"Ela Foi Demitida por Salvar uma Vida" Capítulo 5 — Máquinas Não Mentem
Capítulo 5 — Máquinas Não Mentem
Lívia não ligou para Camila.
Se o telefone da farmacêutica estivesse sendo monitorado, uma chamada seria suficiente para denunciá-la. Em vez disso, abriu o aplicativo usado pelos funcionários para trocar plantões e enviou uma mensagem antiga, aparentemente banal.
“Ainda precisa da receita do bolo de laranja?”
Era uma frase que as duas haviam combinado meses antes para situações em que não podiam falar livremente.
A resposta chegou seis minutos depois.
“Só consigo buscar às 14h, na loja de sempre.”
Loja significava a farmácia 24 horas em frente ao acesso de serviço do Santa Augusta. Quatorze horas coincidia com a troca da equipe de segurança.
Lívia mostrou a tela a Caio.
"Vou sozinha."
"Não."
"Isso não foi um pedido."
"Há homens esperando no seu prédio e você pretende caminhar até o hospital que acabou de denunciá-la."
"Se seus seguranças entrarem comigo, qualquer prova será tratada como material obtido por invasão. Camila é funcionária. Ela pode acessar a bomba para inspeção farmacêutica. Eu ficarei fora do hospital."
Caio cruzou os braços.
"Ravi fica a uma quadra. Você usa um comunicador."
"Sem armas dentro do hospital."
"A uma quadra", repetiu ele.
Às 13h58, Lívia sentou-se no fundo da farmácia usando boné, máscara e uma jaqueta emprestada. Camila entrou pelo lado oposto e fingiu procurar vitaminas.
"Heitor mandou apagar seu relatório", sussurrou sem olhar para ela. "O pessoal da TI removeu o vídeo do corredor e alterou o histórico visível da prescrição."
"E a bomba?"
"O equipamento registra localmente cada comando. Para apagar, precisam conectar o aparelho à estação técnica. Eu o retirei do leito e registrei falha de calibração. Está na sala da farmácia clínica."
"Você consegue exportar o log dentro das suas atribuições?"
"Consigo gerar um relatório de manutenção e farmacovigilância. Mas meu acesso ficará registrado."
"Ótimo."
Camila finalmente olhou para ela.
"Ótimo?"
"Se apagarem o relatório depois do seu acesso, criam outra trilha. Não vamos roubar a prova. Vamos obrigá-los a destruí-la deixando marcas."
Lívia entregou um cartão vazio lacrado e o contato da advogada do sindicato.
"Exporte duas cópias. Uma vai diretamente para a advogada. A outra fica com você até eu confirmar o recebimento. Fotografe o número de série ao lado do seu crachá e grave a tela durante todo o processo."
Camila empalideceu.
"Se descobrirem, eu perco o emprego."
"Eu perdi o meu porque agi sozinha. Não vou pedir que faça o mesmo. Você pode sair agora."
"E deixar que digam que eu não vi?"
Camila apertou o cartão na mão.
"Quinze minutos."
Ela atravessou a rua e entrou pelo acesso de funcionários. Lívia acompanhou pelo celular a gravação ao vivo: crachá, corredor, porta da farmácia clínica, número de série.
A bomba ligou.
Na tela surgiu o registro das 22h47. A dose fora alterada no terminal médico de Álvaro Nogueira sete minutos antes de Lívia interromper a infusão.
Havia também uma segunda entrada.
Às 23h12, depois de Lívia já estar na sala de Heitor, o perfil administrativo do diretor acessara remotamente o equipamento.
"Pegamos os dois", murmurou Lívia.
Camila exportou o primeiro arquivo. Quando iniciou a segunda cópia, uma voz masculina soou atrás dela.
"Senhora Rocha, afaste-se do aparelho."
Dois seguranças apareceram na gravação.
Camila enfiou o cartão no bolso do jaleco.
"Estou cumprindo protocolo de farmacovigilância."
"O diretor Bastos determinou o recolhimento do equipamento."
A transmissão tremeu. Um dos homens tomou a bomba. O outro tentou segurar Camila pelo braço.
Lívia se levantou.
"Ravi, entre pelo acesso de serviço."
A voz de Caio respondeu no comunicador.
"Estamos indo buscar vocês."
"Sem invadir. Hoje é quarta-feira. Às duas e quinze acontece o teste semanal do alarme de incêndio. O portão lateral abre automaticamente durante três minutos."
"E se eles desligaram o teste?"
"Então eu mesma aciono o alarme manual da farmácia. Há fumaça saindo do quadro elétrico."
Ela derrubou discretamente um frasco de água sobre uma extensão sobrecarregada atrás do balcão. Faíscas surgiram. A atendente gritou ao ver a fumaça, puxou o alarme e começou a retirar os clientes.
No Santa Augusta, o aviso de evacuação preventiva ecoou pelos corredores. As portas de contenção se abriram conforme o protocolo.
"Agora, Camila", disse Lívia.
A farmacêutica se soltou no fluxo de funcionários e saiu pelo portão lateral. Ravi a colocou num carro comum, sem logotipo e sem exibir arma alguma.
O segundo cartão não havia terminado a cópia.
Mas o primeiro já estava a caminho da advogada.
Num escritório emprestado pelo sindicato, as duas assistiram ao arquivo ser duplicado em três destinos. Uma cópia foi enviada a uma procuradora por meio da advogada; outra, a um jornalista investigativo chamado Bruno Lessa. A terceira ficou num armazenamento programado para liberar o material automaticamente se Lívia não digitasse uma senha a cada doze horas.
A advogada assinou um recibo descrevendo o cartão, o horário e quem o entregara. Camila também gravou uma declaração curta sem interpretar o conteúdo: limitou-se a explicar por que tinha autorização funcional para gerar o relatório.
"Eles não podem mais apagar", disse Camila.
"Podem tentar nos desacreditar."
Lívia escreveu do próprio número para Heitor:
“Tenho parte do registro da bomba. Quero negociar minha saída sem escândalo.”
Camila arregalou os olhos.
"Você quer negociar?"
"Quero que ele acredite nisso. Se pensa que tenho apenas uma parte, tentará limpar o restante. Cada acesso novo ficará no espelho de auditoria externo."
O telefone tocou menos de um minuto depois.
"Você está cometendo um erro muito maior do que imagina", disse Heitor.
Lívia ativou a gravação autorizada por sua advogada e manteve a voz insegura de propósito.
"Eu só quero meu nome de volta."
"Entregue o que roubou e talvez possamos corrigir a comunicação ao conselho."
"Não roubei nada."
"Não teste minha paciência. Pessoas que se aproximam dos Ferraz costumam desaparecer."
A ligação terminou.
O blefe funcionara. Vinte e três minutos depois, o sistema externo registrou novo acesso de Heitor à bomba e tentativa de restauração de fábrica.
Ao anoitecer, Tomás já conseguia falar sem sedação. Confirmou que Álvaro o abordara no jantar beneficente da semana anterior e perguntara exatamente por qual saída deixaria o evento.
"Ele disse que queria evitar os fotógrafos", contou. "Heitor estava ao lado dele."
Caio colocou sobre a mesa os extratos preliminares de uma investigação financeira. Álvaro recebera seis transferências PIX fracionadas, totalizando R$ 380 mil. O pagador era a Atlântica Refrigeração.
Lívia sentiu o alívio durar menos de um segundo.
No alto de cada contrato da empresa havia um selo azul:
FORNECEDOR HOMOLOGADO — GRUPO FERRAZ.
Ela virou a última página.
A assinatura eletrônica que autorizava o cadastro vinha do gabinete de Caio.
Lívia ergueu os olhos para ele.
"Você não me trouxe para descobrir quem tentou matar Tomás."
Fechou a pasta com força.
"Trouxe porque precisava que eu limpasse uma prova que leva até você."
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