"A Garçonete Que Se Sentou à Mesa do Rei do Porto" CAPÍTULO 4 — A ÚNICA FRAQUEZA DO REI
CAPÍTULO 4 — A ÚNICA FRAQUEZA DO REI
Ao amanhecer, a fotografia ainda estava sobre a mesa do escritório.
Leandro permanecia de pé diante da janela, enquanto Augusto analisava os registros de acesso. Um médico já havia refeito os pontos de seu braço, mas a camisa preta escondia a faixa.
Marina se sentava no sofá com uma xícara fria entre as mãos.
"Caio precisa sair da clínica", Leandro disse.
"Ele acabou de começar a confiar na equipe. Uma mudança pode fazê-lo piorar."
"Há uma unidade associada em São Paulo. O médico dele vai acompanhar a transferência."
"E se encontrarem esse lugar também?"
"Não vão encontrar."
"Disseram isso sobre esta casa."
O silêncio ficou pesado.
Augusto fechou o tablet.
"A câmera da ala leste ficou cega durante sete minutos. Alguém com credencial interna alterou o sistema."
Leandro virou-se para ele.
"Quantas pessoas têm esse nível?"
"Seis. Incluindo nós dois e Renato."
Marina olhou de um para o outro.
"Então não existe lugar seguro."
Leandro se aproximou.
"Existe. Ao meu lado."
As palavras deviam tranquilizá-la. Em vez disso, apertaram algo dentro de seu peito.
Ele já fora ferido duas vezes desde que ela aparecera em sua vida. Caio estava sendo transferido. Homens invadiam uma fortaleza apenas para chegar até ela.
Naquela tarde, Marina fez uma pequena mala.
Não escreveu bilhete. Não queria que Leandro a convencesse a ficar nem que transformasse sua partida em outra ordem.
Uma funcionária dissera que um carro de aplicativo poderia entrar pela garagem de serviço sem passar pelo portão principal. Quando Marina chegou ao elevador, Renato Farias estava no corredor.
O chefe da segurança tinha quarenta e poucos anos, barba aparada e um sorriso que nunca chegava aos olhos.
"Vai sair, senhorita Nogueira?"
"Só por algumas horas."
"O senhor Vilar sabe?"
"Não preciso de autorização para respirar."
Renato pressionou o botão do elevador.
"Claro que não. Seu carro já chegou. A câmera lateral está em manutenção, então o motorista entrou pela rampa."
Marina hesitou.
"Como sabe que pedi um carro?"
As portas se abriram.
"A segurança recebe todos os avisos."
Ela entrou.
Na garagem, um sedã cinza esperava com o motor ligado. O motorista abaixou o vidro.
"Marina?"
O aplicativo no celular dela mostrava um carro branco.
Marina parou.
"A placa não é a mesma."
O motorista abriu a porta.
Outro homem surgiu atrás de uma coluna.
Marina soltou a mala e correu para o elevador. Apertou o botão, mas as portas não abriram.
"A câmera está desligada", disse o segundo homem. "Ninguém vai ver."
Ela gritou e correu entre os veículos.
Uma mão agarrou sua blusa. Marina se debateu, chutou, tentou morder, mas o homem a arrastou em direção ao sedã.
"Leandro!"
No escritório, dois andares acima, Leandro entrou no quarto vazio e viu o armário aberto.
O rádio em seu cinto chiou.
"Senhor, perdemos a câmera da garagem lateral."
"Há quanto tempo?"
"Sete minutos."
Leandro não esperou o elevador.
Desceu a escada de serviço correndo, ignorando a dor no braço. Quando atravessou a porta corta-fogo, viu Marina sendo empurrada para o banco traseiro.
"Solte-a!"
O homem atrás dela girou e disparou.
Leandro alcançou Marina no mesmo instante. Puxou-a contra o peito e virou o corpo.
O impacto o fez recuar.
Por um segundo, Marina não entendeu. Depois viu o vermelho se espalhar abaixo do ombro dele.
"Leandro..."
Ele a empurrou para trás de uma caminhonete blindada.
"Abaixe-se."
O motorista arrancou com o sedã. O segundo homem avançou, mas Leandro o atingiu antes que levantasse a arma. A luta foi curta, brutal e silenciosa.
Quando os seguranças chegaram, o sequestrador estava no chão e Leandro ainda permanecia entre ele e Marina.
"Fechem todas as saídas", ordenou. "Ninguém deixa a propriedade."
Só então seus joelhos cederam.
Marina o segurou antes que caísse completamente.
"Você levou um tiro."
"De raspão."
"Está sangrando muito."
Ele tocou o rosto dela, procurando ferimentos.
"Ele machucou você?"
"Pare de perguntar por mim!"
Marina pressionou as mãos contra o ombro dele. O sangue atravessou seus dedos.
"Por que fez isso?"
"Porque a bala vinha na sua direção."
"Podia ter morrido."
"Mas você não morreu."
Augusto chegou acompanhado do médico e de mais quatro homens. Mesmo assim, Leandro não soltou Marina.
Renato apareceu por último, vindo da rampa inferior. Estava sem o paletó e respirava depressa.
"A equipe do portão leste perdeu o sedã", informou. "Eles trocaram de carro na avenida."
Leandro ergueu os olhos para ele.
"Como entraram na garagem?"
"Usaram uma autorização temporária. Estou verificando quem liberou."
Marina reconheceu o tom educado de quem a encontrara junto ao elevador. Pensou em contar que Renato já sabia do carro antes de ela chegar, mas o médico pressionou a ferida de Leandro e ele quase perdeu a consciência.
Ela engoliu as palavras. Poderia estar confundindo cuidado profissional com algo suspeito. Naquela casa, todos pareciam saber mais sobre seus movimentos do que ela própria.
Renato olhou para a mala caída no concreto.
"A senhorita não devia ter saído sem escolta."
Leandro respondeu antes dela.
"Não fale com ela como se a culpa fosse dela. Descubra quem abriu o portão."
O chefe da segurança baixou o rosto.
"Sim, senhor."
"Eu estava indo embora", ela confessou. "Achei que, se desaparecesse, eles deixariam você em paz."
A dor endureceu o rosto dele, mas não foi apenas a dor do ferimento.
"Nunca faça isso de novo."
"O senhor não pode me prender aqui."
"Não posso."
Leandro respirou fundo. A voz perdeu a autoridade e revelou algo muito mais perigoso.
Medo.
"Mas você é a única pessoa que eu não posso perder, Marina."
Ela ficou imóvel.
Ao redor deles, homens armados corriam, portões fechavam e ordens eram gritadas nos rádios. Ainda assim, por alguns segundos, só existiram os olhos escuros de Leandro e a mão ensanguentada dele sobre a sua.
O médico tentou afastá-la.
Leandro apertou seus dedos.
"Ela fica."
Marina permaneceu ao lado dele enquanto cortavam a camisa e tratavam o ferimento.
Augusto aproximou-se com o tablet na mão.
"Temos o registro da câmera. Ela não falhou. Foi desligada com uma credencial mestre."
Leandro olhou para a tela.
"De quem?"
"O sistema ocultou o nome. Só seis pessoas poderiam fazer isso."
Augusto baixou a voz.
"Leandro, quem entregou Marina a esses homens está dentro desta casa. E tem o mesmo nível de acesso que você."
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