"A Garçonete Que Se Sentou à Mesa do Rei do Porto" CAPÍTULO 2 — ELE VEIO ME BUSCAR
CAPÍTULO 2 — ELE VEIO ME BUSCAR
Marina não foi para casa.
À uma e vinte da madrugada, entrou na Clínica Horizonte ainda usando a camisa branca manchada de sangue. A recepcionista arregalou os olhos, mas Marina colocou o envelope sobre o balcão antes que viessem as perguntas.
"Quero pagar as duas mensalidades atrasadas do Caio. E deixar o próximo mês adiantado."
"Marina, de onde veio esse dinheiro?"
"De uma noite muito ruim."
Ela não contou as notas duas vezes. Se esperasse demais, talvez o orgulho a fizesse devolvê-las.
Caio dormia quando ela entrou no quarto. Aos vinte anos, parecia mais novo sob a luz azulada, com o rosto magro e as mãos quietas sobre o lençol.
Marina ajeitou o cobertor do irmão.
"Você vai sair dessa", sussurrou. "Mesmo que eu precise trabalhar até cair."
O médico insistiu em examinar o corte de seu rosto. Quando terminou, já passava das duas e meia.
Marina guardou o restante do dinheiro na bolsa e foi até o ponto de ônibus. O cartão de Leandro continuava no bolso do avental.
Ela não ligou.
Não queria outro favor daquele homem.
O último ônibus estava quase vazio. Marina se sentou perto do motorista e observou a chuva transformar as luzes de Santos em manchas compridas no vidro.
Na terceira parada, dois homens subiram.
Nenhum deles passou o cartão na catraca. Um mostrou algo ao motorista e ambos ficaram de pé.
Marina reconheceu o mais baixo. Ele estivera perto da porta do Maré Alta, filmando o salão com o celular segundos antes dos disparos.
Seu estômago se contraiu.
Ela apertou o botão de parada.
Desceu antes de sua rua e correu sob a chuva. Os passos vieram atrás.
Marina tirou o celular da bolsa e tentou ligar para a polícia. A tela molhada não reconheceu seus dedos. Ela entrou num antigo posto de gasolina, fechado havia meses, e empurrou a porta lateral do galpão.
O interior cheirava a ferrugem e óleo.
Ela tentou fechar a porta, mas uma mão a impediu.
"Não dificulte", disse o homem mais alto.
Marina recuou até bater num balcão velho.
"Eu não sei nada sobre Leandro Vilar."
"Mas ele sabe quem você é. Isso basta."
O segundo homem tomou o celular dela e o jogou no chão.
"Por que ele mandou tirarem você do restaurante?"
"Porque ele é um desgraçado."
O tapa veio rápido. Marina caiu de joelhos, com gosto de sangue na boca.
"Resposta errada."
O homem segurou seu cabelo e a obrigou a levantar o rosto.
"Vamos perguntar de novo. Qual é a fraqueza de Vilar?"
"Eu servi água para ele uma vez."
"Então vai servir de recado."
O outro abriu a porta de uma van estacionada nos fundos.
Marina chutou o joelho do homem que a segurava e correu. Conseguiu alcançar a antiga loja de conveniência antes que ele a puxasse pelo avental.
O tecido rasgou.
Ela agarrou uma prateleira, derrubando latas vazias e poeira.
"Socorro!"
O rugido de um motor respondeu do lado de fora.
Um veículo preto atravessou a corrente enferrujada da entrada e parou a poucos metros da van.
As portas se abriram antes que os pneus parassem de girar.
Leandro Vilar saiu primeiro.
Não usava terno. Vestia camisa preta, mangas dobradas até os antebraços, e trazia nos olhos uma fúria tão controlada que pareceu mais perigosa que qualquer grito.
"Solte-a."
O homem puxou Marina contra o peito e encostou uma arma em sua têmpora.
"Mais um passo e ela morre."
Leandro parou.
"Você tem três segundos para tirar essa arma dela."
"Acha que está dando ordens?"
"Três."
Dois seguranças contornaram o galpão, invisíveis para os sequestradores.
"Dois."
O homem apertou o cano contra a pele de Marina.
Ela fechou os olhos.
Ouviu um estampido curto.
O braço ao redor de seu pescoço afrouxou. Leandro a alcançou antes que ela caísse e a puxou para trás do próprio corpo.
Os seguranças dominaram o segundo homem junto à van.
Um terceiro veículo freou do outro lado da avenida. O motorista avaliou a cena e tentou fugir.
Leandro nem sequer se virou.
"Augusto, sedã azul, sentido centro."
A voz do advogado respondeu pelo ponto eletrônico.
"A placa já está sendo acompanhada."
Marina percebeu então que Leandro não chegara por acaso. Havia carros fechando as ruas laterais e um homem fotografando a van sem tocar em nada. Enquanto ela tremia, a equipe dele preservava cada rastro.
"Eles vão voltar?", perguntou.
"Esses dois, não."
"Não foi isso que perguntei."
Leandro demorou um instante.
"Enquanto Brandão acreditar que você sabe alguma coisa, ele continuará tentando."
"Mas eu não sei."
"Homens como ele não precisam de certeza. Precisam de uma pessoa que possam usar."
"Acabou", Leandro disse perto do ouvido dela. "Você está comigo."
Marina tremia tanto que não conseguia responder.
Ele tirou a camisa social que vestia sobre a camiseta e envolveu os ombros dela. O tecido estava quente.
"Como sabia onde eu estava?"
"A clínica ligou para o número do cartão quando você chegou ferida. Augusto rastreou o seu ônibus depois que você não respondeu."
"O senhor mandou me demitir."
"Eles viram seu rosto no restaurante. Se voltasse amanhã, ficaria parada no mesmo lugar esperando que terminassem o serviço."
"Podia ter me contado."
O maxilar dele se contraiu.
"Podia."
Foi a primeira vez que Marina ouviu Leandro Vilar admitir um erro.
Ele tocou com o polegar a marca vermelha deixada pelo tapa.
"Quem fez isso?"
Marina apontou para o homem no chão.
Leandro olhou para ele. O sequestrador empalideceu.
"Levem os dois para Augusto. Vivos."
Depois abriu a porta do carro para Marina.
"Eu vou para casa."
"Seu endereço estava no celular deles. O da clínica também."
Ela sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
"Caio..."
"Já está protegido. Ninguém se aproxima dele sem passar pelos meus homens."
"Por quê?"
Leandro ficou em silêncio por um momento. A chuva escorria por seu cabelo e pela linha dura do rosto.
"Porque você me avisou quando podia ter corrido. Porque eles tocaram em você por minha causa."
Ele estendeu a mão.
"E porque isso não vai acontecer de novo."
Marina olhou para a mão dele, depois para a escuridão além do posto.
"Para onde está me levando?"
"Para o único lugar que consigo proteger."
"Isso foi um convite?"
"Não. Foi uma promessa."
Leandro esperou até que ela aceitasse sua mão.
"Esta noite, Marina, você vem comigo."
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