"A Câmera Viu Quem Feriu Minha Filha" Capítulo 1
O cinto caiu no carpete com a fivela virada para cima.
Helena ficou parada na porta do quarto de hóspedes, ainda com a chave do carro na mão. Maia estava sentada no chão, entre a cama e a cômoda, abraçada aos próprios joelhos. A saia verde que usara no jantar se espalhava ao redor das pernas.
O tecido escondia pouco. Acima da cintura, marcas altas atravessavam suas costas.
Cláudia ocupava a beirada da cama. Vestia um robe branco que Helena comprara em Paris no aniversário de casamento. Atrás dela, preso ao cabide, o vestido de seda verde-esmeralda pingava vinho sobre o tapete claro.
Marcos segurava a ponta do cinto.
— Sua filha destruiu o vestido — disse ele.
Helena soltou as chaves. Passou por Marcos e se ajoelhou diante da menina.
Maia ergueu o rosto. Os olhos estavam inchados, os lábios sem cor. Quando a mãe estendeu a mão, ela recuou até bater a nuca na lateral da cama.
Helena deixou a palma aberta entre as duas.
— Sou eu, meu amor.
A menina avançou de uma vez. Helena a recebeu contra o peito, apoiando uma mão na parte limpa do ombro e outra sob as pernas. Maia agarrou o tecido vermelho do vestido da mãe e escondeu o rosto.
Marcos deu um passo.
— Coloca ela no chão. Ainda não terminei.
Helena girou o corpo, cobrindo a filha. A fivela arrastou no carpete atrás dela.
— Quantas vezes você bateu nela?
— Trinta. Uma para cada mentira.
Cláudia baixou os olhos e alisou o robe sobre as coxas. Um sorriso pequeno puxou o canto da boca.
Helena encarou o marido. Nove anos antes, aquele homem esperara do lado de fora da sala de parto e chorara ao ouvir Maia pela primeira vez. Agora falava de trinta golpes como quem conferia uma fatura.
— Tire a mão de mim — disse Helena quando ele tentou agarrar seu braço.
Marcos apertou os dedos.
— Você vai transferir dez mil dólares para Cláudia amanhã cedo. Se não fizer, as malas de vocês vão para a calçada.
— Solta.
Ele aumentou a pressão.
Maia levantou a cabeça do ombro da mãe.
— Papai, está doendo nela.
Marcos afrouxou a mão por um segundo. Helena puxou o braço, atravessou o corredor e entrou no quarto da filha. Fechou a porta com o pé e girou a chave.
O trinco mal terminou de encaixar quando Maia começou a tremer.
Helena apagou a luz do teto. Acendeu apenas o abajur ao lado da cama, tirou os sapatos e se sentou com a menina no colo. Cada vez que o tecido tocava suas costas, Maia prendia o ar.
— Posso olhar onde machucou?
A menina conferiu a porta.
— Ele não entra?
— Não.
Maia assentiu. Helena levantou devagar a blusa branca. Contou as marcas sem encostar nelas.
Algumas já escureciam nas bordas. Uma linha mais funda começava abaixo da omoplata esquerda.
Ela pegou o celular, fotografou cada lesão e registrou a hora. Em seguida, mandou uma mensagem curta para a pediatra de Maia, sem citar Marcos pelo nome.
— Preciso saber o que aconteceu antes de seu pai entrar.
Maia apertou o coelho de pano contra a barriga.
— Eu estava brincando de esconde-esconde.
— Com quem?
— Sozinha. Fiquei embaixo da cama do quarto da tia Cláudia.
Helena não corrigiu o título. Desde que Marcos levara a amante para dentro da casa, seis semanas antes, Maia tentava encontrar uma palavra que não provocasse gritos.
— Ela entrou com uma taça — continuou a menina. — Pegou uma tesourinha da bolsa. Cortou o vestido e puxou as pedrinhas.
Depois jogou o vinho.
— Ela viu você?
— Eu bati o joelho na madeira.
Maia levou a mão aos cabelos. Seus dedos pararam numa região dolorida perto da raiz.
— Ela me puxou daqui. Bateu minhas costas na cômoda e começou a gritar. Quando o papai chegou, ela disse que fui eu.
— Você contou a verdade para ele?
— Contei. Ele disse que criança ciumenta mente.
Helena fechou os olhos por um instante. Maia encostou dois dedos no rosto dela.
— Mamãe?
— Estou aqui.
— Foi ela. A mulher loira.
— Eu acredito em você.
Maia chorou sem fazer barulho. Helena ficou com ela até o corpo pequeno perder a rigidez. Quando a respiração se alongou, cobriu a menina com uma manta leve e deixou o coelho perto de seu rosto.
No corredor, Marcos falava com Cláudia no quarto principal. A voz dele atravessava a parede em intervalos baixos. Helena ouviu a palavra "banco", depois uma risada feminina.
Ela seguiu para o escritório. Trancou a porta, tirou um estojo de metal do fundo da gaveta e abriu o notebook.
Dois meses antes, quando Marcos começara a levá-la a reuniões com psicólogos escolhidos por ele e a dizer que Helena confundia acontecimentos, ela procurara um investigador particular. Câmeras minúsculas, acionadas por movimento, haviam sido instaladas nos detectores de fumaça do corredor, da sala e do quarto de hóspedes. A câmera visível sobre a estante continuava desligada.
Marcos a verificara pessoalmente.
Helena digitou a senha do servidor criptografado. Escolheu a data e avançou até 19h15.
A imagem abriu com o quarto vazio.
Cláudia entrou usando o vestido esmeralda. Pousou a taça sobre a cômoda, observou o próprio reflexo e retirou uma tesoura de cutícula da bolsa. Cortou a lateral da peça perto do quadril.
Depois rasgou o bordado, deixando as contas rolarem pelo carpete.
Helena aproximou o rosto da tela.
Cláudia ergueu a taça e derramou o vinho sobre a seda. Sorriu para o espelho.
Um ruído veio debaixo da cama.
A mulher se abaixou, puxou Maia pelos cabelos e a lançou contra a cômoda. O impacto fez o porta-retratos tombar. Cláudia se afastou e gritou.
Marcos surgiu na porta sete segundos depois.
Helena manteve o vídeo rodando. A mão esquerda encontrou a borda da mesa e ficou ali enquanto a direita segurava o mouse. Contou os golpes pelo som.
No décimo segundo, Maia caiu de lado. No vigésimo, tentou proteger a cabeça. Cláudia permaneceu sentada na cama, observando.
O trigésimo golpe terminou. Marcos fechou o cinto. Cláudia cruzou as pernas.
Helena fez três cópias. Uma foi para um disco rígido guardado no cofre. Outra, para um serviço externo.
A terceira ficou num pendrive que ela colocou dentro do forro da bolsa.
Depois pegou o telefone.
O número continuava na memória, embora Marcos tivesse arrancado o aparelho de sua mão na última tentativa, seis anos antes, e prometido matá-la caso ligasse outra vez.
Chamou duas vezes.
— Helena?
A voz de Davi estava mais grave. O irmão não perguntou por que ela desaparecera. Esperou.
— Preciso que venha até aqui — disse Helena. — Traga a polícia, o Conselho Tutelar e quem mais for necessário.
— Você está ferida?
— Eu não. Marcos bateu em Maia com um cinto. Trinta vezes.
Do outro lado, ouviu-se uma cadeira arrastar.
— Onde ela está?
— Dormindo no quarto. A porta está trancada.
— Você consegue sair sem passar por ele?
Helena olhou para o corredor mostrado pela câmera de segurança. Marcos deixara o quarto principal e vinha em direção ao escritório.
— Não mais.
— Então não abre. Estou acionando uma delegada e a equipe de proteção. Fique na linha.
A maçaneta do escritório desceu.
Marcos tentou uma vez. Depois bateu com os nós dos dedos.
— Helena, abre essa porta.
Ela colocou o telefone no viva-voz, encaixou o pendrive dentro do sutiã e se afastou da entrada.
— Eu chego antes do amanhecer — disse Davi. — E ele vai responder por cada golpe.
Do lado de fora, Marcos parou de bater.
O silêncio durou três segundos.
Então a madeira estalou perto da fechadura.
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