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"A Câmera Viu Quem Feriu Minha Filha" Capítulo 2

正文开头

A segunda pancada abriu uma rachadura no batente.

Helena empurrou a escrivaninha contra a porta. O móvel avançou poucos centímetros sobre o piso de madeira, mas bastou para prender a folha quando Marcos tentou forçá-la de novo.

— Está falando com quem? — ele perguntou.

Davi ouviu tudo pelo viva-voz.

— A equipe está a caminho. Não provoque. Grave.

Helena iniciou a gravação de áudio no notebook. Marcos bateu com a palma aberta.

— Amanhã você transfere o dinheiro. Depois pode fazer seu teatro.

— Maia precisa de atendimento médico.

— Maia precisa aprender a não mexer no que não é dela.

O corredor ficou quieto. Pela câmera da tela, Helena viu Cláudia se aproximar e tocar o ombro dele. Os dois retornaram ao quarto principal.

Ela passou o restante da noite sentada no chão do quarto de Maia. A menina acordou duas vezes, assustada com ruídos da casa. Helena lhe deu água em pequenos goles, registrou a mudança de cor das lesões e manteve Davi informado por mensagens.

Às sete e vinte, ouviu o chuveiro da suíte. Às sete e meia, Marcos desceu.

Helena ajudou Maia a vestir um pijama largo e pediu que permanecesse no quarto com a porta trancada.

— Se alguém chamar, você pergunta o nome primeiro.

— Você vai voltar?

— Vou subir com uma médica.

Na cozinha, Marcos ocupava o banco central da ilha de mármore. Usava terno azul-marinho, camisa branca e um relógio caro. Cláudia estava à direita, com o robe de Helena fechado por um nó frouxo.

Comia morangos de uma tigela.

O vestido esmeralda havia sido colocado sobre uma cadeira, dentro de um saco transparente.

Marcos não levantou os olhos do tablet.

— Já iniciou a transferência?

Helena parou junto à pia e encheu um copo.

— Não vou transferir um centavo.

Ele pousou o tablet. A xícara de café tremeu quando sua mão bateu na bancada.

— O banco abre em meia hora. Dez mil dólares na conta dela ou suas malas e as de Maia estarão no jardim antes do almoço.

— Você pagou por esse vestido?

Cláudia lambeu o suco de morango do polegar.

— Foi um presente.

— De quem?

Marcos se levantou.

— Isso não é uma negociação.

Ele contornou a ilha pela esquerda. Helena permaneceu perto da pia, mantendo a bancada entre Cláudia e a saída. O pendrive pressionava sua pele sob a roupa.

— Sua filha é destrutiva e ciumenta — disse Marcos. — Se você continuar passando a mão na cabeça dela, vai criar uma mentirosa.

Cláudia escolheu outro morango.

— É uma pena. O vestido era lindo. Ações têm consequências, Helena.

Helena segurou o copo com as duas mãos.

— Você tem razão.

Cláudia parou com a fruta a poucos centímetros da boca.

O estrondo veio da entrada. A porta principal se abriu com uma ordem policial, seguida pelo impacto de um aríete contra a fechadura que Marcos instalara na semana anterior.

正文1

Passos atravessaram o hall.

Seis policiais entraram primeiro. Atrás deles vieram duas delegadas, Laura Brandão, do serviço de proteção à infância, e Davi. O irmão usava o mesmo terno da noite anterior, amarrotado nos cotovelos.

Marcos girou de imediato.

— Saiam da minha casa.

A delegada Renata Assis mostrou o mandado.

— Marcos Vilar, mantenha as mãos visíveis.

— Você sabe quem eu sou?

— Sei o nome que consta no mandado.

Dois agentes se aproximaram. Marcos tentou recuar para o corredor. Um deles segurou seu braço; o outro retirou o cinto da cintura e o colocou sobre a ilha.

A fivela bateu no mármore.

Cláudia desceu do banco e apertou o robe contra o corpo.

— Houve um mal-entendido. A menina destruiu uma peça de dez mil dólares. Marcos perdeu a cabeça, só isso.

— Onde está a criança? — perguntou Laura.

— No quarto, trancada — respondeu Helena. — Ela está segura comigo.

Laura pediu que uma policial a acompanhasse. Helena indicou a escada, mas Davi tocou de leve seu cotovelo antes que ela saísse.

— A prova?

Helena retirou o pendrive do forro interno da roupa e colocou na mão dele.

— Três cópias. Esta é uma delas.

Caio Nunes, perito indicado pela equipe, conectou o dispositivo a um notebook isolado. Calculou o código de verificação diante das delegadas e iniciou a reprodução sem alterar o arquivo.

Cláudia correu em direção à tela.

— Isso é gravação ilegal!

Renata bloqueou sua passagem com o antebraço.

— Fique onde está.

O vídeo mostrou a tesoura entrando no tecido. Uma conta verde rolou no carpete da gravação e, ao mesmo tempo, Helena viu outra conta presa na dobra do saco plástico sobre a cadeira.

Marcos deixou de se debater.

Cláudia apareceu derramando vinho e sorrindo para o espelho. Em seguida, puxou Maia pelos cabelos.

— Desliga isso — ela disse.

Caio não desviou os olhos.

— O arquivo segue até o fim.

O primeiro golpe soou pelos alto-falantes. Davi fechou a mão ao lado do corpo, mas não avançou. O décimo fez uma policial olhar para o teto.

No trigésimo, a cozinha inteira estava imóvel.

Marcos virou a cabeça na direção de Cláudia.

— Você disse que foi ela.

— Eu entrei em pânico.

— Você cortou o vestido.

— A costura estava abrindo. Eu ia devolver.

— Você me fez bater na minha filha.

Helena colocou o copo vazio na pia.

— Ela mentiu. A mão que segurava o cinto era sua.

Marcos procurou o rosto da esposa. Pela primeira vez desde a entrada dos policiais, pareceu notar que ela não estava chorando.

Cláudia tentou alcançar a bolsa sobre o balcão. Renata chegou antes, abriu o zíper com luvas e encontrou uma tesoura de cutícula com um fio verde preso à lâmina.

— Cláudia Reis, você também vai nos acompanhar.

— Eu não encostei o cinto nela!

— Você arrastou uma criança pelos cabelos, lançou o corpo dela contra um móvel e criou a situação que antecedeu a agressão. O restante será formalizado na delegacia.

As algemas fecharam. Cláudia olhou para Marcos, esperando uma defesa. Ele recuou o quanto os agentes permitiram.

Laura desceu a escada com Maia no colo. A menina vestia pijama e carregava o coelho de pano. A policial vinha logo atrás com uma bolsa de roupas.

Marcos ergueu a cabeça.

— Maia...

Ela enterrou o rosto no ombro da assistente social.

Davi ficou ao lado de Helena, sem abraçá-la enquanto os agentes ainda trabalhavam. Falou baixo:

— A equipe financeira vai preservar os bens discutidos no processo. Nada será congelado sem ordem judicial.

— Ele ameaçou nos expulsar.

— A ameaça está gravada. Sua casa, suas contas e a empresa serão tratadas nos autos. Hoje você só precisa sair daqui com ela.

Marcos ouviu.

— Essa empresa é minha.

— Então será fácil demonstrar — respondeu Davi.

Os policiais conduziram Marcos pelo hall. Do lado de fora, luzes vermelhas refletiam nos carros dos vizinhos. Cláudia saiu em outra viatura, ainda usando o robe branco.

Helena acompanhou Maia até a ambulância. A doutora Lívia Sampaio explicou cada movimento antes de examinar suas costas. Maia concordou com a cabeça, segurando dois dedos da mãe.

— Vamos fotografar as lesões e verificar se há fratura — disse a médica. — Você pode pedir para parar a qualquer momento.

Maia assentiu.

Quando a maca passou pela porta, Marcos estava sendo colocado no banco traseiro da viatura. Ele virou o rosto e encontrou a filha através do vidro.

Maia não se escondeu.

Ela olhou para ele até a porta do carro se fechar.

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