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"A Menina Que Trouxe o Rei da Noite de Volta" Capítulo 6 — A Flor Sobre o Travesseiro

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Capítulo 6 — A Flor Sobre o Travesseiro

Marina recusou o apartamento protegido de Augusto antes que Caio terminasse a oferta.

“Não vou levar minha filha para um endereço controlado por ele.”

“Mauro já sabe onde vocês moram.”

“Por isso vou seguir o plano combinado com a delegada.”

Caio colocou um celular simples sobre a mesa da padaria onde haviam se encontrado.

“Este aparelho tem um único número. Não rastreia você, não grava ambiente e não dá acesso à sua localização. Pode mandar um técnico verificar.”

Marina não tocou nele.

“Augusto mandou?”

“Mandou oferecer. A escolha é sua.”

Ela examinou o aparelho, retirou a bateria e guardou as duas peças separadas na bolsa.

“Vou verificar.”

Caio quase sorriu.

“Ele disse que você faria isso.”

“Diga a ele que me conhecer sem permissão não é motivo de orgulho.”

Naquela tarde, Marina levou Bia para uma casa de acolhimento temporário administrada por uma associação comunitária indicada pela Defensoria. O endereço era protegido, e Dona Célia iria junto por dois dias.

Para quem observasse, Marina manteria a rotina habitual.

Saiu da creche no horário de sempre levando o carrinho coberto por uma manta, embora estivesse vazio. Entrou em um ônibus no Grajaú, desceu duas paradas depois e tomou outro na direção contrária.

O sedã preto apareceu atrás dela.

Marina fotografou o veículo pelo reflexo da janela e enviou a imagem à delegada Renata.

Depois entrou em uma farmácia com duas saídas. Deixou o carrinho com uma policial à paisana e saiu pela porta lateral usando o casaco emprestado de Joana.

O sedã seguiu o carrinho vazio.

Pela primeira vez, Marina soube com certeza que não estava imaginando o perigo.

Leandro foi localizado no fim do dia e intimado por descumprir a ordem de distância depois de enviar outra mensagem. A polícia confirmou que ele não tinha relação com o sedã nem recursos para contratar vigilância.

Havia duas ameaças diferentes.

Uma vinha do passado de Marina.

A outra vinha do mundo de Augusto.

Às onze da noite, a delegada autorizou que Marina voltasse à kitnet acompanhada por uma agente para buscar documentos e roupas. A fechadura não apresentava sinais de arrombamento.

Dentro, tudo parecia no lugar.

Marina entrou primeiro porque conhecia as pequenas desordens da própria casa: a caneca virada ao lado da pia, o pano sobre a cadeira, o desenho de Bia preso à geladeira por um ímã azul.

Parou no meio do cômodo.

“Alguém esteve aqui.”

A agente não perguntou como ela sabia.

Calçou luvas e começou a fotografar.

Marina caminhou até o colchão de Bia.

Sobre o travesseiro infantil havia uma camélia vermelha.

O caule estava limpo, sem espinhos. A flor fora colocada exatamente no ponto onde a cabeça da menina repousava todas as noites.

Marina sentiu os joelhos enfraquecerem.

Não tocou na cama.

Pegou o celular e fotografou a flor de três ângulos. Registrou a janela, a fechadura e o relógio. Enviou tudo para a pasta compartilhada, para a defensora e para a delegada Renata.

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Só então montou o aparelho entregue por Caio.

Augusto atendeu imediatamente.

“Marina?”

“Entraram na minha casa.”

A respiração dele mudou.

“Bia está com você?”

“Está em segurança. Deixaram uma camélia no travesseiro dela.”

Do outro lado, uma cadeira raspou no chão.

“Saia daí.”

“A polícia está comigo.”

“Eu disse para sair.”

“E eu estou dizendo que já fotografei, preservei o local e registrei a ocorrência. Se você mandar alguém atrás de Mauro agora, destrói a chance de ligar essa ameaça a ele.”

Augusto ficou em silêncio por dois segundos.

“Como sabe que foi Mauro?”

“Não sei. Ainda. Você sabe?”

“A camélia é a marca que ele usa quando quer mostrar que entrou em um lugar sem ser convidado.”

“Então passe essa informação à delegada.”

“Marina, ele colocou uma flor onde sua filha dorme.”

“Eu vi.”

“E espera que eu entregue um depoimento e aguarde?”

“Espero que não transforme minha filha na justificativa para começar uma guerra.”

Do outro lado da linha, Augusto não respondeu.

Marina ouviu Caio dizer algo distante. Depois a voz de Augusto voltou mais baixa.

“Venha para um lugar seguro. Não precisa ser minha casa. Você escolhe.”

Era a primeira oferta que deixava uma porta aberta para ela sair.

“Vou para o endereço definido pela polícia”, respondeu. “E você vai falar com a delegada.”

“Sim.”

Marina quase perguntou se ele estava dizendo aquilo apenas para acalmá-la.

Antes, Augusto acrescentou:

“Caio encontrou alguém dentro da contabilidade de Mauro. Um homem chamado Fábio Lessa. Ele quer proteção em troca de registros.”

“Que registros?”

“Pagamentos de veículos, galpões, policiais corrompidos. Talvez o dinheiro usado no atentado contra mim.”

Marina olhou para a camélia sobre o travesseiro.

“E ele entregaria isso a quem?”

“A mim.”

“Então nada muda. Você usa os registros para destruir Mauro, ele usa os seus para destruir você, e outra pessoa deixa uma flor na cama de outra criança.”

“O que está propondo?”

“Que Fábio entregue cópias ao Ministério Público e à polícia. Que a gente faça Mauro acreditar que o arquivo completo ainda pode ser recuperado antes disso.”

Caio entrou na conversa pelo viva-voz.

“Mauro fará um jantar beneficente amanhã no Hotel Imperial Paulista. Fábio estará na equipe financeira do evento.”

Marina conhecia o nome do hotel.

A empresa terceirizada do Santa Aurora também fornecia equipes temporárias de higienização para eventos do Imperial. Escalas, notas fiscais e listas de prestadores passavam pelo mesmo sistema.

“Consigo entrar”, ela disse.

“Não”, Augusto respondeu.

“Você perguntou o que proponho.”

“Propôs usar Mauro como isca, não se oferecer como uma.”

“Ele já me vê como sua fraqueza. Se eu aparecer desesperada para negociar o arquivo em troca de segurança para Bia, ele vai querer ouvir.”

“E se a porta fechar?”

“A cópia vai para a promotora antes de eu chegar perto dele. Haverá gravação em tempo real e policiais no prédio.”

“Isso não elimina o risco.”

“Não. Mas transforma o risco em prova.”

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Augusto demorou a responder.

“Eu não vou ordenar que faça isso.”

“Ótimo. Porque a decisão é minha.”

Na manhã seguinte, a promotora Lívia Rocha recebeu a primeira amostra dos registros de Fábio por intermédio da delegada Renata. Autorizou uma operação discreta, condicionada à preservação das provas e à retirada imediata de Marina diante de qualquer mudança.

Marina exigiu ouvir as condições diretamente. Não aceitaria entrar contando apenas com promessas de homens que podiam mudar de ideia quando surgissem armas. Lívia indicou duas saídas, apresentou a policial responsável pela retirada e definiu uma frase de emergência diferente do sinal combinado com Augusto. Se Marina dissesse “a lua sumiu”, a equipe policial encerraria a operação mesmo sem obter a confissão de Mauro.

Ela repetiu a frase até todos confirmarem que haviam entendido.

O celular de emergência foi verificado por um perito indicado pela Defensoria. Não havia rastreamento oculto.

Marina passou a tarde aprendendo os corredores do Hotel Imperial Paulista, os acessos de serviço e o nome do responsável por cada contrato. Fábio havia escondido uma cópia reduzida dos registros em um pendrive. O arquivo maior estava programado para envio automático se ele não cancelasse o processo até meia-noite.

Às oito e quarenta da noite, Marina vestiu o uniforme preto da equipe de apoio e prendeu o cabelo em um coque simples.

Bia estava segura, longe dali, abraçada ao Coelho.

Augusto esperava em um veículo a duas quadras do hotel. Ainda usava bengala. Caio estava ao seu lado, e pela primeira vez nenhum dos dois carregava o comando da operação.

Marina atravessou a entrada de serviço com um crachá temporário e o pendrive escondido na bainha da manga.

O salão brilhava com lustres de cristal, taças altas e câmeras registrando Mauro Siqueira sorrindo ao lado de uma faixa sobre solidariedade infantil.

No fone discreto, a voz de Augusto chegou baixa.

“Se a porta fechar, eu entro.”

Marina viu Fábio perto da mesa de credenciamento. Do outro lado do salão, Mauro virou o rosto na direção dela.

Seus olhos pararam por tempo demais.

Marina continuou andando.

“Não”, respondeu. “Espere o meu sinal.”

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