"Minha Pior Rival" Capítulo 2
Parte 2
Volta.
A palavra ficou na cabeça dela durante a madrugada inteira.
Voltar para onde?
Para as campanhas?
Para os milhões de visualizações?
Ou para a mulher de vinte e quatro anos que sorria do outro lado da tela?
Marina não respondeu.
Às sete e vinte da manhã, acordou com o celular vibrando sem parar sobre o criado-mudo.
Por um segundo, achou que fosse a marca novamente.
Não era.
Havia dezessete mensagens de Camila.
A primeira dizia apenas:
"Não abre o Instagram."
Marina fechou os olhos.
Quando Camila dizia para não abrir alguma coisa, significava que Marina definitivamente abriria.
Pegou o celular.
A publicação estava em um dos maiores perfis de celebridades do país.
LÍVIA SAMPAIO É A NOVA MARINA VALENTE?
Marina ficou imóvel.
A montagem tinha duas fotos.
À esquerda, Marina aos vinte e quatro anos.
Cintura fina, barriga marcada, cabelos brilhantes caindo sobre os ombros. Era uma foto de uma campanha antiga que Marina conhecia tão bem que poderia reconstruir aquele dia inteiro de memória.
À direita, Lívia Sampaio.
Vinte e dois anos.
Alta, magra, pele cor de caramelo, cachos pretos volumosos e um sorriso que parecia ter sido inventado especificamente para vender alguma coisa.
Marina olhou outra vez.
Então percebeu o detalhe que mais doeu.
Não tinham usado uma foto atual dela.
A comparação era entre Lívia e uma Marina que já não existia.
Aos vinte e nove, aparentemente, Marina nem sequer tinha sido convidada para participar da disputa sobre quem seria a próxima Marina Valente.
Ela já tinha perdido por ausência.
O celular tocou.
Camila.
"Eu mandei você não abrir."
"E eu tenho cinco anos?"
"Às vezes, emocionalmente? Tem."
Marina se levantou.
"Estou bem."
"Você sempre diz isso quando está péssima."
"Tenho um evento hoje."
Silêncio.
Camila sabia.
Todo mundo sabia.
Marina e Lívia estariam no mesmo lançamento naquela tarde, na Oscar Freire.
"Quer que eu vá com você?"
"Não."
"Marina."
"Se eu chegar acompanhada porque uma menina de vinte e dois anos está no mesmo lugar, eles vencem."
"Quem são eles?"
Marina olhou novamente para a montagem.
"Todo mundo."
Desligou.
Às quatro da tarde, Marina entrou no evento usando uma calça preta de alfaiataria, camisa marfim e brincos dourados.
Quase trocara a camisa por uma preta antes de sair.
Não trocou.
Considerou aquilo uma vitória pequena demais para contar a alguém.
O espaço estava lotado.
Influenciadores, modelos, fotógrafos, assessores, gente famosa e gente que parecia famosa porque sabia exatamente como se posicionar diante de uma câmera.
Marina viu Lívia antes que Lívia a visse.
Era impossível não ver.
Ela estava perto de um painel de flores, usando um vestido verde-claro que deixava as costas à mostra.
Dois fotógrafos disputavam sua atenção.
"Um pouquinho para a esquerda, Lívia!"
"Olha aqui!"
"Perfeita!"
Marina sentiu alguma coisa apertar dentro dela.
Não era culpa da garota.
Isso tornava tudo pior.
Lívia parecia exatamente como Marina lembrava de si mesma aos vinte e quatro anos.
Não fisicamente.
Era outra mulher.
Mas havia nela aquela energia de quem ainda entrava em um ambiente esperando ser admirada, não avaliada.
Marina desviou o olhar.
"Marina Valente?"
Uma assessora apareceu sorrindo.
"Que prazer. A gente estava esperando você."
"Obrigada."
"Você e a Lívia vão fotografar juntas daqui a pouco."
Claro que iam.
Marina sorriu.
"Que surpresa."
A assessora não percebeu a ironia.
Marina pegou uma taça de água.
Preparou-se mentalmente para o encontro.
Conhecia aquele tipo de situação.
A garota jovem chegaria sorrindo demais, diria que sempre admirou seu trabalho, talvez soltasse alguma frase sobre como Marina continuava linda.
Continuava.
A palavra preferida de quem queria elogiar uma mulher depois de decidir que seus melhores dias tinham acabado.
"Marina?"
Ela se virou.
Lívia estava parada atrás dela.
De perto, parecia ainda mais jovem.
Mas a expressão não tinha nada de calculada.
Os olhos da garota se arregalaram.
"Meu Deus."
Marina esperou.
Lívia levou a mão à boca.
"Desculpa. Eu juro que não queria reagir assim."
Marina quase riu.
"Assim como?"
"Como uma adolescente."
"Você tem vinte e dois."
"Exatamente. Ainda está perto."
Marina não conseguiu evitar um sorriso.
Lívia deu um passo mais perto.
"Eu acompanho você desde os dezesseis."
A frase acertou Marina de um jeito estranho.
"Dezesseis?"
"Eu sabia os seus vídeos de cor."
"Isso é preocupante."
Lívia riu.
"Você tinha um vídeo sobre como montar mala para uma semana levando só uma bolsa."
Marina piscou.
"Eu apaguei aquilo há anos."
"Eu sei."
"Como você lembra?"
"Porque tentei fazer igual e levei quatro pares de sapato escondidos na mochila da minha mãe."
Marina riu de verdade.
Foi rápido.
Mas verdadeiro.
Por alguns minutos, Lívia falou sobre vídeos que Marina nem lembrava mais de ter feito.
Não parecia estar tentando impressioná-la.
Parecia uma fã que, por acidente, crescera e acabara entrando no mesmo mundo da pessoa que admirava.
Isso deveria ter feito Marina gostar dela imediatamente.
Em vez disso, provocou uma sensação mais complicada.
Porque Lívia estava ali, linda, magra, jovem, cercada por câmeras.
E Marina teve a impressão desconfortável de que o mercado havia fabricado uma nova versão de tudo o que ela já tinha sido.
"Meninas!"
Um fotógrafo chamou.
"Vamos aproveitar vocês duas juntas."
Marina respirou fundo.
Lívia caminhou ao lado dela.
As câmeras começaram imediatamente.
"Mais perto!"
As duas se aproximaram.
"Isso! Linda!"
O fotógrafo olhou para o visor e abriu um sorriso.
"Já sei. Vamos fazer a nova e a antiga Marina juntas."
Marina sentiu o corpo endurecer.
Antes que pudesse responder, Lívia franziu a testa.
"Antiga?"
O fotógrafo riu.
"É brincadeira."
"Não entendi."
"Você sabe. A nova geração."
Ele apontou para Lívia.
"Nova Marina."
Depois apontou para Marina.
"E a original."
"Você disse antiga."
O sorriso dele diminuiu.
"É modo de falar."
Lívia olhou para Marina.
Depois para as câmeras.
"Não existe uma nova Marina."
O fotógrafo pareceu confuso.
Lívia apontou para ela.
"Ela está bem ali."
Por alguns segundos, ninguém falou.
Marina encarou a garota.
Alguma coisa dentro dela, preparada para lutar desde que saíra de casa, ficou sem adversário.
O fotógrafo limpou a garganta.
"Tá. Então vamos só fazer uma foto divertida."
Ele reposicionou as duas.
"Marina, vira um pouco de lado. Lívia, mão na cintura."
Marina obedeceu por reflexo.
"Agora as duas bem retinhas. Quero pegar a silhueta."
Marina percebeu imediatamente.
Não era uma foto.
Era uma comparação.
Duas cinturas.
Dois corpos.
Duas idades.
Amanhã alguém colocaria setas, círculos e títulos em cima da imagem.
Marina relaxou os braços.
"Não."
O fotógrafo abaixou a câmera.
"Como?"
"Essa pose, não."
"É só para valorizar vocês."
"Então encontra outro jeito."
Ele soltou uma risada curta.
"Marina, é literalmente uma foto."
Ela olhou diretamente para ele.
"Não sou o antes de ninguém."
O silêncio veio primeiro.
Depois, alguém atrás delas soltou um "nossa" quase divertido.
Lívia sorriu.
Não aquele sorriso perfeito das fotos.
Um sorriso largo.
"Eu também não quero ser o depois."
Marina virou para ela.
Dessa vez, riu.
O fotógrafo desistiu da pose.
As fotos seguintes foram das duas conversando, rindo e ignorando metade das instruções.
Provavelmente seriam menos úteis para comparações.
Marina considerou isso uma segunda vitória pequena demais para contar.
Mais tarde, quando a música já estava alta e as câmeras tinham diminuído, Marina passou perto da mesa de doces.
Foi quando viu Lívia.
Sozinha.
A garota olhava para uma bandeja de chocolates.
Pegou um.
Ficou segurando entre os dedos.
Marina diminuiu o passo.
Lívia levou o chocolate quase até a boca.
Parou.
Olhou para os lados.
Depois colocou de volta na bandeja.
O gesto durou menos de dez segundos.
Ninguém pareceu notar.
Marina notou.
Porque conhecia aquele movimento.
Conhecia a pausa.
Conhecia o olhar rápido ao redor.
Conhecia até a maneira de colocar a comida de volta como se nunca tivesse desejado aquilo.
Cinco anos antes, Marina fazia exatamente a mesma coisa.
Em festas.
Em restaurantes.
Em camarins.
Às vezes pegava um doce só para sentir o cheiro e depois devolvia.
Disciplina.
Era assim que chamava.
Marina observou Lívia se afastar da mesa.
Pela primeira vez naquela tarde, não viu uma rival.
Viu alguma coisa muito mais familiar.
E aquilo a incomodou.
"Você vai ficar me encarando?"
Lívia tinha percebido.
Marina se aproximou.
"Eu estava olhando os chocolates."
"Mentira."
"Você é sempre tão direta?"
"Quando estou com fome, sim."
A resposta veio acompanhada de um sorriso, mas Marina percebeu a palavra.
Fome.
Olhou para a bandeja.
"Então come."
Lívia deu de ombros.
"Não estou com tanta vontade."
Marina não insistiu.
Conhecia aquela mentira também.
"Foi bom conhecer você", Lívia disse.
"Você fala isso agora."
"Por quê?"
"Amanhã vão inventar que a gente brigou."
Lívia riu.
"Então pelo menos escolhe um motivo interessante."
"Você roubou meu iluminador."
"Fraco."
"Você disse que minha bolsa era falsa."
"Melhor."
Marina sorriu.
"Boa noite, Lívia."
"Boa noite, Marina."
Ela se afastou.
Marina caminhou em direção à saída quando ouviu alguém chamar Lívia atrás dela.
A garota tinha parado perto do balcão para falar com sua assessora.
Marina passou por trás das duas.
Foi então que o celular de Lívia, deixado sobre o balcão, acendeu.
Marina não pretendia olhar.
Olhou.
E parou.
Na tela de bloqueio havia uma fotografia.
Uma mulher de cabelos castanho-escuros, cintura minúscula, barriga lisa e um sorriso impecável diante de uma praia.
Marina conhecia aquela foto.
Conhecia o biquíni.
Conhecia o lugar.
Conhecia até o comentário que Rafael tinha feito segundos antes de fotografá-la.
Porque aquela mulher era ela.
Marina aos vinte e quatro anos.
A mesma Marina que, naquela manhã, aparecia ao lado de Lívia sob a pergunta:
NOVA MARINA?
Marina ergueu os olhos lentamente.
Lívia ainda não tinha percebido que ela estava ali.
O celular apagou.
Mas Marina já tinha visto.
E, pela primeira vez desde que conhecera Lívia, uma pergunta muito mais desconfortável do que ciúme atravessou sua cabeça.
Por que uma garota de vinte e dois anos ainda carregava, todos os dias, uma foto do corpo que Marina estava tentando recuperar?
Lívia se virou.
Viu Marina.
Depois olhou para o celular.
O sorriso desapareceu.
"Marina..."
Marina não respondeu.
Lívia pegou o aparelho depressa.
E a expressão em seu rosto fez Marina entender que aquela foto não estava ali por admiração.
Havia alguma coisa que Lívia não queria que ela descobrisse.
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