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"A Garçonete Que Se Sentou à Mesa do Rei do Porto" CAPÍTULO 3 — ATRÁS DOS MUROS DELE

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CAPÍTULO 3 — ATRÁS DOS MUROS DELE

A casa de Leandro Vilar não parecia uma casa.

Erguia-se sobre uma encosta do Guarujá, cercada por muros de pedra, câmeras e árvores tão densas que escondiam o mar. Os portões se abriram antes de o carro parar, e homens armados acompanharam a entrada com os olhos.

Marina apertou contra o corpo a camisa que Leandro havia colocado sobre seus ombros.

"Quanto tempo vou ficar aqui?"

"Até eu descobrir quem deu seu nome a Otávio Brandão."

Foi a primeira vez que ela ouviu o nome do inimigo.

"E quem é ele?"

"Um homem que acredita que tudo pode ser comprado."

"Inclusive pessoas?"

Leandro olhou para a marca no rosto dela.

"Principalmente pessoas."

Um senhor de cabelos grisalhos os esperava no hall. Usava terno escuro e segurava um tablet contra o peito.

"Marina Nogueira, este é Augusto Sampaio, meu advogado."

"Advogado, conselheiro e, nas noites ruins, babá de homens adultos", Augusto corrigiu.

Leandro ignorou o comentário.

"Caio foi transferido para uma ala reservada. Dois agentes de segurança ficarão do lado de fora, e o diretor da clínica recebeu uma lista de pessoas autorizadas."

Marina parou no meio do piso de mármore.

"Quanto isso vai custar?"

"Nada para você", disse Leandro.

"Não aceito."

Ele se virou.

"Seu irmão corre perigo por minha causa."

"Isso não lhe dá o direito de comprar a nossa vida."

Augusto ergueu discretamente as sobrancelhas, como se ninguém usasse aquele tom naquela casa.

Leandro se aproximou até Marina precisar levantar o rosto.

"Não estou comprando nada. Estou corrigindo um risco que me pertence."

"Então me dê um trabalho."

"Você quase foi sequestrada há menos de uma hora."

"E continuo devendo aluguel."

"Você não vai voltar para aquele apartamento."

"Nesse caso, devo ainda mais."

Por alguns segundos, ouviram apenas a chuva nas janelas altas.

"O cargo de assistente residencial está vago", Augusto disse. "Salário de quinze mil reais, registro, plano de saúde e folgas definidas."

Marina o encarou.

"Isso existe mesmo ou o senhor acabou de inventar?"

"Existe agora."

Leandro lançou um olhar impaciente ao advogado, mas não recusou.

"Amanhã você lê o contrato", disse. "Esta noite, descansa."

Augusto conduziu Marina ao andar superior. A suíte ficava na ala leste e tinha paredes claras, varanda sobre o oceano e uma fotografia antiga sobre a cômoda.

Na imagem, um Leandro adolescente estava ao lado de uma mulher elegante, ambos sérios demais para uma tarde de sol.

"Era a mãe dele?"

"Dona Helena", respondeu Augusto. "Este quarto era dela. Ninguém dorme aqui desde que morreu."

Marina voltou-se para a porta, surpresa.

Leandro já havia desaparecido pelo corredor.

Na manhã seguinte, o contrato estava sobre a mesa do café. Marina leu cada página, perguntou sobre horários, folgas e a possibilidade de visitar Caio aos domingos.

Leandro concordou com tudo sem discutir.

Nos quatro dias seguintes, ela descobriu que sua função era menos luxuosa do que parecia.

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A despensa estava cheia de comida vencida. A governanta anterior havia pedido demissão. Os funcionários falavam baixo, esperando ordens que quase nunca chegavam.

E Leandro simplesmente não comia.

Saía antes do amanhecer, voltava depois da meia-noite e deixava intocados os pratos que Marina pedia à cozinha.

Na quinta noite, ela acordou com sede e encontrou luz sob a porta da cozinha.

Leandro estava sentado junto à ilha central, com um copo de uísque diante de si. A gravata pendia do bolso, e havia sangue escurecendo a manga de sua camisa.

"O senhor está ferido."

Ele levantou a cabeça depressa. A mão foi até a cintura antes de reconhecê-la.

"Volte para o quarto."

Marina acendeu a luz.

"Isso precisa ser limpo."

"Já foi."

"Por alguém que odeia o senhor?"

Leandro olhou para o próprio braço. Um curativo malfeito aparecia sob o tecido rasgado.

Marina pegou a caixa de primeiros socorros. Não era enfermeira, mas o curso técnico interrompido lhe ensinara o suficiente para perceber que a sutura precisava ser avaliada por um médico.

"Eu só vou limpar e cobrir. Depois o senhor chama alguém competente."

"Você está me chamando de incompetente?"

"Neste assunto, sim."

Ele permitiu que ela abrisse a manga.

O corpo de Leandro carregava marcas antigas: uma cicatriz abaixo da clavícula, outra junto às costelas, sinais de uma vida que nenhuma fotografia de jornal mostrava.

Marina limpou o sangue em silêncio.

"Por que não pergunta o que aconteceu?", ele disse.

"Porque o senhor provavelmente não vai responder."

"E mesmo assim ficou."

"Estou trabalhando."

"Às duas da manhã?"

Ela terminou o curativo.

"Alguém precisa lembrar o grande rei do porto de que ele também sangra."

Leandro segurou o pulso dela antes que se afastasse.

O toque não doeu. Foi firme e quente.

"Não me chame assim."

"De rei?"

"De grande."

Marina sorriu sem querer.

Ele levantou a mão livre e afastou uma mecha do cabelo dela. Seus dedos roçaram a linha do curativo em seu rosto.

"Ainda dói?"

"Menos do que ontem."

"Eu devia ter chegado antes."

"O senhor chegou."

A distância entre os dois diminuiu. Marina percebeu que Leandro olhava para sua boca.

O painel de segurança emitiu um alarme agudo.

Uma luz vermelha acendeu sobre a porta.

Leandro soltou o pulso dela e se transformou diante de seus olhos. A fragilidade desapareceu; sua expressão ficou fria.

"Ala leste", anunciou uma voz no rádio. "Janela violada."

O quarto de Marina.

Leandro puxou uma arma da parte de trás da calça.

"Fique aqui com Augusto."

"Ele não está aqui."

O som de vidro quebrando veio do andar superior.

Leandro a empurrou para dentro da despensa e fechou a porta.

"Não saia."

Passos atravessaram o corredor. Houve um disparo, depois outro.

Marina cobriu a boca para não gritar.

A maçaneta da despensa girou.

A porta se abriu de repente.

Um homem de capuz entrou e agarrou Marina pelo braço.

Ela tentou se soltar, mas ele a lançou contra as prateleiras. Frascos caíram ao redor dos dois.

"É ela", o invasor disse ao rádio. "Estou com a garota."

Marina arranhou a mão dele e recebeu um golpe no estômago.

O homem a puxou para o corredor.

Não conseguiu dar o segundo passo.

Leandro surgiu atrás dele, prendeu seu pescoço com o antebraço e o arrancou de perto dela. O invasor tentou erguer a arma, mas Leandro torceu seu pulso até o metal cair no chão.

Dois movimentos depois, o homem estava imobilizado.

Leandro chutou a arma para longe e se colocou diante de Marina.

"Olhe para mim."

Ela pressionava o abdômen, tentando respirar.

"Marina, ele machucou você?"

"Só... perdi o ar."

Leandro segurou seu rosto com as duas mãos. Havia sangue novo atravessando o curativo no braço dele, mas ele parecia não sentir.

"Eu mandei você ficar escondida."

"Ele abriu a porta."

"Não estou culpando você."

A voz saiu baixa, quase quebrada.

Seguranças invadiram o corredor e algemaram o homem. Augusto se ajoelhou ao lado do casaco abandonado pelo invasor.

"Leandro."

Ele retirou uma fotografia do bolso interno.

Era Marina diante da Clínica Horizonte, feita na madrugada anterior.

No verso, alguém havia escrito uma frase em tinta preta:

Agora sabemos onde ferir o rei.

 

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