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"Ela Foi Demitida por Salvar uma Vida" Capítulo 2 — Sangue no Banco de Couro

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Capítulo 2 — Sangue no Banco de Couro

O carro arrancou antes que Lívia conseguisse colocar os dois pés no assoalho.

Ela se apoiou no banco, abriu a camisa ensanguentada do ferido e encontrou uma perfuração abaixo das costelas, no lado esquerdo. Não havia saída visível.

"Nome e idade."

"Tomás Ferraz. Vinte e nove", respondeu Caio.

"Quando aconteceu?"

"Há treze minutos."

"Arma?"

"Pistola."

"Alergias, doenças, medicamentos?"

"Nenhuma doença. Não sei sobre alergias."

Lívia ergueu os olhos.

"Você sabe quantas empresas ele fiscaliza, mas não sabe se seu irmão é alérgico a algum remédio?"

O maxilar de Caio se contraiu.

"Salve a bronca para quando ele estiver acordado."

"Se quer que ele acorde, responda apenas ao que eu perguntar."

O homem da cicatriz passou um estojo de trauma pelo banco dianteiro. Lívia encontrou luvas, soro, cateteres, gaze hemostática e um oxímetro portátil. Material melhor do que havia em algumas ambulâncias.

Ela encaixou o sensor no dedo de Tomás.

Saturação caindo. Pulso rápido e fraco. Pele fria.

"Ele está entrando em choque. Caio, mantenha pressão firme. Não tire a gaze para olhar. Cada vez que levanta, rompe o coágulo que está tentando se formar."

Ela pediu ao motorista que acendesse a luz interna e instalou um acesso venoso enquanto o veículo cortava o Aterro do Flamengo. A agulha entrou de primeira.

Tomás gemeu.

"Fique comigo", disse Lívia, inclinando-se. "Tomás, consegue me ouvir? Aperte minha mão."

Os dedos dele se moveram uma vez.

Caio soltou o ar.

"Ele ouviu."

"Isso não significa que está seguro. Quanto falta?"

"Oito minutos", respondeu o motorista.

"Temos quatro."

Caio pegou o telefone.

"Acelere."

"Não." Lívia segurou o encosto quando o carro mudou de faixa. "Uma colisão termina o serviço de quem atirou. Velocidade constante. E ligue para o médico de novo."

"Doutor Pires não atende."

"Então ligue para outro."

"Ninguém aceita entrar na casa dos Ferraz no meio da noite para tratar um homem baleado."

"Talvez porque vocês costumem transformar atendimento médico em segredo de família."

O olhar de Caio ficou frio.

"Talvez porque a última pessoa a saber onde Tomás estaria esta noite trabalhe no hospital do qual você acabou de sair."

Lívia parou por meio segundo.

"Quem?"

"Ainda não sei."

"Então não diga como se soubesse."

Um canto da boca dele quase se moveu, mas Tomás arqueou o corpo e o momento desapareceu.

O oxímetro apitou. Lívia percebeu que a respiração dele ficava mais curta e pediu a cânula de oxigênio.

"Tem outra pessoa ferida?"

"Um dos meus seguranças levou um tiro no ombro", disse Ravi. "Foi atendido em outro lugar."

"Quantos atiradores?"

Caio a observou com atenção.

"Por que isso importa para você?"

"Porque a trajetória, a distância e o tipo de ataque ajudam a prever o ferimento. Se foi tiro cruzado, posso estar procurando mais de uma entrada. Se foi execução a curta distância, quero saber por que erraram."

Ravi respondeu antes do chefe.

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"Dois homens numa moto. Um disparou três vezes. Tomás empurrou um garçom para trás de um carro e recebeu o segundo tiro."

Lívia procurou sob as axilas e ao longo das costas, sem encontrar outra perfuração.

"Então ele não foi pego de surpresa. Viu o ataque começar. Se acordar, não desperdicem tempo perguntando quem apertou o gatilho. Perguntem o que ele descobriu antes disso."

Caio baixou os olhos para o irmão.

"Ele me pediu uma reunião esta manhã. Eu adiei."

Foi a primeira frase que soou menos como informação e mais como culpa.

"Você poderá se culpar depois", disse Lívia. "Agora segure a compressa."

Lívia apalpou com cuidado o abdômen. A rigidez aumentava. Sangramento interno, provavelmente. O material dentro do carro apenas compraria tempo.

"Para onde estamos indo?"

"Santa Teresa."

"Hospital?"

"Uma clínica privada."

"Registrada?"

O silêncio foi resposta suficiente.

Lívia puxou o próprio celular, digitou uma mensagem e ativou o compartilhamento de localização.

O homem da cicatriz virou-se no banco.

"Guarde isso."

"Não. Minha mãe recebe minha localização se eu não cancelar em duas horas. Se alguém tentar tomar o aparelho, ela também recebe a placa deste carro."

Ela mostrou a foto que fizera discretamente antes de entrar.

"Essa é minha condição para continuar."

Caio olhou para a tela e depois para ela.

"Você acha que isso impediria alguma coisa?"

"Não. Mas garante que haverá perguntas. Homens como você sobrevivem porque as pessoas têm medo de fazê-las."

O carro mergulhou numa rua estreita, subindo entre casarões antigos e muros cobertos de chuva.

Caio não ordenou que tirassem o telefone dela.

"Deixe a localização ativa", disse apenas.

Lívia abriu mais uma embalagem de gaze. Quando levantou ligeiramente o paletó de Tomás, algo caiu do bolso interno e ficou preso entre o banco e sua coxa.

Era um recibo de estacionamento, molhado de sangue. No verso, alguém havia escrito à mão: CÂMARA FRIA 18 — CAIS DO NORTE.

Ela memorizou as palavras antes de devolver o papel ao bolso.

"Onde ele foi baleado?"

"Saindo de um jantar no Centro."

"O que ele fazia antes?"

"Uma auditoria."

"Em qual empresa?"

"Na minha."

A resposta veio sem orgulho.

Tomás abriu os olhos. Não pareceu reconhecer o irmão. Seus lábios se moveram.

Lívia aproximou o ouvido.

"Não... hospital..."

"Ele está delirando", disse Caio.

"Não. Está com medo. Tomás, quem está no hospital?"

Mas os olhos dele se fecharam novamente.

O portão de um casarão se abriu. O comboio entrou numa garagem subterrânea, onde uma equipe aguardava com uma maca.

Lívia desceu sem retirar a pressão do ferimento.

"Ninguém move antes de eu contar até três. Um, dois, três."

Transferiram Tomás. Ela correu ao lado da maca por um corredor branco até uma sala equipada com monitor, ventilador e armários de emergência.

Aquilo não era uma clínica improvisada. Era uma unidade de trauma clandestina.

"Onde está o cirurgião?" perguntou.

Ninguém respondeu.

Caio fez outra ligação e colocou no viva-voz.

Uma voz masculina surgiu, trêmula.

"Senhor Ferraz, não posso ir."

"Meu irmão está morrendo."

"Recebi fotos da minha filha saindo da escola. Se eu atravessar a porta de casa, eles a levam. Sinto muito."

A ligação terminou.

Caio lançou o telefone contra a parede. O aparelho se partiu.

O monitor começou a apitar mais rápido.

Pressão: setenta por quarenta.

Lívia puxou um avental e o amarrou.

"Quem fez isso preparou cada passo", disse. "O tiro, o hospital e agora o médico."

Caio se aproximou.

"Você consegue operá-lo?"

"Não. Sou enfermeira de emergência, não cirurgiã. Se eu abrir o abdômen dele sem equipe, posso matá-lo."

"Então faça alguma coisa."

Lívia bateu a mão na bandeja metálica. O som fez todos se calarem.

"Se quer seu irmão vivo, pare de me ameaçar e faça exatamente o que eu mandar."

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