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"A Câmera Viu Quem Feriu Minha Filha" Capítulo 7

正文开头

Quando o relógio zerou, quarenta e sete contas publicaram o mesmo vídeo.

Helena aparecia numa sala escura, diante de caixas marcadas com o símbolo do grupo. A mulher da gravação confessava ter comprado documentos de trabalhadores e ordenava que provas fossem queimadas. O rosto, a voz e até o movimento das mãos pareciam seus.

Maia não viu. Tereza desligou a televisão da cozinha e levou a menina para o quarto dos fundos, onde as janelas não davam para a rua.

Caio reproduziu o arquivo sem som.

— Usaram entrevistas públicas para treinar o rosto — disse. — A voz veio das reuniões de acionistas. O corpo pertence a outra pessoa.

— Dá para retirar? — perguntou Helena.

— Alguns provedores vão agir rápido. Outros vão pedir laudo. Quando removermos um, surgirão cinco cópias.

Helena assistiu à mulher falsa erguer um galão de combustível. A imagem tinha sido construída para produzir nojo antes que qualquer explicação pudesse alcançá-la.

— Então precisamos chegar à fonte.

Davi colocou sobre a mesa a autorização judicial obtida naquela madrugada. Ela permitia montar um ambiente de observação controlado, oferecer arquivos marcados à rede suspeita e preservar as conexões que tentassem capturá-los. Não autorizava invadir servidores nem alterar contas.

— Tudo o que fizermos precisa sobreviver diante de um juiz — disse ele. — Se ultrapassarmos a ordem, entregamos a defesa a Raul.

Caio criou três vídeos-isca. Cada um continha uma correção visual que os operadores da APT desejariam: melhor sincronização labial, iluminação mais natural e um modelo falso do rosto de Helena. Dentro dos arquivos, inseriu marcas distintas, invisíveis ao público, capazes de reaparecer nos quadros renderizados.

— Não é um vírus — explicou a Helena. — É como entregar três folhas com fibras diferentes. Saberemos qual porta usaram quando a cópia aparecer.

Natália aprovou o texto do e-mail que faria os links chegarem a intermediários já identificados pela investigação. Um agente federal apertou o botão de envio.

Eles esperaram.

Às duas e dezessete da manhã, um servidor em São Paulo abriu o primeiro link. Às duas e vinte, a marca azul reapareceu num teste privado hospedado em Lisboa. Às duas e vinte e oito, o mesmo material passou por uma conta de renderização registrada em nome de uma agência de marketing de Raul.

Caio marcou os horários no quadro.

— Temos a cadeia.

— Temos um caminho — corrigiu Davi. — A cadeia depende dos provedores confirmarem os registros.

Antes do amanhecer, os pedidos de preservação seguiram para Brasil, Portugal e Países Baixos. Helena assinou cada solicitação empresarial sem tocar nos dados técnicos.

Foi Maia quem notou o silêncio do café da manhã.

Ela entrou abraçada a um travesseiro e encontrou a mãe na cabeceira, ainda com a roupa do dia anterior. Dois policiais conversavam junto à porta de serviço.

— A gente vai mudar de casa de novo?

Helena afastou o notebook.

— Talvez por alguns dias.

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— Porque eu contei do vestido?

A pergunta atingiu todos à mesa. Davi pousou a xícara. Tereza virou de costas para o fogão, os olhos úmidos.

Helena puxou Maia para o colo.

— Escuta com atenção. Nada disso começou porque você contou. Começou porque adultos decidiram ferir pessoas e esconder o que fizeram.

Você contar ajudou a parar uma mentira.

— E se eu não tivesse contado?

— Eu continuaria procurando. Sempre.

Maia apoiou a cabeça no peito dela.

Naquela tarde, a família foi levada a uma casa segura pertencente ao programa de proteção temporária. Helena protestou ao saber que teria de deixar o trabalho, mas Davi mostrou a foto da escola e o registro da van.

— Segurança não é castigo — disse ele. — E não é um voto contra a sua capacidade.

Ela aceitou.

O avanço veio dois dias depois. A agência portuguesa confirmou que a conta de renderização recebera os arquivos marcados. O pagamento vinha de uma empresa panamenha ligada ao Espinheiro.

O administrador nominal era um motorista aposentado que jamais ouvira falar da empresa.

Raul, porém, percebeu a armadilha. Uma mensagem surgiu no canal usado para as ameaças:

BONITA MARCA. AGORA VAMOS VISITAR A GRÁFICA.

O laboratório que preservava os originais foi evacuado sem alarde. Antes de sair, cada perito lacrou o equipamento que usava e registrou o número do lacre diante de duas câmeras. A polícia transferiu os discos em caixas rígidas para um endereço que não constava dos sistemas do grupo.

Helena telefonou à diretora da escola. Cancelou uma apresentação em que Maia dançaria na semana seguinte e explicou a razão sem pedir que a filha escondesse o ocorrido dos colegas.

— Eu ensaiei três meses — disse Maia quando soube.

— Eu sei.

— Então eles roubaram isso também.

Helena pediu à professora uma gravação privada no ginásio vazio. Maia apresentou a coreografia para a mãe, Tereza e dois agentes sentados na primeira fileira. Ao terminar, recebeu aplausos suficientes para ocupar todo o espaço.

— Isto ainda é seu — disse Helena.

Caio congelou a tela.

— Ele encontrou a marca.

— E sabe que o rastreamos — disse Natália.

Davi recebeu uma ligação da equipe de vigilância. A van escura havia sido localizada num estacionamento próximo à casa antiga de Helena. Dentro, encontraram plantas do imóvel, fotografias do portão e uma lista de horários.

No fim da lista, havia o nome da casa segura.

— Vazamento interno — disse Davi.

Todos os dispositivos foram recolhidos. Agentes trocaram os rádios e revisaram quem conhecia o endereço. Caio descobriu que uma credencial temporária, criada durante a investigação de Eleanor, fora reativada por onze minutos.

O usuário pertencia a um técnico terceirizado que desaparecera na véspera.

A polícia localizou a esposa do técnico na casa de parentes. Ela mostrou mensagens em que ele dizia ter recebido dinheiro para renovar um certificado vencido. Na última, escrita com erros incomuns, anunciava uma viagem que nunca planejara.

Os investigadores passaram a tratá-lo também como possível vítima.

Essa possibilidade mudou a busca: além de rastrear o acesso, passaram a procurar um homem desaparecido.

Às cinco da manhã, a energia da casa segura oscilou.

O gerador entrou em funcionamento. Em seguida, o alarme externo começou a tocar.

No monitor térmico, oito pontos vermelhos atravessavam o gramado em direção à cozinha.

Davi conferiu o carregador do rádio policial.

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