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"Ela Foi Demitida por Salvar uma Vida" Capítulo 4 — A Mulher Que Não Podia Voltar Para Casa

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Capítulo 4 — A Mulher Que Não Podia Voltar Para Casa

"Nogueira", Tomás repetiu, quase sem voz.

Caio entrou no quarto no mesmo instante.

"O que ele disse?"

Lívia soltou com cuidado os dedos do paciente de seu pulso.

"Disse o nome do médico que me ameaçou e participou da alteração da dose no Santa Augusta. Mas ele acabou de sair de uma cirurgia e ainda está sob efeito da anestesia. Isso é uma pista, não um depoimento."

Caio olhou para o irmão. A raiva surgiu silenciosa, endurecendo cada linha de seu rosto.

"Para mim, basta."

"Para fazer o quê?"

Ele não respondeu.

Lívia se colocou entre Caio e a porta.

"Se mandar alguém atrás de Álvaro Nogueira agora, vai destruir a única chance de provarmos o que ele fez."

"Ele tentou matar meu irmão."

"Então você quer vingança por uma noite ou uma condenação que ele não consiga comprar?"

Os dois se encararam até Helena aparecer no corredor.

"Meu paciente precisa de silêncio", disse a cirurgiã. "E minha enfermeira precisa dormir antes de cair em cima dele."

"Não sou sua enfermeira", murmurou Lívia.

"Hoje foi. Agora vá descansar."

Lívia acordou três horas depois numa suíte do andar superior. Alguém deixara suas roupas secas sobre uma poltrona, ainda dentro de um saco da lavanderia. Ninguém a havia trocado. Esse detalhe aliviou uma tensão que ela não percebera carregar.

Seu celular mostrava quarenta e duas mensagens.

A primeira era da mãe. A segunda, do banco. As demais vinham de colegas, números desconhecidos e jornalistas.

O Hospital Santa Augusta publicara uma nota às seis da manhã:

“A profissional foi desligada após conduta que colocou um paciente em risco. O hospital reafirma seu compromisso com a excelência e a segurança.”

Lívia leu a frase duas vezes.

Eles tinham transformado a pessoa que impedira o erro na autora do perigo.

Ela ligou para o sindicato dos enfermeiros. A advogada de plantão encontrou seu nome no sistema antes que Lívia terminasse de se apresentar.

"O hospital comunicou uma ocorrência grave ao conselho regional", explicou a mulher. "Alegam que você interrompeu tratamento prescrito e retirou material do setor."

"Eu anexei tudo ao protocolo SA-4471."

"O hospital informa que o protocolo está sob revisão por possível adulteração. Não fale com a imprensa. E não assine nada."

Lívia desligou com a garganta seca.

Caio aguardava no corredor. Usava camisa branca com as mangas dobradas e segurava uma bandeja com café, pão de queijo e uma omelete.

"Você fica péssimo interpretando serviço de quarto", disse ela.

"É a primeira reclamação que recebo."

"Duvido que alguém tenha coragem de reclamar."

Ela passou por ele.

"Quero ir para casa."

"Não pode."

Lívia parou.

"Ontem eu aceitei cuidar do seu irmão. Não aceitei pertencer à família Ferraz."

"Você não pertence a ninguém."

Caio colocou a bandeja numa mesa e abriu um tablet. A tela mostrava a entrada do prédio de Lívia, em Catete. Dois homens estavam dentro de um carro cinza. Um terceiro fingia mexer no interfone.

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"Chegaram às quatro e dezessete", disse ele. "Um deles trabalha para uma empresa de segurança ligada ao Consórcio Norte."

"Como conseguiu a câmera do meu prédio?"

"O síndico vende acesso por menos do que você imagina."

"Isso deveria me tranquilizar?"

"Não. Deveria mostrar que seu endereço deixou de ser seguro."

Caio deslizou outro documento para ela. Era um contrato de consultoria médica com salário anual de R$ 480 mil, apartamento protegido e carro.

Lívia fechou o arquivo sem chegar à segunda página.

"Não vou trocar um homem que decidia minha carreira por outro."

"Estou oferecendo proteção."

"Está oferecendo uma gaiola mais cara."

Caio apoiou as mãos na mesa.

"Então diga o que aceita."

Lívia pensou no carro diante de seu prédio, na falsa denúncia e em sua mãe recebendo uma localização que ela ainda não cancelara.

"Setenta e duas horas. Um quarto com chave do lado de dentro. Meu telefone fica comigo. Posso falar com minha advogada sem ninguém ouvindo. E nenhuma ação contra Nogueira ou Bastos sem me avisar."

"Você não pode me impedir de proteger minha família."

"Posso impedir que use meu nome para justificar uma execução."

Caio permaneceu em silêncio.

"Setenta e duas horas", concordou. "Depois, você decide de novo."

Lívia pegou o café.

Antes de tocar no telefone de Tomás, ela ligou para a mãe por vídeo. Manteve a parede branca da suíte ao fundo e disse apenas que estava segura, hospedada com colegas após uma ocorrência grave.

"Você perdeu o emprego?" perguntou dona Sônia.

Lívia fechou os olhos por um instante.

"Como sabe?"

"Uma vizinha viu seu nome numa página de notícias. Eles estão dizendo coisas horríveis."

"Eu impedi que um paciente recebesse uma dose errada. Tenho provas, mas preciso de alguns dias para organizar tudo."

"Volte para Niterói."

"Ainda não. Há pessoas observando meu prédio."

Caio permaneceu longe, sem tentar ouvir, mas Lívia viu a tensão surgir em seus ombros.

"Mãe, quero que encaminhe minha localização e a placa que recebeu para a advogada do sindicato. Não entregue a mais ninguém. Se eu não ligar duas vezes por dia, procure a polícia e a imprensa ao mesmo tempo."

Dona Sônia ficou pálida.

"Em que você se meteu?"

"Eu disse não para o homem errado. Agora vou garantir que ele escute."

Depois da ligação, Caio colocou sobre a mesa um aparelho novo, ainda lacrado.

"Linha criptografada."

"Meu telefone continua comigo."

"Continua. Esse é um segundo canal, não uma coleira."

Lívia aceitou o aparelho, mas escreveu o número de série no bloco da advogada antes de ligá-lo. Caio viu e não comentou.

"Agora quero o telefone de Tomás."

Ravi trouxe o aparelho num saco de evidências improvisado. A tela estava quebrada, mas funcionava. Tomás usava reconhecimento facial; com autorização de Helena, Caio o despertou por alguns segundos.

"A Câmara Dezoito", disse Lívia. "Você deixou alguma coisa no celular?"

Tomás abriu os olhos com esforço.

"E-mail... programado. Pasta Aurora."

Depois de desbloquear o aparelho, eles encontraram uma mensagem agendada para o meio-dia. Havia fotos de contêineres, lacres adulterados e o logotipo de uma empresa chamada Atlântica Refrigeração.

No último anexo, aparecia um convite digital para o jantar beneficente do Hospital Santa Augusta no Museu do Amanhã.

A lista de convidados incluía Álvaro Nogueira e Heitor Bastos.

Os metadados das fotos mostravam que Tomás estivera com os dois menos de uma hora antes do ataque.

"Eles sabiam quando ele sairia", disse Lívia.

Caio aproximou o rosto da tela.

"E sabiam o hospital para o qual seria levado."

O celular de Lívia vibrou.

Uma mensagem de Camila apareceu e desapareceu antes que ela pudesse responder. A farmacêutica a apagara quase imediatamente.

Mas Lívia já havia lido.

“A bomba de infusão ainda guarda tudo.”

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