"A Garçonete Que Se Sentou à Mesa do Rei do Porto" CAPÍTULO 6 — SETE MINUTOS SEM ELA
CAPÍTULO 6 — SETE MINUTOS SEM ELA
Leandro olhou para o pulso de Marina.
"A pulseira parou."
Ela apertou o botão lateral. Nenhuma luz respondeu.
Augusto falou baixo, sem alterar a expressão diante das câmeras.
"Há um bloqueador de frequência no prédio. Devem ativá-lo por setores."
Leandro tirou do bolso um pequeno transmissor e o prendeu por dentro da bolsa de Marina.
"Reserva analógica. Alcance curto."
"Você veio preparado para uma guerra", ela disse.
"Eu vim preparado para tirar você dela."
O salão do Instituto Atlântico ocupava um antigo armazém de café reformado. Lustres modernos pendiam das vigas originais, e as janelas davam para as luzes dos terminais do porto. Empresários, políticos e investidores circulavam entre mesas douradas, como se a noite não tivesse sido construída sobre uma ameaça.
Leandro manteve a mão na cintura de Marina.
Não era uma demonstração para os convidados. Seus dedos verificavam, a cada poucos segundos, se ela continuava ali.
"Otávio está na varanda norte", Augusto informou. "Dois filhos com ele. Nenhum sinal de Renato."
Marina avistou um homem grisalho segurando uma taça. Otávio Brandão sorriu na direção deles e ergueu o champanhe.
Leandro não respondeu.
"A enfermeira?", Marina perguntou.
"Ainda não localizada", disse Augusto.
O mestre de cerimônias pediu que os convidados se aproximassem do palco. As luzes diminuíram, e garçons atravessaram o salão com bandejas de espumante.
Uma mulher esbarrou em Marina.
"Desculpe", disse, derramando vinho no vestido.
Leandro puxou Marina para junto de si antes que a desconhecida pudesse tocá-la outra vez.
"Augusto."
O advogado já fotografava discretamente a mulher.
"Credencial legítima. Convidada de uma transportadora."
"Vou ao banheiro limpar isso", Marina disse.
"Nós vamos."
"Ao banheiro feminino?"
"Até a porta."
Dois seguranças de Leandro os acompanharam pelo corredor lateral. Na entrada do banheiro, Marina tentou sorrir.
"Eu volto em dois minutos."
Leandro segurou sua mão.
"Um minuto."
"Controlador."
"Vivo."
Ela entrou.
Uma funcionária uniformizada limpava o espelho. Outra saiu de uma cabine empurrando um carrinho com toalhas.
Marina molhou um pano e tentou remover a mancha. Pelo reflexo, viu a funcionária fechar a porta principal.
"O que está fazendo?"
A mulher do carrinho agarrou seus braços por trás. Um tecido úmido cobriu sua boca.
Marina prendeu a respiração e chutou para trás. Acertou uma canela, mas a primeira mulher segurou suas pernas.
Ela tentou alcançar o botão da pulseira. O aparelho continuava morto.
Uma agulha entrou em seu braço.
O teto girou.
Do lado de fora, Leandro contou sessenta segundos.
No sexagésimo primeiro, abriu a porta.
O banheiro estava vazio.
Uma janela de serviço permanecia aberta sobre a bancada. No chão, encontrou o pano azul que Marina usara para limpar o vestido.
"Fechem o prédio", ordenou.
"Não podemos bloquear mil convidados sem autorização", um chefe de segurança do instituto respondeu.
Leandro o prensou contra a parede com o antebraço saudável.
"A mulher que entrou aqui desapareceu. Você tem dez segundos para fechar as saídas ou eu fecho este lugar com todos dentro."
Augusto chegou correndo.
"A reserva analógica emitiu por três segundos. Corredor de serviço oeste. Depois caiu."
Leandro encontrou a janela estreita e passou por ela. Do outro lado havia uma despensa, uma porta de carga e marcas recentes de rodas no chão.
Uma pequena pedra azul brilhava junto ao rodapé.
O brinco de Marina.
Ele o fechou na mão.
"Ela está deixando um caminho."
Marina acordou com o gosto amargo do sedativo na garganta.
Seus pulsos estavam amarrados atrás das costas. Estava deitada no piso metálico de um elevador de carga, com as pernas presas por uma faixa plástica.
Renato se agachava diante dela.
"Eu avisei que não devia sair sem escolta."
Ela tentou se afastar.
"Leandro vai encontrar você."
"É o que esperamos."
Renato arrancou o outro brinco de sua orelha e o jogou no chão. Não percebeu que Marina já havia soltado o primeiro no corredor.
"Otávio quer falar com ele. Você é apenas o convite."
As portas se fecharam.
No corredor oeste, Leandro encontrou o segundo sinal: o salto quebrado de um sapato azul, preso sob uma porta corta-fogo.
Augusto tentou segui-lo.
"Pare", Leandro disse.
O celular descartável deixado sobre uma caixa começou a tocar.
Leandro atendeu.
Otávio apareceu na tela. Atrás dele, Marina estava amarrada dentro da cabine.
"Agora você entende", disse Otávio. "Rei nenhum governa quando alguém segura sua rainha pela garganta."
"Se tocar nela, não haverá lugar neste país onde possa se esconder."
"Setor de manutenção três. Sem Augusto, sem homens e sem arma. Se eu vir qualquer pessoa atrás de você, solto o freio."
A imagem mostrou o poço escuro sob a cabine.
"Leandro, não venha!", Marina gritou.
Renato a atingiu no rosto e a tela escureceu.
Leandro entregou a arma a Augusto.
"Isso é exatamente o que ele quer", o advogado disse. "Uma caixa fechada, câmeras desligadas e você ferido."
"Ele tem Marina."
"Se entrar sozinho, terá os dois."
Leandro tirou o relógio e o colocou na mão de Augusto. Pressionou duas vezes a coroa lateral.
"Se o ponteiro parar por sete minutos, corte a energia do setor e acione a polícia. Não antes."
"O sistema de emergência pode soltar a cabine."
"Então encontre uma forma de travá-la."
Augusto segurou seu braço.
"Leandro."
"Eu prometi que ela não cairia."
Ele seguiu sozinho.
O setor de manutenção ficava abaixo do salão principal, onde paredes novas davam lugar ao concreto do antigo armazém. Leandro passou por duas portas abertas e encontrou o terceiro sinal: uma gota de sangue no piso, próxima a outro fragmento do salto de Marina.
Não correu. Otávio esperava pânico.
Leandro guardou cada curva, cada câmera e cada ruído.
No fim do corredor, uma grade separava a passarela do poço de carga. Otávio estava do outro lado, protegido por dois homens armados. Renato segurava o controle do elevador.
Marina permanecia dentro da cabine, suspensa um andar abaixo. A porta fora retirada; atrás dela havia apenas escuridão.
"Solte-a", Leandro disse.
Otávio abriu os braços.
"O homem que fazia ministros esperarem agora chega no horário por causa de uma garçonete."
"Seu problema é comigo."
"Meu problema sempre foi sua recusa em dividir o porto. Ela apenas mostrou o preço certo."
Um dos homens recolheu a arma reserva escondida no tornozelo de Leandro.
Otávio colocou uma pasta no chão. Dentro havia documentos de transferência das concessões e procurações sobre a Vilar Logística.
"Assine."
"Primeiro, coloque a cabine no nível da passarela."
Renato pressionou o controle.
O elevador subiu alguns centímetros e parou. Marina ergueu o rosto. Havia uma marca vermelha em sua face, mas seus olhos estavam abertos.
"Leandro, não assine."
"Olhe para mim", ele disse.
Ela obedeceu.
"Eu vim buscar você. É a única coisa que importa."
Otávio empurrou os papéis pela grade.
"De joelhos. Assine como o homem derrotado que é."
Leandro se ajoelhou.
Marina sentiu o ar desaparecer de seus pulmões. Aquele homem não se curvara diante das armas do restaurante, de uma bala no ombro nem de todo o poder de Otávio.
Curvava-se agora por ela.
Ele pegou a caneta com a mão ferida.
"Quando eu assinar, ela sai."
"Quando assinar, talvez eu pense no assunto."
Leandro olhou para o relógio inexistente em seu pulso.
Cinco minutos.
Precisava manter Otávio falando por mais dois.
"Você não quer apenas as concessões", disse. "Quer o livro-caixa antigo."
O sorriso de Otávio diminuiu.
"Augusto encontrou as transferências feitas por seu pai", Leandro continuou. "Se eu morrer, tudo será entregue à Polícia Federal."
"Mentira."
"Mate-me e descubra."
Seis minutos.
Renato olhou nervosamente para o corredor.
"Chefe, precisamos terminar."
Otávio arrancou o controle de sua mão.
"Assine agora."
Leandro riscou a primeira página, prolongando cada letra.
Marina percebeu o que ele fazia. Não era rendição. Era tempo.
O sétimo minuto começou.
Otávio também entendeu.
"Você está esperando alguém."
Ele pressionou o botão vermelho.
As luzes da passarela se apagaram. Ao mesmo tempo, Augusto cortou a energia do setor.
Por uma fração de segundo, nada aconteceu.
Então o freio auxiliar do elevador estalou.
A cabine despencou.
Marina gritou.
Leandro atravessou a grade antes que os homens de Otávio reagissem. Recebeu um golpe nas costelas, empurrou o agressor contra o corrimão e se lançou sobre a borda do poço.
A cabine caía sob seus pés.
Ele agarrou o cabo de aço com as duas mãos.
O metal rasgou sua pele. Sangue escorreu por seus pulsos enquanto o peso do elevador o arrastava para a escuridão.
"Leandro!"
Marina viu o rosto dele acima da cabine, tenso de dor, os dedos se fechando sobre o aço que cortava até o osso.
Ele não soltou.
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