"Bilionário Me Chama de Neta" Capítulo 3
— Qual crime?
Ricardo respirou do outro lado da linha.
— Não pelo telefone.
— Então mande os documentos.
— Documentos podem ser alterados. Precisamos conversar pessoalmente.
Olhei pela fresta da cortina. Uma repórter ajeitava o cabelo diante da câmera; dois homens discutiam quem tinha chegado primeiro à porta do prédio.
— Onde?
— Meu escritório, às seis.
— Não entro em nenhum prédio do Grupo Menezes.
— Está com medo de mim?
— Estou aprendendo com minha mãe.
Desliguei.
Pesquisei Sara Coelho durante duas horas. Ela havia representado funcionários contra bancos, hospitais e empresas do próprio grupo de Augusto.
Uma entrevista antiga mostrava Sara saindo de um tribunal sob chuva. Quando um jornalista perguntou se ela temia os réus, respondeu que medo era útil desde que não assinasse petições.
Liguei.
Ela marcou um encontro numa padaria em Campinas, longe das câmeras de São Paulo.
Sara tinha quarenta e dois anos, cabelos pretos cacheados na altura do queixo e óculos de armação fina. Usava terno azul-marinho sobre camiseta branca e tênis, e pediu panquecas às quatro da tarde.
— Eu represento você — disse após examinar o convite. — Não seu avô, não a empresa, não a família.
— Ótimo.
— Isso significa que cada pessoa oferecendo proteção provavelmente quer alguma coisa.
— Inclusive Augusto.
— Principalmente quem tem dinheiro suficiente para chamar controle de cuidado.
Mostrei as mensagens de Ricardo. Sara leu duas vezes e fotografou a tela.
— Ele quer assustar você com uma história maior do que o truste.
— Pode ser verdade.
— Pode. Uma coisa útil pode sair da boca de um mentiroso.
Ela pediu que eu descrevesse todos os documentos de minha mãe.
Contei sobre o boxe alugado fora de Campinas, onde eu guardara móveis, livros e caixas depois da morte de Ana. A chave permanecia no meu chaveiro havia quatro anos.
— Mais alguém sabe?
— Eu disse a Augusto que existem cartas. Não revelei o lugar.
— Ricardo sabia que Ana guardava provas.
— Talvez esteja procurando o boxe.
Sara largou o garfo.
— Vamos agora.
Antes, ela me fez assinar uma procuração limitada e explicou cada linha. Depois colocou sobre a mesa um gravador pequeno.
— A partir de agora, toda gentileza será tratada como tentativa de compra.
No estacionamento, um sedã preto estava parado perto do meu carro.
Um homem de terno grafite saiu do banco traseiro.
Ricardo Menezes tinha cinquenta e seis anos, cabelos grisalhos curtos e olhos azuis. Sua roupa parecia recém-passada, embora o ar úmido colasse minha franja à testa.
— Elisa — cumprimentou. — Doutora Sara.
— Que coincidência — disse Sara.
— Minha sobrinha está sendo perseguida pela imprensa. Mandei uma equipe garantir sua segurança.
— Não sou sua sobrinha para fins de vigilância.
Ricardo manteve o sorriso.
— Augusto sempre transforma culpa em espetáculo. Ontem ele fez isso com você.
— Helena me bateu antes de ele chegar.
— E meu pai aproveitou as câmeras.
Sara abriu a porta do carro.
— Se há uma proposta, envie ao meu escritório.
Ricardo entregou uma pasta.
Dentro havia um acordo de confidencialidade e uma oferta de cinquenta milhões de reais. Em troca, eu reconheceria a validade da cessão assinada por Ana e renunciaria a qualquer participação no grupo.
— Cinquenta milhões por um truste que vale bilhões — falei.
— Cinquenta milhões sem processo, exposição ou risco.
— E o crime?
— Antigos investimentos foram financiados de modo… agressivo.
— Essa palavra não existe no Código Penal — disse Sara.
O sorriso de Ricardo diminuiu.
— Minha irmã reuniu informações sem entender a estrutura. Se forem divulgadas, milhares de empregados pagarão pelo ressentimento dela.
— Ana morreu com dívida médica.
— Meu pai poderia ter evitado isso.
— O senhor também.
Ele me encarou em silêncio.
— Assine e volte à sua vida.
Fechei a pasta.
— Minha vida já foi invadida. Agora quero saber por quem.
Entreguei o acordo a Sara e entrei no carro. O sedã nos acompanhou por quinze quilômetros.
Sara ligou para um investigador particular e ditou a placa.
— Ele não tentará impedir nossa chegada — disse. — Quer descobrir aonde vamos.
Pegamos duas saídas imprevistas, entramos no estacionamento de um shopping e trocamos de carro com um colega dela. Chegamos ao depósito pouco antes do fechamento.
A porta do boxe 318 tinha um risco novo perto da fechadura.
— Tentaram abrir — falei.
Sara calçou luvas.
— Não toque na maçaneta.
Chamamos a segurança do local. As câmeras mostravam um homem de boné parado diante do boxe na noite anterior, mas o ângulo não revelava o rosto.
Ele saíra sem levar nada.
— Talvez a fechadura tenha resistido — disse o gerente.
— Ou ele queria que parecêssemos paranoicas — respondeu Sara.
Trocaram o cilindro. Entrei com a nova chave.
Quinze anos da vida comum de minha mãe estavam ali: enfeites de Natal, minha bicicleta infantil, a caixa de ferramentas de meu pai, cartazes de biblioteca e seis caixas plásticas de documentos.
Cinco estavam destrancadas.
A sexta exigia uma chave que eu nunca vira.
Sara iluminou a velha escrivaninha com o celular. Sob a última gaveta, presa por uma fita amarelada, havia uma chave pequena.
Encaixou.
Dentro da caixa, fotografias da família Menezes cobriam pastas jurídicas. Minha mãe sorria ao lado de Augusto, ainda jovem; em outra imagem, abraçava uma mulher que devia ser Carolina.
Havia dezenas de cartas devolvidas.
Algumas traziam as iniciais R.M.
Sara fotografou cada envelope antes de movê-lo.
No fundo, encontramos o instrumento original do truste.
Ana continuava beneficiária de vinte e dois por cento.
Nenhuma cessão. Nenhuma renúncia.
Uma declaração notarial, assinada doze anos depois do documento apresentado por Augusto, eliminava qualquer dúvida.
"Nunca vendi, transferi, cedi ou renunciei ao meu interesse no Truste Familiar Margarida Menezes."
Sentei no chão de concreto.
Minha mãe sabia.
E alguém sabia que ela sabia.
No compartimento lateral da caixa havia recibos de mensalidade escolar e mapas impressos dos meus trajetos. Ana marcara em vermelho os dias em que carros desconhecidos permaneceram diante de nossa casa.
Ela trocara meu colégio duas vezes sem explicar. Mudara o horário da biblioteca, evitara festas públicas e me ensinara a nunca voltar sozinha pelo mesmo caminho.
Na infância, eu chamava aquilo de mania.
Agora tinha datas.
Sara abriu uma carta que Ana escrevera para o advogado após receber a fotografia.
"Não estou renunciando ao direito. Estou suspendendo a ação até que minha filha esteja segura. Se algo acontecer comigo, estes documentos pertencem a Elisa."
Minha mãe registrara a decisão com precisão. Não se declarava derrotada.
O telefone de Sara tocou. O investigador confirmara que o sedã visto na padaria pertencia a uma empresa de fachada ligada ao Grupo Menezes.
— Ricardo não veio conversar — disse ela. — Veio seguir você.
Olhei para a porta metálica e para as seis caixas abertas.
— Precisamos tirar tudo daqui.
Contratamos um transporte certificado e filmamos o lacre de cada recipiente. Duas caixas seguiram para o escritório de Sara; as demais, para um cofre bancário cujo endereço não informamos nem a Augusto.
Antes de sair, passei a mão pela antiga bicicleta. Ana conservara até a campainha quebrada.
Eu havia procurado uma fortuna e encontrado o registro de uma mulher construindo segurança com objetos baratos, recibos e cópias.
No estacionamento, o sedã escuro não estava mais lá.
Sobre o capô do nosso carro havia uma flor amarela esmagada.
O segurança jurou que ninguém se aproximara. A câmera do estacionamento perdera sete minutos logo depois da nossa entrada.
Sara recolheu a flor numa embalagem.
— Pode ser ameaça ou encenação.
— Amarelo era a cor preferida da minha mãe.
Meu telefone recebeu uma fotografia enviada por número oculto. Mostrava a porta do boxe aberta e nós duas entre as caixas.
Alguém nos observara de dentro do depósito.
Sara pediu que os policiais verificassem todas as salas. Encontraram uma porta de serviço destrancada e marcas recentes de sapato junto ao arquivo morto.
O homem já partira.
No reflexo da fotografia aparecia o contorno da pasta vermelha que continha a petição de Ana.
— Ele sabe exatamente o que procuramos.
Sara fechou a última caixa.
— Agora também sabe que chegamos antes.
O caminhão certificado deixou o depósito escoltado. Quando o portão baixou, as provas já estavam fora do alcance de Ricardo.
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