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"Minha Pior Rival" Capítulo 1

正文开头

Parte 1

#Ela Era Mais Bonita Antes

Marina Valente trocou de roupa três vezes antes de admitir que o problema não estava em nenhuma delas.

O vestido vinho continuava jogado sobre a cama, bonito demais, justo demais. A calça de alfaiataria bege estava no chão, ao lado de uma blusa de seda que ela comprara seis meses antes e nunca tivera coragem de usar fora de casa.

Marina encarou o próprio reflexo.

Aos vinte e nove anos, ainda tinha os mesmos olhos cor de mel, os mesmos cabelos castanho-escuros e ondulados que tantas marcas haviam usado em campanhas de xampu, os mesmos lábios cheios que apareciam ampliados em outdoors pela cidade.

Mas seu olhar sempre parava antes disso.

Na barriga.

Nos braços.

No rosto mais cheio.

Ela puxou a camisa preta larga para baixo.

Camila, sentada na poltrona do quarto, cruzou as pernas.

"Você gosta dessa roupa?"

Marina continuou olhando para o espelho.

"Ela não marca nada."

"Não foi isso que eu perguntei."

"Eu sei."

Camila ficou em silêncio.

Era uma das poucas pessoas que já tinham aprendido que dizer "você está linda" nem sempre ajudava. Às vezes, Marina ouvia aquilo como piedade.

Pegou a bolsa.

"Vamos antes que eu desista."

O evento acontecia nos Jardins, em um espaço cercado de vidro, flores brancas e fotógrafos. Uma daquelas noites em São Paulo em que todo mundo parecia ter sido cuidadosamente escolhido para estar ali.

Marina não ia a um evento daquele tamanho havia quase um ano.

Durante o trajeto, repetiu mentalmente que estava tudo bem.

Ela ainda era Marina Valente.

Ainda tinha seguidores.

Ainda recebia convites.

Ainda era alguém.

O carro parou.

Marina desceu, ergueu o rosto e congelou.

Na fachada do prédio, uma enorme tela de LED exibia uma campanha antiga da marca.

E lá estava ela.

Marina Valente, vinte e quatro anos.

A imagem ocupava quase dois andares.

Cabelos perfeitamente ondulados, pele dourada sem uma única textura, vestido branco justo e uma cintura tão fina que Marina sentiu o estômago contrair só de olhar.

Por um segundo absurdo, teve a sensação de estar diante de outra mulher.

Uma mulher mais jovem.

Mais bonita.

Mais valiosa.

Uma mulher morta que todo mundo ainda preferia.

"Marina?"

Camila tocou seu braço.

"Estou bem."

A mentira saiu automática.

Elas caminharam em direção à entrada.

Duas garotas esperavam perto do painel para tirar fotos. Uma delas olhou para a tela, depois para Marina.

"É ela?"

A amiga virou discretamente.

"Meu Deus, ela mudou muito."

Não disseram baixo o suficiente.

Marina continuou andando.

Cinco anos antes, aquelas mesmas garotas talvez pedissem uma selfie.

Agora a observavam como quem encontra uma atriz famosa depois de uma década e tenta identificar o que deu errado.

Dentro do salão, a situação não melhorou.

Havia gente demais olhando.

Ou talvez Marina apenas tivesse voltado a perceber os olhares.

Uma assessora correu até ela.

"Marina! Que bom que você veio."

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O abraço foi caloroso demais.

"Claro."

"Você está ótima."

Lá estava.

Ótima.

Nunca linda.

Nunca maravilhosa.

Ótima.

Marina sorriu.

"Obrigada."

Camila lançou um olhar de advertência, como se pudesse ouvir seus pensamentos.

Logo começaram as fotos.

Marina conhecia aquele ritual melhor do que conhecia muita gente.

Pé esquerdo à frente.

Quadril ligeiramente para trás.

Ombros abertos.

Barriga presa.

Queixo inclinado.

Ela percebeu que ainda fazia tudo automaticamente.

O corpo podia ter mudado.

A coreografia, não.

"Marina!"

Um repórter a chamou.

"Rapidinho?"

Ela reconheceu o microfone de um portal de entretenimento e quase recusou. Mas viu uma câmera apontada para ela.

Recusar viraria notícia.

Então sorriu.

"Claro."

As primeiras perguntas foram fáceis. Trabalho. Redes sociais. Novos projetos.

Até o repórter pegar o celular.

"Essa foto voltou a circular muito esta semana."

Marina olhou.

Ela aos vinte e quatro.

Top branco, barriga lisa, cintura impossível.

"Você sente falta desse corpo?"

O barulho ao redor pareceu diminuir.

Marina ergueu os olhos para ele.

"Você pergunta isso a homens que engordam depois dos trinta?"

Alguém atrás da câmera riu.

O repórter perdeu o sorriso por meio segundo.

"Justo."

"Próxima pergunta."

"Mas você fala bastante sobre mudanças. Então você está feliz com o seu corpo hoje?"

Dessa vez, Marina não respondeu imediatamente.

A câmera estava perto demais.

Ela podia mentir.

Podia dizer que nunca estivera tão feliz.

Podia transformar aquilo em um discurso inspirador e, amanhã, algum perfil publicaria sua resposta com uma música emocionante.

Mas a palavra não saiu.

Sim.

Era só dizer sim.

Marina sorriu.

"Estou feliz por não precisar responder perguntas sobre meu corpo para viver."

Algumas pessoas riram novamente.

Ela agradeceu e saiu antes que viesse outra pergunta.

No banheiro, trancou-se em uma cabine.

Só então soltou o ar.

Seu celular vibrou.

Camila.

"Quer ir embora?"

Marina digitou:

"Não."

Apagou.

Escreveu de novo.

"Daqui a pouco."

Guardou o celular.

Quando voltou ao salão, a antiga Marina ainda sorria do telão.

Perfeita.

Imóvel.

Invencível.

Marina desviou os olhos.

Duas horas depois, já estava em casa.

Tirou os sapatos na entrada, deixou a bolsa no sofá e foi direto ao banheiro.

O algodão coberto de base passou pelo rosto uma vez.

Duas.

Três.

Sem maquiagem, as olheiras apareceram.

Ela prendeu o cabelo em um coque baixo.

O celular vibrou.

Camila.

"Chegou?"

"Sim."

"Está bem?"

Marina respondeu imediatamente.

"Estou ótima."

Dessa vez, quase riu.

Abriu o Instagram.

Seu perfil atual apareceu primeiro.

As fotos recentes eram calculadas de outra maneira. Rosto mais próximo da câmera. Poucas imagens de corpo inteiro. Casacos. Camisas largas. Ângulos seguros.

Marina foi descendo até cinco anos antes.

E encontrou a outra.

Ela mesma.

Só que não parecia.

Uma foto na praia.

PERFEITA.

Uma campanha de lingerie.

CORPO DOS SONHOS.

Uma selfie no elevador.

RAINHA.

Marina continuou rolando.

Cem mil curtidas.

Duzentas mil.

Quatrocentas mil.

Em uma foto, Rafael a abraçava pela cintura.

Os dois bronzeados, sorrindo para a câmera em Fernando de Noronha.

正文2

"Casal perfeito", diziam os comentários.

Marina fechou a foto.

Procurou o vídeo do evento daquela noite.

Já havia cortes da entrevista circulando.

No primeiro, sua resposta ao repórter tinha recebido milhares de curtidas.

Ela sentiu uma satisfação curta.

Até abrir os comentários.

"Ela arrasou, mas engordou muito mesmo."

"Saudades da Marina antiga."

"Ela era tão linda."

"Como alguém se deixa chegar nesse ponto?"

Marina apertou a mandíbula.

Então viu uma montagem.

Duas fotos lado a lado.

À esquerda, vinte e quatro anos.

À direita, hoje.

Em letras grandes:

ANTES / DEPOIS.

Marina fechou o aplicativo.

Jogou o celular sobre a cama.

Foi até a cozinha.

Abriu a geladeira.

Ficou olhando.

Fechou.

Voltou para o quarto.

O celular continuava ali.

Ela o pegou novamente.

Dessa vez não abriu os comentários.

Abriu as fotos antigas.

Uma.

Outra.

Mais uma.

Parou em uma imagem que conhecia de cor.

Vestido preto.

Cabelo impecável.

Pernas longas.

Cintura fina.

Olhos enormes.

Marina ampliou a foto.

Por algum motivo, aproximou ainda mais a imagem da cintura.

Havia algo estranho na curva do fundo atrás dela.

Uma linha quase imperceptível.

Marina nem reparou.

Seus olhos estavam ocupados demais admirando o que acreditava ter perdido.

Levantou-se e caminhou até o espelho.

Colocou o celular ao lado do próprio rosto.

As duas Marinas ficaram juntas.

A de vinte e quatro anos dentro da tela.

A de vinte e nove refletida no vidro.

Marina comparou os olhos.

O rosto.

O pescoço.

Os ombros.

A cintura.

Sempre a cintura.

Sentiu vergonha de uma coisa que jamais admitiria para Camila.

Não odiava aquela mulher da foto.

Tinha inveja dela.

Inveja de si mesma.

Era ridículo.

Era humilhante.

E era verdade.

Marina levantou a mão.

Cobriu com a palma o reflexo do próprio rosto no espelho.

Agora só conseguia ver a mulher no celular.

A Marina perfeita sorriu para ela.

Marina sentiu os olhos arderem.

"Como foi que eu deixei você desaparecer?"

A pergunta saiu baixa.

Ninguém respondeu.

À meia-noite e quarenta e três, Marina estava sentada na cama quando abriu o navegador.

Ficou alguns segundos olhando para a barra de pesquisa.

Depois começou a digitar.

"Como voltar ao corpo que eu tinha aos 24 anos?"

Seu dedo pairou sobre a tela.

Marina sabia que deveria apagar.

Em vez disso, apertou buscar.

Os resultados apareceram.

E, entre anúncios, dietas e programas de transformação, um nome que ela conhecia surgiu na tela.

Marina ficou imóvel.

Era uma marca que não falava com ela havia três anos.

A mesma que encerrara seu contrato quando seu corpo começou a mudar.

E havia uma nova mensagem esperando por ela.

"Marina, talvez seja hora de conversarmos sobre a sua volta."

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