"A Garçonete Que Se Sentou à Mesa do Rei do Porto" CAPÍTULO 5 — NÃO SAIA DO MEU LADO
CAPÍTULO 5 — NÃO SAIA DO MEU LADO
"Leandro, quem entregou Marina a esses homens está dentro desta casa. E tem o mesmo nível de acesso que você."
O médico pediu que todos saíssem da sala improvisada na biblioteca, mas Leandro não respondeu.
Seus olhos continuaram presos ao tablet de Augusto. Seis credenciais tinham autorização para apagar o nome de um usuário no sistema. Duas pertenciam a homens que estavam fora do país. Uma era de Augusto. Outra, do próprio Leandro.
As duas restantes eram de Renato Farias e do diretor técnico da segurança.
"Suspenda todas", Leandro ordenou. "Inclusive a minha."
"Se fizermos isso agora, o traidor saberá que o encontramos."
"Ele já sabe que falhou. Quero descobrir para onde corre."
Marina ainda pressionava uma toalha contra o ombro dele.
"Você precisa ir para o hospital."
"A bala não ficou alojada."
"Isso não transforma um ferimento em arranhão."
O médico lançou a ela um olhar agradecido.
"A senhorita tem razão."
Leandro enfim desviou a atenção do tablet.
"Cinco minutos", disse a Augusto. "Depois faça o que for necessário."
O advogado saiu para organizar a investigação. Marina permaneceu enquanto o médico limpava o ferimento. Cada vez que a gaze tocava a pele aberta, os músculos das costas de Leandro se contraíam, mas ele não emitia som.
"Pode apertar minha mão", Marina murmurou.
"Não preciso."
"Claro. O rei do porto também não sente dor."
Ele ergueu os olhos.
"Você continua me chamando assim."
"E você continua sangrando nos meus turnos."
Por um instante, a sombra de um sorriso apareceu no rosto dele.
Depois Leandro percebeu a mala caída além da porta.
"Você realmente pretendia ir embora."
Marina baixou os olhos para as próprias mãos, ainda manchadas com o sangue dele.
"Desde que me conheceu, levaram tiros no seu restaurante, invadiram sua casa e quase o mataram na garagem."
"Nada disso começou com você."
"Mas agora usam meu rosto para chegar até você."
"E é exatamente por isso que não deve sair sozinha."
"Não quero ser sua fraqueza."
Leandro segurou o pulso dela, apesar da advertência do médico para não se mover.
"Você não escolheu isso. Eu também não. Mas não vou fingir que você deixou de importar só porque Otávio percebeu."
A voz dele não continha ameaça nem ordem. Apenas uma verdade que Marina ainda não sabia como suportar.
"Fique até encontrarmos o traidor", ele pediu. "Depois, se quiser partir, eu mesmo levo você aonde escolher."
Era a primeira vez que Leandro não decidia por ela.
Marina assentiu.
"Eu fico."
Nas horas seguintes, Augusto transformou a sala de segurança em um centro de investigação. Técnicos clonaram os registros antes que alguém pudesse apagá-los. As armas foram conferidas, os turnos refeitos e cada funcionário chamado separadamente.
Marina não participou dos interrogatórios.
Ficou com Leandro no quarto, trocando o gelo de seu ombro e impedindo que ele atendesse ligações de trabalho.
"Você não pode confiscar meu telefone", ele protestou.
"Posso se quiser que a febre baixe."
"Está no meu contrato?"
"Acabei de acrescentar."
Ele fechou os olhos, vencido pelo analgésico.
Marina levou uma bandeja até a janela: caldo de mandioca, pão fresco e café. Leandro comeu metade sem discutir. Quando o cansaço finalmente o dominou, seus dedos continuaram fechados ao redor do pulso dela.
Ela não tentou se soltar.
Augusto entrou quase uma hora depois e parou ao vê-los. Marina fez sinal para que falasse baixo.
"Encontraram alguma coisa?"
"A credencial foi usada a partir do terminal de Renato. Ele diz que o aparelho foi clonado."
"Pode ser verdade?"
"Pode. Também pode ser uma mentira excelente."
Leandro abriu os olhos.
"Onde ele está?"
"Na sala de monitoramento. Pedi que ninguém o confrontasse."
Leandro tentou se levantar. Marina colocou a mão em seu peito.
"Nem pense nisso."
"Marina."
"Mande Augusto fazer o trabalho dele."
Augusto quase sorriu.
"Conselho sensato. Além disso, encontramos uma duplicação física de cartão. Está escondida atrás de uma atualização do sistema. Preciso de mais uma hora para provar qual aparelho a autorizou."
Quando Augusto se virou para sair, Renato apareceu no corredor.
"Senhor Vilar, precisamos transferi-lo para o quarto seguro", disse. "Ainda não sabemos se há outro ataque previsto."
Marina sentiu primeiro o perfume.
Madeira queimada, couro e uma nota amarga de cedro.
O mesmo cheiro que ficara em seu avental quando o homem do posto de gasolina a agarrara por trás.
Ela não pensou em provas nem em sistemas. Apenas sentiu o estômago se fechar.
"Esse perfume..."
Renato olhou para ela.
"Perdão?"
"O homem que tentou me levar no posto usava o mesmo."
O rosto de Renato permaneceu calmo, mas sua mão direita desceu alguns centímetros em direção ao paletó.
Augusto percebeu.
"Não faça isso."
Renato puxou a arma.
Leandro derrubou Marina no colchão e cobriu seu corpo antes do primeiro disparo. A bala atingiu a moldura da porta.
Augusto se jogou atrás da parede. Dois seguranças responderam do corredor.
Renato recuou, disparou contra o painel de controle e correu para a escada de serviço.
Leandro tentou persegui-lo, mas o ferimento abriu sob a faixa.
"Fique!", Marina gritou, segurando-o.
Ele olhou para a porta, dividido entre a caça e a mulher que tremia sob suas mãos.
Escolheu Marina.
"Fechem os portões", ordenou pelo rádio. "Renato está armado. Não atirem se puderem capturá-lo. Quero o telefone dele."
Renato conhecia cada rota da propriedade. Abandonou o paletó, atravessou a área de serviço e escapou por um túnel de drenagem antes do bloqueio completo.
Mas deixou o celular secundário no armário da sala de monitoramento.
Augusto retornou vinte minutos depois com o aparelho dentro de um saco transparente.
"Havia uma cópia do cartão mestre, fotografias de Marina, o endereço antigo da clínica e mensagens codificadas. Também encontramos uma credencial temporária para o Instituto Atlântico."
"A gala de amanhã", Leandro disse.
"Otávio quer que você apareça."
"Não vou."
A resposta foi imediata.
"Se eu não estiver lá, ele perde a oportunidade de me cercar. Marina fica aqui, com proteção dobrada."
O telefone de Augusto tocou.
Ele atendeu, ouviu por alguns segundos e empalideceu.
"A enfermeira responsável por Caio não chegou em casa. O carro foi encontrado perto da rodovia."
Marina levantou-se.
"Meu irmão está seguro?"
"Sim. A equipe fechou a ala. Mas a família da enfermeira recebeu isto."
Augusto mostrou uma fotografia enviada por número desconhecido. A mulher estava amarrada a uma cadeira, segurando um cartão da gala.
No verso, lia-se:
Vilar comparece. Sozinho. Ou ela morre antes do brinde.
"Eu vou", Leandro disse.
"Você mal consegue mover o braço", Marina respondeu.
"Então Otávio vai achar que estou fraco. É isso que ele quer."
"Não pode ir sozinho."
"Posso e vou."
Marina segurou o rosto dele, forçando-o a encará-la.
"Se querem usar pessoas invisíveis, alguém precisa perceber quando uma desaparece. Eu trabalhei em eventos daquele instituto. Conheço as entradas de serviço. Vou com você."
"Não."
"A enfermeira foi levada porque cuidava do meu irmão. Não vou ficar trancada esperando."
Leandro fechou os olhos por um instante.
"Você não sai do meu lado. Nem por um segundo."
Horas depois, no quarto de Helena, uma estilista ajustou em Marina um vestido azul-escuro. Sob o tecido, havia uma camada fina de fibra balística cobrindo o peito e as costas.
Leandro dispensou a equipe e se ajoelhou diante dela.
Com a mão saudável, fechou uma pulseira preta em seu pulso.
"Localizador. Botão de emergência aqui. Se eu disser para correr, você corre."
"E se você estiver ferido?"
"Você corre mesmo assim."
Ele levantou os olhos. O medo que escondia de todos estava inteiro ali.
"Prometa."
Marina tocou o rosto dele.
"Prometo tentar."
Leandro se levantou e encostou a testa na dela, sem beijá-la.
"Não saia do meu lado."
No Instituto Atlântico, câmeras e detectores cercavam a entrada principal. Augusto passou primeiro. Leandro manteve Marina junto ao corpo enquanto o segurança escaneava os convites.
A pulseira vibrou uma vez.
Depois, apagou.
No relógio de Leandro, o ponto azul que marcava Marina desapareceu.
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