"Bilionário Me Chama de Neta" Capítulo 1
O primeiro tapa me acertou antes que eu conseguisse explicar por que estava ali.
Minha sandália escorregou numa poça de champanhe. Caí de lado sobre o mármore do Hotel Regente Imperial, e a borda de uma taça quebrada abriu um risco quente na minha bochecha.
Ao redor, dezenas de celulares se ergueram.
Uma mulher riu perto da mesa de sobremesas. Um homem pediu ao amigo que continuasse filmando, como se minha queda fizesse parte do espetáculo contratado para o centenário da Fundação Menezes.
Helena Menezes ficou acima de mim, imóvel dentro de um vestido preto que devia custar mais do que meu salário anual.
Aos setenta anos, ela usava os cabelos loiro-acinzentados presos num coque rígido. Diamantes cercavam seu pescoço, e seus olhos verdes tinham a frieza de quem nunca precisara repetir uma ordem.
— Entregue o envelope — disse ela.
Segurei o papel dourado contra o peito.
— Não.
A resposta atravessou o salão. Helena levantou a mão outra vez.
Dessa vez, agarrei seu pulso.
O quarteto de cordas parou no meio de uma nota. Um segurança avançou dois passos, mas Helena fez um movimento mínimo com a outra mão e o conteve.
— Solte-me — sibilou.
— Eu já pedi para não encostar em mim.
Meu nome era Elisa Campos. Eu tinha vinte e sete anos, trabalhava como enfermeira num pronto-socorro da Vila Mariana e possuía um único vestido formal: o azul-marinho agora torcido nas minhas pernas e manchado de bebida.
Três semanas antes, um envelope pesado aparecera sob a porta do meu apartamento. O brasão em relevo trazia a letra M, igual à do medalhão de prata que minha mãe colocara na minha mão pouco antes de morrer.
O convite solicitava minha presença naquela noite.
Havia também uma frase: "Existem assuntos sobre sua mãe que deveriam ter sido tratados há muitos anos."
A assinatura era de Augusto Menezes.
Eu conhecia o nome. Todo mundo conhecia.
O Grupo Menezes controlava hotéis, centros empresariais e condomínios em vários estados. Revistas estimavam o patrimônio familiar em bilhões, enquanto minha mãe contava moedas para comprar remédios sem atrasar o aluguel.
Ana Campos morrera quatro anos antes, depois de um câncer no pâncreas. Sempre dissera que os pais estavam mortos, que não tinha irmãos e que minha história familiar começava nela.
Meu pai, segundo a versão que ouvi durante toda a infância, morrera numa missão militar quando eu tinha três anos.
O medalhão era a única rachadura naquela narrativa.
Fui ao gala atrás de respostas. Entrei sozinha, de cabelos castanho-escuros presos às pressas e com sapatos que machucavam, tentando desaparecer entre vestidos brilhantes e smokings sob medida.
Helena me encontrou em menos de vinte minutos.
Primeiro viu o envelope. Depois, o medalhão.
— Onde conseguiu isso?
— Era da minha mãe.
— Nome.
— Ana Campos.
O rosto dela perdeu a cor antes de endurecer.
Helena disse que eu havia roubado a joia. Chamou o convite de falsificação e tentou arrancá-lo da minha mão.
Quando recuei, ela apertou meu braço.
Quando me soltei, o tapa veio.
Agora, ainda no chão, eu segurava o pulso da mulher que presidia três instituições de caridade. O contraste parecia divertir parte dos convidados.
— Você é uma golpista — disse Helena. — E está interferindo numa família que não conhece.
— Estou tentando conhecer minha mãe.
— Sua mãe fez as escolhas dela.
Afrouxei os dedos por um instante.
— Então a senhora a conhecia.
Um lampejo de medo passou pelos olhos verdes.
— Conheci o suficiente.
— O que aconteceu com ela?
— Nada que diga respeito a você.
— Ela era minha mãe.
— E abandonou esta família.
As portas do elevador se abriram no fundo do salão.
O burburinho desapareceu como se alguém tivesse desligado o som. Um homem alto saiu da cabine apoiando a mão numa bengala de madeira escura.
Augusto Menezes tinha oitenta e um anos, cabelos prateados penteados para trás e olhos cinzentos. O smoking preto pendia reto sobre o corpo ainda ereto, e ninguém precisou anunciá-lo.
Helena puxou o pulso, e eu a soltei.
— Augusto — chamou ela.
Ele não respondeu.
Seus olhos estavam em mim.
Augusto atravessou o salão sem olhar para os celulares. Parou a menos de um metro e deixou a bengala oscilar na mão.
— Ana?
Meu peito apertou.
— Não. Eu sou Elisa.
Ele olhou para o medalhão, depois para meu rosto. Os dedos se fecharam no cabo da bengala.
— Meu Deus.
Helena entrou entre nós.
— Ela apareceu com uma história absurda. Esse convite é falso.
Augusto inclinou o corpo para enxergar além dela.
— Você é filha da Ana.
Assenti.
Ele me abraçou.
Fiquei com os braços presos ao lado do corpo. O homem cheirava a madeira, colônia discreta e chuva.
Seus ombros tremeram.
— Minha neta.
Alguém deixou uma taça cair. Helena pronunciou um "não" quase inaudível.
Augusto recuou e viu o corte no meu rosto.
— Quem fez isso?
Os convidados baixaram os telefones. A coragem que tinham para filmar evaporou diante do dono do hotel.
Olhei diretamente para Helena.
— Ela me bateu.
Augusto virou devagar.
— Você a agrediu?
— Ela veio manipulá-lo. Eu estava protegendo você.
— Eu a convidei.
Helena piscou.
— Disse que não sabia onde ela estava.
— Não sabia até seis semanas atrás. Contratei uma investigadora depois que soube da morte de Ana.
— Por quê? — perguntei.
— Porque eu procurava você.
Soltei uma risada curta.
— Minha mãe dizia que o senhor não queria saber dela.
O rosto de Augusto cedeu.
— Ela acreditou nisso?
— Viveu assim.
— Talvez porque fosse verdade — cortou Helena.
Augusto a encarou.
Ela recuou um passo.
Ele se abaixou com dificuldade e pegou o envelope caído perto do vidro quebrado. Um papel menor havia deslizado de dentro.
Augusto examinou a aba.
— O selo foi trocado.
— Isso é ridículo — disse Helena.
— Você abriu o convite antes de ele chegar à Elisa?
— Claro que não.
Augusto desdobrou a folha escondida. Leu uma vez, aproximou-a da luz e tornou a ler.
— O que está escrito? — perguntei.
Ele me mostrou o bilhete.
"Se alguém tentar impedi-la de chegar até mim, não mostre esta página antes da minha chegada."
A assinatura de Augusto aparecia logo abaixo. Outra frase ocupava a última linha.
"Elisa Campos é a beneficiária legal do truste familiar original de Ana Menezes."
— Beneficiária de quê?
— Não existe truste nenhum! — gritou Helena.
O salão inteiro escutou.
Augusto dobrou a folha com cuidado.
— Como você saberia?
Helena abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.
Augusto estendeu a mão para mim. Levantei sem aceitá-la, ajeitei o vestido e apanhei o medalhão que balançava contra meu peito.
Ele respeitou a distância.
— Sua mãe nunca perdeu a herança — disse.
— Ela morreu contando o preço de cada consulta.
Augusto fechou os olhos.
— Eu sei.
— Não sabe.
Um segurança se aproximou para retirar Helena. Ela tentou ordenar que parasse, mas o homem olhou para Augusto.
— A senhora Menezes deixa o hotel agora — determinou ele. — E ninguém apaga uma única gravação desta sala.
Helena segurou o encosto de uma cadeira.
— Você vai destruir nossa família por causa de uma desconhecida?
Augusto olhou para o sangue na minha bochecha.
— Ela não é desconhecida.
Ele ergueu o bilhete diante da esposa.
— Alguém roubou a herança dela.
O chefe da segurança pediu que os convidados entregassem cópias das gravações. Alguns protestaram em voz baixa; outros correram para publicar os vídeos antes que o sinal do salão fosse bloqueado.
Uma jovem com vestido prateado se aproximou de mim. Era a mulher que rira quando caí.
— Eu sinto muito — disse, sem conseguir me olhar.
— Pelo tapa ou pela risada?
Ela guardou o telefone na bolsa.
— Pelos dois.
Não respondi. Um pedido de desculpas feito apenas depois da chegada de Augusto dizia mais sobre poder que sobre arrependimento.
O médico do hotel tentou me levar numa cadeira de rodas. Recusei e atravessei o salão a pé, apesar da dor no quadril.
Cada passo fez os convidados abrirem caminho. Alguns ainda filmavam, agora buscando o ângulo em que Augusto caminhava atrás de mim.
Na porta do elevador, vi Helena ser conduzida ao corredor reservado. Ela se soltou do segurança e apontou para meu medalhão.
— Essa joia não faz de você uma Menezes.
Segurei as portas antes que fechassem.
— Ainda bem.
Augusto entrou na cabine ao meu lado. Pela primeira vez naquela noite, ninguém riu.
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