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"Bilionário Me Chama de Neta" Capítulo 2

正文开头

À uma e dezessete da madrugada, eu estava na cobertura do Regente Imperial com gelo no rosto e uma certidão de nascimento sobre os joelhos.

O documento dizia "Ana Elizabeth Menezes". O nome Campos aparecia apenas numa averbação posterior.

Augusto sentou diante de mim, ainda de smoking. Dois advogados permaneciam junto às janelas, e um médico do hotel havia fechado o corte da minha bochecha com três pontos adesivos.

— Minha mãe era sua filha — falei.

— A caçula.

— E nunca me contou.

Augusto passou o polegar pelo cabo da bengala.

— Ela tinha motivos.

— O senhor é um deles?

— O principal.

Ana tinha dezessete anos quando perdeu a mãe, Margarida Menezes. Augusto reagiu ao luto organizando a vida da filha como organizava uma empresa.

Escolheu cursos, amizades e possíveis namorados. Ana escolheu Letras, escolas públicas e Benjamin Campos, professor de História sem sobrenome conhecido.

— Meu pai não era militar?

Augusto negou.

— Benjamin morreu num acidente de carro perto de Campinas. Você tinha três anos.

Apertei o saco de gelo até os cubos estalarem.

Minha infância mudou de forma sobre aquela mesa. A fotografia do meu pai com uma jaqueta verde, que eu interpretara como uniforme, devia ser apenas a roupa de um passeio.

— Por que ela mentiria sobre isso?

— Talvez temesse que eu encontrasse vocês.

— O senhor fez alguma coisa contra ele?

— Chamei Benjamin de oportunista. Ameacei cortar todo o dinheiro de Ana se ela se casasse.

— E ela foi embora.

— Devolveu carro, cartões e cheques. Achei que voltaria em semanas.

— Porque ninguém dizia não ao senhor.

Augusto assentiu.

— Sua mãe dizia.

Ele contou que escrevera por anos. Nunca recebeu resposta.

Eu conhecia outra versão.

— Ela também escreveu.

Augusto ergueu a cabeça.

— Como sabe?

— Há uma caixa com cópias das cartas. Muitas voltaram com carimbo de recusa da família.

— Eu nunca pedi isso.

— Algumas têm iniciais à mão.

— Quais?

Procurei uma fotografia antiga no celular. Meses antes, eu registrara um envelope porque a caligrafia no verso me parecera estranha.

Ampliei a imagem.

R.M.

Augusto encostou-se na poltrona.

— Ricardo.

Seu filho mais velho tinha cinquenta e seis anos e presidia o Grupo Menezes. Eu o conhecia por entrevistas nas quais falava de governança, responsabilidade e tradição.

— Seu filho impediu vocês de se falarem?

— Ainda não posso afirmar.

— Mas acredita nisso.

Ele não negou.

Um dos advogados colocou outra pasta sobre a mesa. Dentro havia a escritura do truste criado por Margarida para os três filhos.

Cada um recebera uma participação. A parcela de Ana correspondia a vinte e dois por cento de uma holding que controlava a rede de hotéis.

— Quanto vale? — perguntei.

Os homens trocaram olhares.

— Hoje, entre quatro e cinco bilhões de reais — disse Augusto.

Tirei o gelo do rosto.

正文1

— Minha mãe adiou quimioterapia por três semanas para negociar uma dívida de hospital.

Ninguém respondeu.

— Ela usava o mesmo casaco havia doze anos. Cortava cupons de mercado. Eu devo quase quatrocentos mil reais do curso e da especialização.

Augusto olhou para as próprias mãos.

— O dinheiro deveria ter chegado a ela.

— "Deveria" é uma palavra confortável.

O advogado abriu um segundo documento.

Cinco anos depois da saída de Ana, uma alteração registrava que ela havia cedido voluntariamente os direitos. Os ativos foram transferidos para uma entidade controlada por Ricardo.

A assinatura parecia a de minha mãe.

— É falsa.

— Precisamos de perícia — disse o advogado.

— Ela guardava recibo de farmácia. Se tivesse renunciado a bilhões, existiria uma cópia em casa.

Augusto se inclinou.

— Onde estão os documentos dela?

Fechei a pasta.

— Não vou dizer.

— Elisa, precisamos agir depressa.

— Eu conheci o senhor há poucas horas. Sua esposa me jogou no chão. Seu filho pode ter interceptado cartas, e seus advogados acabaram de me mostrar uma possível falsificação.

Levantei.

— Não entregarei nada à família Menezes.

Augusto dispensou os dois homens com um gesto. Quando a porta fechou, tirou um cartão do bolso interno.

— Sara Coelho. Advogada independente. Nunca trabalhou para mim nem para o grupo.

— Por que devo confiar numa indicação sua?

— Não deve. Pesquise, escolha outra pessoa se quiser e só depois decida.

Peguei o cartão sem prometer nada.

— Helena sabia do truste.

— Sim.

— Ela também conhecia minha mãe.

— Entrou na família seis anos depois que Ana partiu. Era advogada societária e ajudou a reorganizar o patrimônio.

— Então o medo fez a senhora explodir no salão.

Augusto pressionou os lábios.

— Também pensei nisso.

Saí do hotel às três da manhã por uma garagem reservada. Ainda assim, dois fotógrafos me esperavam na calçada.

Ao amanhecer, o vídeo do tapa tinha milhões de visualizações. Meu nome, hospital e endereço apareceram antes do almoço.

Repórteres cercaram o prédio onde eu morava. Um influenciador tentou entrar no pronto-socorro fingindo dor no peito para gravar uma reação minha.

A direção me afastou por segurança.

— Você não está sendo punida — garantiu minha supervisora.

— Só estou perdendo o trabalho por tempo indeterminado.

— Com salário. Dê alguns dias para isso esfriar.

Nada indicava que esfriaria.

Às três da tarde, um número desconhecido apareceu na tela.

— Elisa Campos?

— Quem fala?

— Ricardo Menezes.

Sua voz era calma, treinada para reuniões em que outras pessoas perdiam milhões sem que ele levantasse o tom.

— Meu pai contou uma versão emocional dos fatos.

— Sua madrasta contou a versão dela com a mão.

— Helena não é minha mãe.

— Sua árvore genealógica acaba de melhorar.

Ricardo ignorou a provocação.

— Precisamos conversar antes que Augusto faça você assinar alguma coisa.

— Ele disse que foi o senhor quem mexeu no truste.

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— Meu pai quer uma neta agora porque precisa de uma assinatura.

— Em quê?

— Num acordo que encerraria a disputa e protegeria o grupo.

— O senhor parece saber muito sobre um acordo que ninguém me mostrou.

Houve uma pausa curta.

— Sua mãe não perdeu uma herança de quatro bilhões, Elisa.

— Então onde está o dinheiro?

— Ela levou algo mais perigoso quando saiu.

Fiquei perto da janela, observando microfones se moverem na calçada.

— O quê?

— Provas.

— De quê?

Ricardo baixou a voz.

— De que a fortuna Menezes foi construída sobre um crime.

O telefone apagou na minha mão. Salvei o registro da chamada e encaminhei uma captura para Sara.

Na calçada, câmeras continuavam voltadas para minha janela. Fechei a cortina e comecei a separar os documentos que levaria dali.

Se Ricardo esperava que a palavra "crime" me paralisasse, escolhera a filha errada.

Ricardo sugeriu que eu pensasse antes de procurar autoridades.

— Quando uma empresa desse tamanho cai, enfermeiros também perdem planos de saúde — disse. — Famílias comuns pagam pela pureza moral dos herdeiros.

— O senhor pratica esse discurso diante do espelho?

— Pratico diante de vinte e oito mil folhas de pagamento.

— Envie a prova.

— Só pessoalmente.

— Então não temos mais nada a conversar.

Antes de desligar, ele pronunciou o nome completo de minha mãe. Ana Elizabeth Menezes Campos.

Ninguém fora da cobertura deveria saber que eu já conhecia aquele nome.

— Quem contou sobre a certidão?

Ricardo ficou em silêncio.

— Boa tarde, Elisa.

A chamada terminou.

Abri a porta do apartamento e encontrei um envelope branco no corredor. Não tinha selo nem endereço.

Dentro havia uma cópia da falsa cessão e um bilhete impresso: "Sua mãe teve a chance de encerrar isso. Você também terá."

Fotografei sem tocar e liguei para Sara.

Ela atendeu no segundo toque.

— Não entre de novo no apartamento — ordenou. — Espere no andar de baixo e não aceite ajuda de ninguém que saiba seu nome.

Desci pela escada. Quando alcancei a portaria, um homem de boné atravessou a rua e entrou num carro escuro.

O medo deixou de ser uma história de vinte anos antes. Alguém acabara de chegar à minha porta.

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