"A Câmera Viu Quem Feriu Minha Filha" Capítulo 4
Helena dobrou o acordo e o devolveu ao envelope.
— Saia da minha propriedade.
Eleanor ajustou o punho da manga. Um diamante pequeno brilhou junto ao botão.
— Meu filho era um administrador, querida. As patentes, os imóveis e os contratos de licenciamento pertencem a um fundo irrevogável criado antes do casamento. Você herdou uma casca endividada.
Natália deu um passo à frente.
— Qualquer comunicação futura será dirigida ao meu escritório.
— Seu escritório não pagará os salários quando eu congelar o caixa operacional.
Davi desceu do jardim e parou ao lado de Maia. Não se aproximou da discussão. A menina havia deixado de balançar.
Helena apontou para o carro.
— Quarenta e oito horas também bastam para pedir uma ordem contra sua entrada aqui. Vá.
Eleanor sorriu e retornou aos homens. Quando o veículo desapareceu, Maia correu para a varanda.
— Ela pode levar meu quarto?
Helena se agachou.
— Ninguém vai tirar você daqui hoje. Sobre amanhã, eu vou descobrir antes de prometer.
Maia tocou o envelope.
— É igual quando papai dizia que ia mandar a gente embora?
— A diferença é que agora temos pessoas para conferir cada papel.
Natália levou os documentos para a mesa da sala. O fundo se chamava Espinheiro Global Trust e tinha sede formal nas Ilhas Cayman. As assinaturas de criação eram anteriores ao casamento de Helena, porém as transferências de patentes haviam ocorrido cinco anos depois.
— Ela misturou datas — disse a advogada. — O fundo pode existir desde antes. Isso não prova que todos esses ativos sempre estiveram lá.
— E o bloqueio?
— O banco pode suspender operações por cautela. Precisamos impedir que uma disputa societária paralise salários e contratos.
Helena ligou para o conselho e convocou reunião extraordinária. Também autorizou Caio Nunes a montar uma sala de auditoria independente. Ele chegou no fim da tarde com dois computadores lacrados, um scanner e etiquetas numeradas.
— Primeiro vamos copiar — explicou. — Depois calculamos o hash de cada arquivo. Ninguém altera original, ninguém trabalha sozinho, tudo entra numa ata.
Helena entregou as senhas de acesso que possuía.
— Marcos apagava mensagens depois de noventa dias.
— Apagar da caixa dele não apaga de todos os servidores.
Caio começou pelas transferências de propriedade intelectual. Encontrou contratos idênticos, assinados em datas diferentes, e faturas de consultoria emitidas por empresas sem funcionários. Uma delas aparecia como compradora de um galpão industrial e, três semanas depois, como financiadora de uma aquisição de hotel em Lisboa.
Natália exigiu que cada lançamento suspeito viesse acompanhado de uma hipótese inocente a ser testada. O galpão podia ter sido vendido de verdade? A consultoria podia possuir prestadores terceirizados?
A assinatura de Marcos podia ter sido usada sem autorização? Caio anexou contratos, notas fiscais e depoimentos antes de classificar qualquer linha.
O método atrasou o relatório por três dias e eliminou duas acusações que não se sustentavam. Helena preferiu o atraso. Se fossem enfrentar Eleanor, fariam isso com fatos capazes de permanecer de pé depois da indignação.
Um gerente aposentado confirmou que recebia ordens para dividir transferências abaixo do limite de revisão. Guardara cadernos com datas por medo de ser responsabilizado. Entregou-os ao Ministério Público acompanhado de advogado próprio.
Natália aproximou a cadeira.
— O fundo emprestava à própria companhia?
— Com dinheiro que saía da companhia — respondeu Caio. — Ainda preciso fechar o circuito.
À meia-noite, Helena colocou Maia para dormir no sofá do escritório. A menina desenhou o detector de fumaça como um olho redondo no teto.
— Foi ele que contou a verdade — disse.
— A câmera guardou a verdade. Você contou.
Maia deixou o lápis sobre o papel.
— Se eu tivesse ficado quieta, você acreditaria em mim?
Helena puxou a cadeira para mais perto.
— Eu devia ter perguntado antes. Naquela noite, perguntei. Vou continuar perguntando.
Quando a filha adormeceu, Caio chamou Helena e Natália para o monitor principal.
Ele havia localizado uma cadeia de pagamentos entre o fundo Espinheiro, seis sociedades imobiliárias e uma plataforma de apostas sediada em Curaçao. Os valores entravam como empréstimos, cruzavam compras de imóveis e retornavam à Europa com descrição de licenciamento tecnológico.
— Vinte por cento fica numa empresa ligada a Eleanor — disse Caio. — O restante volta para os operadores das apostas.
Natália examinou os números.
— Isso é lavagem de dinheiro.
— É indício forte. Prova vem com os extratos de origem e destino.
Helena apoiou as mãos na mesa.
— Se denunciarmos agora, ela dirá que fabricamos tudo para manter a empresa.
— E se esperarmos, ela congela o caixa amanhã às nove — respondeu Natália.
Davi ouviu o resumo por telefone e foi direto:
— Entreguem o material à força-tarefa financeira. Não invadam servidor, não plantem programa, não façam espetáculo. Peçam preservação urgente dos dados e bloqueio restrito às contas suspeitas.
— Ela vai executar a ordem antes de o juiz decidir — disse Helena.
— Então documentem a execução. O comando dela pode revelar o caminho que falta.
Às três da manhã, a equipe protocolou o pedido. Um juiz de plantão autorizou a preservação de registros e a criação de uma cópia forense das comunicações que transitassem pelos sistemas da empresa. O caixa de salários ficou protegido por uma conta vinculada.
Eleanor não soube.
Helena dormiu quarenta minutos numa poltrona da sala de auditoria. Ao acordar, encontrou uma mensagem da diretora financeira confirmando que a folha de pagamento fora processada pela conta protegida. Guardou a confirmação junto ao pedido judicial: antes de qualquer disputa familiar, havia pessoas esperando o salário.
Na manhã seguinte, entrou na sala do conselho acompanhada por quatro advogados. A chuva riscava as janelas. Helena estava na cabeceira, Natália à direita e Caio diante de um terminal espelhado, operado sob supervisão judicial.
Eleanor colocou o acordo sobre a mesa.
— Última oportunidade.
— Mostre que pode executar — respondeu Helena.
O advogado principal conectou um token e digitou a ordem de congelamento. Durante três segundos, nada aconteceu.
Então o painel exibiu duas mensagens simultâneas.
Na primeira:
TRANSFERÊNCIA RECUSADA — CONTA OPERACIONAL PROTEGIDA
.
Na segunda:
DADOS PRESERVADOS POR ORDEM JUDICIAL
.
Caio olhou para Helena.
— O comando abriu o caminho inteiro até Curaçao.
Do corredor veio o ruído de elevadores chegando ao andar.
Natália fechou a pasta e afastou o terminal.
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