"Ela Foi Demitida por Salvar uma Vida" Capítulo 3 — Dez Minutos Para Não Morrer
Capítulo 3 — Dez Minutos Para Não Morrer
Caio Ferraz ficou imóvel por dois segundos.
Depois retirou o paletó, arregaçou as mangas e perguntou:
"O que você precisa?"
"Dois acessos calibrosos, aquecedor de fluidos, ultrassom portátil e o estoque de sangue. Também preciso de uma cirurgiã chamada Helena Prado."
O técnico junto ao monitor franziu a testa.
"Doutora Helena se aposentou."
"Ela foi chefe do trauma do Souza Aguiar por vinte anos. Foi minha professora numa capacitação. Digam que Lívia Azevedo está pedindo dez minutos por vídeo."
Caio apontou para o homem da cicatriz.
"Ravi, encontre-a. Sem assustar ninguém."
"E diga que a decisão é dela", acrescentou Lívia. "Se ela disser não, ninguém toca na família dela."
Ravi olhou para Caio. O chefe assentiu.
Lívia cortou o restante da camisa de Tomás e posicionou o transdutor do ultrassom. A imagem granulada revelou líquido onde não deveria haver.
"Sangue no abdômen", disse. "Provável lesão no baço ou em vaso próximo. Estamos perdendo a janela."
Uma auxiliar trouxe quatro bolsas.
"Tipo AB positivo, conforme a ficha do senhor Tomás."
Lívia alcançou a primeira bolsa, mas parou ao ver a etiqueta presa à caixa térmica. O nome estava certo. A data de nascimento também.
O tipo sanguíneo, não.
Tomás usava uma pulseira antiga de doador no punho, parcialmente escondida pelo relógio. O código começava com O NEG.
"Quem imprimiu essa ficha?"
"Veio do prontuário particular da família", respondeu a auxiliar.
"Não conecte nada."
Caio se virou.
"Ele precisa de sangue."
"E pode morrer se eu usar o sangue errado. Você sabe o tipo dele?"
"AB positivo. Está no arquivo desde sempre."
Lívia ergueu a pulseira de doador.
"Então por que o banco de sangue registrou O negativo?"
O silêncio pesou sobre a sala.
Ela pegou dois tubos de coleta.
"Prova de compatibilidade agora. Quero tipagem à beira-leito, duas amostras coletadas separadamente e fotografem os lacres antes de abrir qualquer bolsa."
"Isso leva tempo", disse Caio.
"Administrar o sangue errado leva menos. Para matar."
Ele não discutiu novamente.
Enquanto a auxiliar trabalhava, Lívia posicionou oxigênio, ajustou os fluidos aquecidos e manteve Tomás coberto para evitar hipotermia. A tríade de trauma rondava o leito: frio, perda de coagulação, acidose. Cada minuto aproximava os três.
O tablet sobre a bancada tocou.
Uma mulher de cabelos brancos apareceu na tela, usando óculos e um robe azul-marinho.
"Lívia?"
"Doutora Helena, desculpe ligar assim. Homem, vinte e nove anos, ferimento por arma de fogo no quadrante superior esquerdo, sem saída, treze minutos até o primeiro atendimento. Hipotenso, taquicárdico, ultrassom positivo para líquido livre."
Helena mudou de expressão imediatamente.
"Onde você está?"
"Não posso dizer pela chamada. Tenho uma sala equipada, mas não tenho cirurgião."
"Você não vai abrir esse paciente."
"Eu sei. Preciso mantê-lo vivo até alguém chegar."
Helena observou o monitor através da câmera.
"Quanto tempo até transporte seguro?"
Caio respondeu:
"Não haverá transporte para hospital público. Há homens esperando por ele."
"Então desligue a câmera do senhor e deixe a profissional falar", disse Helena.
Lívia quase sorriu.
Durante os minutos seguintes, Helena orientou o controle temporário, a reposição equilibrada e a preparação da sala. Lívia repetia cada ordem em voz alta, verificava cada dose e exigia confirmação de quem executava.
A tipagem chegou.
O negativo.
Caio encarou a ficha falsa como se fosse uma sentença.
"Alguém alterou o arquivo."
"Sim", disse Lívia. "E sabia que, numa emergência, ninguém perderia tempo conferindo."
Ela fotografou a etiqueta, a pulseira de doador, os tubos e o resultado. Depois colocou tudo num saco transparente e escreveu data, hora e os nomes de quem estava presente.
"Por que está fazendo isso agora?" perguntou Ravi.
"Porque amanhã alguém vai dizer que foi confusão. Depois de amanhã, vai dizer que nunca aconteceu."
Caio olhou para ela de um jeito diferente.
Não como quem observava uma funcionária.
Como quem finalmente reconhecia uma aliada.
A primeira bolsa compatível começou a correr pelo aquecedor. A pressão subiu apenas alguns pontos.
"Ainda não basta", disse Lívia.
Helena saiu do enquadramento por alguns segundos e voltou vestindo uma blusa escura.
"Estou indo."
Caio se aproximou do tablet.
"Um carro chega em cinco minutos."
"Nenhum comboio na minha rua", respondeu Helena. "Uma viatura discreta, uma motorista mulher e ninguém armado entrando no prédio."
"Aceito."
Lívia percebeu a importância daquela palavra. Caio Ferraz não estava acostumado a aceitar condições. Naquela noite, porém, já aceitara as dela duas vezes.
Tomás piorou antes da chegada da cirurgiã. O monitor disparou um novo alarme; sua pressão voltou a cair, e o abdômen ficou mais tenso.
"Lívia", avisou Helena pela tela, "se ele perder pulso, você inicia o protocolo. Até lá, não invente heroísmo. Seu trabalho é entregar um paciente vivo à equipe cirúrgica."
"Entendido."
Lívia tomou a mão de Tomás.
"Você vai me ajudar agora. Abra os olhos."
Ele não reagiu.
Ela pressionou o leito ungueal e repetiu o nome dele.
"Tomás, seu irmão está aqui. Se quer brigar com ele depois, precisa ficar vivo."
Os olhos se abriram por uma fresta.
Caio inclinou-se sobre o leito.
"Eu estou aqui."
"Câmara... dezoito", murmurou Tomás.
Lívia trocou um olhar rápido com Caio. Ele também conhecia o número no recibo.
"O que há na câmara dezoito?" perguntou ela.
Tomás tentou responder, mas tossiu e perdeu a consciência outra vez.
As portas se abriram.
Helena entrou acompanhada de uma anestesista e dois profissionais de sua confiança. Avaliou o ultrassom, os acessos, as bolsas lacradas e a documentação de Lívia.
"Bom trabalho. Agora me entregue o caso."
Lívia fez a passagem completa em menos de um minuto. Helena ouviu sem interromper e então conduziu a equipe para a cirurgia.
Caio tentou entrar.
Lívia bloqueou a porta com o braço.
"Não."
"Ele é meu irmão."
"E lá dentro ele é paciente. Você pode esperar aqui como qualquer família espera."
Ravi pareceu prender a respiração.
Caio olhou para o braço dela, depois para seu rosto. Por fim, recuou.
Uma hora e vinte minutos depois, Helena saiu com sangue no avental e cansaço nos olhos.
"Lesão esplênica e sangramento importante. Conseguimos controlar. Ele ainda precisa de observação intensiva, mas vai sobreviver."
Caio fechou os olhos por um instante.
Quando os abriu, procurou Lívia.
"Você salvou meu irmão."
"Eu o mantive vivo. Ela o operou. A equipe o salvou."
Helena retirou as luvas.
"Não diminua o que fez. Mais dez minutos sem controle, ou uma única bolsa daquele sangue incompatível, e eu teria chegado tarde."
As pernas de Lívia começaram a tremer. Ela se apoiou na bancada, sentindo todo o medo que adiara cobrar de uma vez.
Caio aproximou-se, mas não a tocou.
"Posso?"
Era apenas uma palavra. Ainda assim, depois de uma noite inteira de homens tomando decisões sobre seu trabalho, seu nome e seu futuro, a pergunta a atingiu com força.
Lívia assentiu.
Ele segurou seu cotovelo até que ela recuperasse o equilíbrio.
"Você deveria comer e descansar."
"Antes, quero cópias das fotos, dos lacres e da ficha falsa."
"Para quê?"
"Para garantir que a próxima pessoa que tentar matar seu irmão tenha de fazer isso diante de testemunhas."
Um som fraco veio do leito, atrás da porta entreaberta. Tomás despertava da anestesia, os lábios secos tentando formar uma palavra.
Lívia entrou e se inclinou para ouvi-lo.
Ele agarrou seu pulso com uma força surpreendente.
"Nogueira", sussurrou.
O nome do médico que destruíra a carreira de Lívia permaneceu no ar como o cheiro de pólvora depois de um disparo.
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