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"Ela Foi Demitida por Salvar uma Vida" Capítulo 9 — Nenhuma Proteção É de Graça

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Capítulo 9 — Nenhuma Proteção É de Graça

Caio caiu de joelhos.

O segundo disparo atingiu a parede quando Ravi avançou pela lateral. Os agressores abandonaram a garagem sob o som de sirenes que já se aproximavam.

Lívia correu até Caio.

O sangue surgia abaixo da clavícula direita, escurecendo a camisa. Ele tentou se levantar.

"Fique no chão."

"Eles ainda estão aqui."

"E você está sangrando. Ravi cuida deles. Eu cuido de você."

Lívia pressionou o ferimento e procurou saída nas costas. Não encontrou. Caio respirava, mas cada inspiração parecia mais difícil.

"Ambulância oficial", ordenou ela. "Nada de clínica secreta."

Ravi hesitou.

"O Santa Augusta é o mais próximo."

"Então é para lá que vamos. Ligue para o atendimento de emergência, informe ferimento por arma de fogo e diga que o caso está vinculado ao procedimento federal desta noite. Quero o chamado gravado."

Caio segurou seu punho.

"A chave?"

"Você já a entregou."

"Precisava tirar você da mira."

"Quase morreu fazendo isso."

"Funcionou."

"Não ouse parecer satisfeito."

A ambulância entrou na garagem. Lívia fez a passagem do caso e acompanhou Caio. Quando chegaram ao Santa Augusta, câmeras e repórteres já ocupavam a entrada.

Durante o trajeto, a pressão dele caiu. Lívia manteve oxigênio, avaliou o movimento do tórax e marcou com caneta o avanço de uma mancha roxa próxima à clavícula.

"Não durma", disse.

"Você disse isso ao Tomás também?"

"Ele foi um paciente mais obediente."

"Mentira."

Apesar da dor, Caio encontrou forças para sorrir. Então a saturação caiu, e o monitor transformou o instante de leveza em urgência.

Lívia pediu à equipe que preparasse material para descompressão caso o pulmão piorasse. Não executou o procedimento médico, mas antecipou cada item, evitando que os segundos fossem perdidos na chegada.

Heitor havia retornado antes deles e tentava impedir a admissão.

"Este hospital não dispõe de segurança para receber Caio Ferraz", disse à equipe. "Encaminhem para outra unidade."

Lívia desceu da ambulância com as mãos cobertas de sangue.

"Paciente com possível hemotórax, instável e trazido pelo serviço de emergência. Recusar atendimento agora será registrado diante de todas essas câmeras."

"Você não trabalha mais aqui."

"Não preciso trabalhar aqui para saber que ele tem direito à estabilização."

Ela se virou para Bruno, que transmitia da calçada.

"Registre o horário: 23h16. O diretor executivo está tentando impedir atendimento emergencial a um homem baleado."

Heitor recuou quando os próprios médicos abriram passagem.

Um administrador tentou confiscar o celular de Bruno alegando proteção de dados. Camila se colocou diante dele e leu em voz alta o número do procedimento federal. Outros funcionários começaram a filmar. A estratégia de Lívia funcionava: quanto mais público o corredor, menor a chance de alguém fabricar outra emergência silenciosa.

A esposa de seu Orlando surgiu perto da recepção. Reconheceu Lívia apesar do vestido manchado e segurou-lhe o braço.

"Meu marido perguntou por você. Disseram que você tentou matá-lo. Eu não acreditei."

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"Guarde todas as receitas e não fale com a direção sem advogado", respondeu Lívia. "Eles podem precisar do depoimento de vocês."

"Ele está vivo porque você disse não. Eu vou falar onde for preciso."

Não era absolvição legal, mas devolveu a Lívia uma parte do nome que o hospital tentara tomar.

Helena chegou poucos minutos depois, chamada pela procuradora. O projétil estava alojado próximo ao ombro, e o pulmão começava a colapsar. A equipe instalou drenagem torácica e levou Caio ao centro cirúrgico.

Antes de entrar, Caio segurou a lateral da maca.

"Ravi."

O chefe de segurança se aproximou.

"Não vá atrás dos homens. Entregue imagens, armas recolhidas e nomes à Polícia Federal."

Ravi pareceu surpreso.

"Tem certeza?"

Caio olhou para Lívia.

"Dei minha palavra."

Foi levado para dentro antes que ela respondesse.

Lívia permaneceu do lado de fora.

Desta vez, era ela quem esperava como família sem saber se tinha o direito de se chamar assim.

A procuradora sentou-se ao seu lado e mostrou o telefone verdadeiro de Tomás dentro de um invólucro oficial.

"A chave está sob custódia. Precisamos de sua autorização como testemunha da entrega para abrir o arquivo."

Lívia assinou. Não pediu que Caio mantivesse uma cópia. Não permitiu que o grupo Ferraz controlasse o que viria depois.

Enquanto esperava, dona Sônia ligou. Vira o ataque nas transmissões e queria atravessar a ponte imediatamente.

"Fique em casa até a polícia confirmar segurança", pediu Lívia.

"Você está sozinha?"

Lívia olhou para Helena entrando e saindo do centro cirúrgico, para Camila prestando depoimento e para a advogada organizando recibos.

"Não. Desta vez, não."

Duas horas mais tarde, Helena saiu.

"Ele vai ficar bem. O tiro não atingiu grande vaso."

Quando Caio despertou, Lívia estava junto à janela da recuperação.

"Você está brava", murmurou ele.

"Você trocou meu telefone sem me contar."

"Se soubesse, teria olhado para ele de outro jeito."

"Proteção sem escolha ainda é controle."

Caio fechou os olhos, aceitando o golpe.

"Tem razão."

"Eu poderia ter perdido você."

Ele voltou a fitá-la.

"Eu poderia ter resolvido tudo dois dias atrás. Sabia onde encontrar Nogueira. Sabia quem pressionar até falar."

"Por que não fez?"

"Porque você me obrigou a escolher entre vingança e não transformar você em cúmplice do pior homem que eu sei ser."

Caio moveu a mão sobre o lençol, deixando-a aberta entre os dois. Não a segurou.

"Quando você entrou no meu carro", disse ele, "eu pensei que proteger significava decidir mais rápido do que todos. Era assim que mantinha minha família viva."

"E foi assim que quase me transformou numa peça do seu plano."

"Eu sei. Não vou pedir que esqueça."

"Nem que eu perdoe porque levou um tiro?"

"Principalmente isso. Heroísmo pode ser outra forma de não pedir consentimento."

Lívia sentiu a raiva perder a borda, não porque ele sofria, mas porque finalmente compreendia o erro sem tentar romantizá-lo.

"Da próxima vez, conte o plano."

"Espero que não exista próxima vez."

"Conte mesmo assim."

"Está bem."

Lívia colocou os dedos sobre os dele.

A procuradora entrou antes que algum deles dissesse mais.

"Abrimos as contas. Álvaro recebeu o dinheiro, mas não autorizou o pagamento final aos atiradores."

Ela mostrou a assinatura eletrônica recuperada.

O nome no certificado era Heitor Augusto Bastos.

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