"Bilionário Me Chama de Neta" Capítulo 6
Não toquei no livro imediatamente.
Sara calçou luvas e fotografou a capa, a lombada e a posição sobre a mesa. Augusto observou cada movimento como se assistisse ao próprio nome ser retirado de uma fachada.
— Ana numerou as páginas — disse ele. — Registrou contas, autorizações e datas.
— O senhor confirmou os dados?
— Mandei uma equipe interna conferir parte deles.
— E escondeu o resultado.
— Sim.
Abri o volume.
A caligrafia de minha mãe ocupava as margens. Setas ligavam empresas a projetos, nomes a aprovações, pagamentos a perdas disfarçadas.
Numa página, ela escrevera: "Papai diz que ganhar tempo protege os funcionários. Ricardo usa o tempo para criar outra mentira."
Augusto leu por cima do meu ombro e se afastou.
— Ela tinha razão — disse.
— Dizer isso agora não custa nada.
— Vai me custar o restante da vida.
— O senhor ainda tem uma.
Ele recebeu a frase sem pedir consolo.
Sara abriu um termo de entrega voluntária. Augusto assinou, identificou o cofre e autorizou acesso aos registros internos relacionados.
— Ricardo convocou o conselho — avisou. — Quer me afastar por incapacidade.
— O senhor continua presidente?
— Emérito, com participação decisiva em certas votações. Ele precisa neutralizar meus votos e o direito de Elisa.
— Meu direito não será usado numa guerra particular — falei.
— Entendo.
— Não, ainda não. Se o senhor quer qualquer relação comigo, a verdade sai sem condição. Não haverá acordo que preserve o sobrenome e sacrifique os fatos.
Augusto pegou a bengala.
— O que haverá entre nós depois?
— Depende do que fizer quando isso deixar de ser privado.
Saímos por uma porta lateral. Duas viaturas descaracterizadas aguardavam na garagem.
A delegada federal Marina Azevedo tinha cinquenta e três anos, cabelos grisalhos muito curtos e uma fala econômica. Conferiu o lacre do livro, assinou a cadeia de custódia e o colocou numa maleta rígida.
— A senhora Campos vai depor hoje — informou.
— Elisa — corrigi.
— Elisa, então. A partir de agora, não fale com nenhum investigado sem sua advogada.
— Augusto é investigado?
Marina fechou a maleta.
— Neste momento, todos que tocaram nessas empresas interessam à investigação.
O depoimento durou seis horas.
Entreguei o convite, o bilhete ameaçador, os áudios, os documentos do truste e o acordo oferecido por Ricardo. Patrícia explicou o fluxo recente das empresas.
Quando saímos, o céu estava escuro.
Daniel esperava perto do elevador do prédio federal, ainda de jaleco. Trazia uma pequena bolsa médica e dois cafés.
— Você tem uma relação problemática com elevadores — disse.
— Como entrou?
— Hospital público ensina a encontrar qualquer recepção. Sara me autorizou a esperar.
Ela ergueu o próprio copo.
— Cobrei um café pela autorização.
Daniel examinou o adesivo sobre minha bochecha sem tocar.
— Está inflamando.
— Passei o dia entregando um império à Polícia Federal.
— A bactéria não acompanha o noticiário.
Sentamos num banco. Ele limpou o corte e trocou o curativo com movimentos lentos.
— Por que veio? — perguntei.
— Você sempre cuida de todo mundo no plantão. Achei justo alguém aparecer com gaze.
O telefone de Sara vibrou.
Ricardo havia enviado uma nota à imprensa. Chamava-me de oportunista instável, acusava Augusto de deterioração cognitiva e dizia que criminosos tentavam chantagear a empresa com documentos falsos.
Minha fotografia do gala aparecia ao lado do texto.
— Ele começou — disse Sara.
Daniel terminou o curativo.
— Então não leia os comentários.
— Preciso saber o que estão dizendo.
— Precisa dormir. Sua advogada precisa saber o que estão dizendo.
Sara apontou para ele.
— O médico fica.
No dia seguinte, a perícia preliminar confirmou que a assinatura de Ana na cessão tinha diferenças incompatíveis com seus documentos autênticos. O selo notarial pertencia a um cartório que jamais registrara sua presença.
Helena procurou a Polícia Federal antes que fossem buscá-la.
Entregou e-mails antigos, minutas e uma carta na qual Ricardo ordenava que a transferência fosse "regularizada com urgência". Admitiu ter reconhecido a assinatura sem Ana presente.
Ainda tentou explicar que protegia Augusto.
Marina perguntou quem protegera Ana.
Helena não respondeu.
Ricardo convocou a reunião do conselho para aquela tarde. Pediu a suspensão dos poderes de Augusto e o congelamento de qualquer direito ligado ao truste.
Augusto poderia ter negociado em silêncio.
Em vez disso, telefonou para Sara.
— Vou falar em público — anunciou.
— Sob orientação de advogado? — perguntou ela.
— Sob orientação da filha que não pode mais me orientar.
A coletiva foi marcada no mesmo salão onde Helena me derrubara.
Fiquei nos bastidores. Não pisaria diante das câmeras para fornecer outra imagem conveniente.
Augusto caminhou sozinho até o púlpito.
— Minha filha Ana Menezes Campos não abandonou seu truste — declarou. — A assinatura dela foi usada sem autorização.
Repórteres gritaram perguntas.
Ele ergueu a mão.
— Meu filho Ricardo se beneficiou dessa conduta. Eu permiti que o medo pela empresa servisse de desculpa para falhar com minha filha.
A voz dele vacilou, mas não parou.
— Falhei como pai. Não vou falhar com a filha dela da mesma maneira.
As câmeras que haviam registrado meu sangue agora registravam a confissão do homem mais poderoso da família.
Nos bastidores, Marina recebeu uma ligação e olhou para mim.
— A ordem foi expedida.
Ela abriu a maleta. O livro preto estava lá dentro.
— Vamos buscar Ricardo Menezes.
Antes de sair, Marina pediu que eu identificasse a caligrafia numa folha solta.
Reconheci o jeito de Ana fechar a letra A. O texto descrevia uma reunião em que Ricardo prometera devolver recursos depois da venda de um empreendimento.
A venda ocorrera. O dinheiro jamais voltara ao truste.
— Isto conecta a fraude antiga às operações atuais — explicou Marina.
Meu telefone recebeu uma mensagem de Daniel: "Seu curativo vence em duas horas. Impérios também obedecem a prazo de troca."
Guardei o aparelho.
As portas do elevador se abriram. Entrei ao lado de Marina, com o livro protegido entre nós.
No estacionamento, três veículos federais partiram em direções diferentes. Marina explicou que ninguém deveria saber para onde o original seria levado.
— Ricardo tentou destruir documentos?
— O escritório registrou uma retirada de caixas ontem. Nossa equipe alcançou o caminhão antes do descarte.
Entre os papéis havia contratos atuais assinados pelas empresas do caderno de Ana. A fraude continuara enquanto eu trabalhava no hospital sem saber que meu nome financiava negócios alheios.
Marina fechou a porta do carro.
— Hoje ele perde a vantagem de saber mais do que você.
No hospital, Daniel refez o curativo e observou a mancha roxa deixada pelos dedos de Helena.
— Quer que eu registre isso no prontuário?
— Já foi fotografado por metade de São Paulo.
— Estou perguntando sobre prova médica, não sobre audiência.
Autorizei. Daniel mediu a lesão, descreveu o corte e guardou as imagens no sistema protegido.
— Você faz tudo parecer normal.
— Ferida é ferida. Sobrenome não muda assepsia.
Ele me entregou a cópia do laudo.
No corredor, uma televisão transmitia a coletiva. Uma paciente reconheceu meu rosto e segurou minha mão.
— Não deixe que façam você voltar atrás.
Guardei o laudo na bolsa.
— Não vou.
O elevador fechou antes que a paciente perguntasse mais. Pela abertura estreita, vi Marina atravessar o saguão em direção aos carros.
O livro de Ana já estava em movimento, e Ricardo ainda falava diante do conselho como se pudesse controlar a reunião seguinte.
Do lado de fora, uma sirene cortou a transmissão. Marina me enviou uma única frase: "Entramos no prédio."
Na tela do corredor, a porta da sala do conselho se abriu e dois agentes caminharam diretamente até Ricardo.
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