"Bilionário Me Chama de Neta" Capítulo 5
Augusto atendeu à terceira ligação.
— Onde você está?
— Num lugar que sua família tentou arrombar.
— Elisa, volte ao hotel. Posso proteger você.
— Minha mãe ouviu essa palavra de todos vocês.
Sara sinalizou para que eu mantivesse a voz firme e não revelasse o depósito.
— Helena disse que o livro está com o senhor.
Augusto permaneceu calado.
— Vou interpretar isso como confirmação.
— O livro não é simples.
— Tem capa, páginas e números. Parece mais simples que um tapa.
— Se for divulgado sem preparação, milhares de pessoas podem perder o emprego.
— Minha mãe perdeu a família, a segurança e o tratamento médico. O senhor preparou alguma coisa para ela?
Ele puxou o ar.
— Venha ao meu escritório amanhã.
— Com Sara. O encontro será gravado. Se o livro não estiver sobre a mesa, entregaremos hoje mesmo o restante à Polícia Federal e ao Ministério Público.
— Você está me ameaçando?
— Estou definindo o horário.
Desliguei antes que a neta recém-descoberta voltasse a ser a menina obediente que ele imaginava poder convocar.
Passamos a noite catalogando papéis. Cada objeto expunha uma camada do isolamento de Ana.
Havia cartões de aniversário nunca entregues a Carolina. Fotografias minhas acompanhadas de datas para Augusto. Recibos de cartas registradas e respostas padronizadas dizendo que a família não desejava contato.
As assinaturas nas respostas variavam, mas todas saíam do escritório executivo de Ricardo.
Num caderno, Ana copiara os números das empresas usadas para receber distribuições do truste. Algumas mudaram de nome; outras se fundiram com fundos imobiliários do Grupo Menezes.
Sara ligou para uma contadora forense, Patrícia Luz.
Patrícia chegou antes da meia-noite. Tinha quarenta e nove anos, cabelos crespos presos num rabo baixo e uma mochila repleta de cabos, lupas e marcadores coloridos.
— Odeio família rica — disse ao ver a primeira planilha. — Sempre usa fonte bonita para esconder número feio.
Ela trabalhou até amanhecer.
Os desvios originais cobriram prejuízos de três projetos costeiros. Depois, Ricardo transferiu ativos entre empresas relacionadas, cobrando taxas e empréstimos fictícios.
— Isso não ficou no passado — afirmou Patrícia. — Há movimentação deste trimestre.
— Valor?
— Mais de um bilhão de reais no ciclo recente. O total histórico é muito maior.
— Então ainda podem processá-lo.
Sara corrigiu:
— Podem investigar. Quem acusa formalmente é o Estado, e quem decide é um juiz. Não pulemos etapas.
Às sete, uma mensagem chegou do hospital.
Daniel Braga perguntava se eu precisava de alguém para trocar o curativo.
O cirurgião do trauma tinha trinta e cinco anos, cabelos castanhos curtos, barba bem aparada e olhos cor de mel que sempre pareciam achar graça antes de sua boca. Trabalhávamos juntos havia três anos.
Respondi que sobreviveria.
"Eu vi o vídeo. Você derrubou a pressão arterial de metade da diretoria", escreveu.
"Caí no chão. Qualquer pessoa conseguiria."
"Segurar o segundo tapa foi."
Guardei o telefone. Sara percebeu.
— Alguém que não quer seu dinheiro?
— Um médico que quer corrigir meu curativo.
— Espécie rara. Preserve.
Às nove, enviamos cópias das gravações a duas autoridades e lacramos os originais. A reunião com Augusto ficou marcada para o meio-dia.
Antes de sairmos, encontrei uma fotografia de Ana diante de uma biblioteca, segurando um cartaz amarelo. No verso, ela escrevera: "Elisa precisa aprender que dizer não não exige sobrenome."
Coloquei a foto dentro da bolsa.
O Grupo Menezes tentou cancelar a reunião às onze e quarenta. Sara respondeu que a Polícia Federal já possuía material suficiente para solicitar medidas cautelares.
As portas do escritório se abriram cinco minutos depois.
Augusto esperava atrás de uma mesa comprida. Não havia livro preto à vista.
— Onde está? — perguntei.
— Primeiro, sente-se.
— Primeiro, o livro.
— Você se parece com ela quando está com raiva.
— Não use minha mãe para ganhar tempo.
Ele afastou a cadeira.
— Existem vinte e oito mil empregados ligados ao grupo. Hotéis, obras, fornecedores, fundos de pensão. Uma divulgação desordenada pode destruir gente que nunca ouviu falar do truste.
— Essa justificativa está na gravação de dezessete anos atrás.
— Continua verdadeira.
— E continua conveniente.
Augusto apoiou as duas mãos sobre a mesa.
— Ricardo assumiu riscos para salvar a companhia durante uma crise. Quando descobri a origem do dinheiro, os ativos já estavam misturados.
— O senhor recebeu o livro antes de minha mãe morrer.
— Sim.
A palavra abriu um vazio no escritório.
— Sabia onde ela estava?
— O pacote chegou por um advogado. Sem endereço dela.
— Procurou?
Augusto baixou os olhos.
— Não.
— Por quê?
— Tive medo.
— De perder a empresa.
— De derrubar tudo sobre pessoas inocentes.
— Ana era uma pessoa inocente.
Ele assentiu.
— E foi mais fácil sacrificá-la.
— Foi.
Não houve defesa depois daquilo. Augusto tinha finalmente usado o verbo certo.
— Onde está o livro?
Ele caminhou até um quadro, digitou uma combinação num painel e abriu o cofre embutido.
Tirou um volume de couro preto.
Colocou-o diante de mim.
O couro tinha marcas de umidade nas bordas. Um elástico segurava páginas soltas, e uma fita amarela saía do meio como marcador.
— Abriu depois que recebeu? — perguntei.
— Na mesma noite.
— E dormiu sabendo que minha mãe estava morrendo?
— Não dormi.
— Isso não ajudou Ana.
Sara interrompeu antes que culpa virasse narrativa.
— Quem mais sabe que o livro ficou neste cofre?
— Ricardo suspeita. Helena viu o pacote. Meu antigo advogado registrou o recebimento.
— Onde está o advogado?
— Morreu há três anos. O escritório guarda os arquivos.
Sara exigiu autorização escrita para preservar o acervo. Augusto assinou sem discutir.
Folheei até a fita amarela. Ana listara quatro contas e escrevera as iniciais de Ricardo ao lado de autorizações internas.
Uma quinta linha trazia a assinatura de Augusto, acompanhada da observação: "Papai autorizou o empréstimo; não recebeu a origem real dos recursos."
Mesmo ferida, ela distinguira responsabilidade de participação.
— Ela não tentou culpá-lo por tudo.
Augusto tocou a margem e recolheu a mão.
— Ana queria que os fatos fossem suficientes.
— Então deixe que sejam.
Sara lacrou o volume numa embalagem provisória.
— Quando sair desta sala, não volta a ser segredo de família.
Augusto encarou o cofre aberto.
— Entrego o livro sem condição.
Sara ligou para Marina diante dele e informou que o material estava pronto para coleta. Augusto poderia ter pedido mais uma hora.
Não pediu.
Sentou na poltrona e observou o pacote lacrado. Pela primeira vez desde que eu o conhecera, não havia assessor preparando a próxima frase.
— Ana gostava de amarelo — disse, olhando a fita que marcava as páginas.
— Eu sei.
— Eu mandava rosas brancas nos aniversários dela. Ela sempre trocava por margaridas amarelas.
— O senhor teve muitos sinais de quem sua filha era.
Augusto assentiu.
Quando os passos de Marina soaram no corredor, ele se levantou sozinho e abriu a porta.
O segredo terminou ali, definitivamente.
Sara pediu que Augusto descrevesse o caminho do pacote. O advogado de Ana o entregara pessoalmente e exigira recibo.
— Quem mais sabia?
— Helena viu a entrega. Ricardo suspeitou. Meu advogado registrou tudo.
Augusto abriu uma gaveta e retirou o recibo original. No rodapé, havia uma anotação: "A remetente solicita contato imediato antes que seja tarde."
— O senhor leu?
— Li.
— E esperou.
— Sim.
— Minha mãe morreu seis semanas depois.
A mão dele escorregou da bengala. O objeto caiu no tapete.
Augusto tentou pegá-lo, mas não conseguiu na primeira vez. Eu permaneci parada.
Sara recolheu o recibo e chamou Marina. Quando a campainha do elevador tocou, o cofre continuava aberto atrás dele.
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