
— Família não conta como equipe — respondeu ela.
Augusto dançou devagar por causa da bengala. Quando a música terminou, agradeceu e voltou à mesa sem discurso.
Mais tarde, Daniel e eu comemos o último pedaço de bolo na cozinha.
— Você procurou a saída? — perguntou.
— Só para saber onde estava.
— Progresso.
Encostei a testa em seu ombro. Do salão veio a risada de Augusto misturada à de Carolina, duas vozes que Ana deveria ter ouvido anos antes.
Carolina guardou uma fatia de bolo numa caixa e escreveu o nome de Ana na tampa. Levamos ao túmulo na manhã seguinte, antes da viagem de lua de mel.
— Ela acharia isso exagerado — falei.
— Comeria mesmo assim — respondeu minha tia.
Augusto não veio. Disse que aquela visita pertencia às filhas e irmãs, não a ele.
Daniel esperou junto ao portão e conversou com o zelador. Mais uma vez, soube ficar perto sem ocupar o centro.
Deixamos a caixa fechada ao lado das flores e contamos a Ana as partes engraçadas da festa. Carolina imitou Augusto confundindo o encanador com senador até eu precisar me apoiar na lápide de tanto rir.
Ao irmos embora, ela segurou meu braço.
— Obrigada por me devolver minha irmã, mesmo desse jeito.
— Você trouxe partes dela que eu nunca conheci.
Abraçamo-nos sem câmeras. O vento moveu as fitas das flores, e nenhuma de nós tentou transformar aquilo em encerramento.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4